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UOL Economia há 53 d • Qua, 09 Set 2026 05:35:00 -0300

Trend dos anos 80: o que você entregou de graça para a IA

Trend dos anos 80: o que você entregou de graça para a IA

Neste fim de semana prolongado de feriado, o feed inteiro do Instagram voltou no tempo. De repente, todo mundo que você conhece apareceu com cabelo armado, jaqueta bufante, roupas esportivas em cores neon e aquela granulação de foto analógica. Parecia que o país inteiro tinha ido parar num videoclipe antigo da MTV ou de algum episódio da série "Miami Vice". Era a trend "como eu seria nos anos 80", feita com ChatGPT, cujo termo explodiu em buscas no Google.

Poucos dias antes, a moda tinha sido outra. No aplicativo Miu AI, mulheres (muitas delas celebridades) compartilharam um vídeo em que uma versão avatar delas simulava cortar o cabelo no estilo chanel, para "testar" o visual curto antes de ir à tesoura de verdade. Detalhe: pagaram por isso, cerca de R$60.Essas trends de Inteligência Artificial, em que a gente entrega nossos dados em troca de alguma versão estilizada de nós mesmos, não é novidade. Já viramos bonequinhos de action figure na embalagem de plástico e personagens da Pixar ou do Studio Ghibli. É divertido, é gratuito (ou quase), e irresistível.

Não quero ser fiscal da diversão alheia, mas o que, afinal, a gente está entregando em troca? Repare num detalhe que todos os tutoriais dessas trends repetem: use uma foto "com o rosto nítido e bem iluminado". Afinal, quanto melhor a imagem, melhor o resultado. Todos ganham, especialmente as empresas de IA por trás.

Porque quando você envia essa selfie para o ChatGPT, ela não evapora depois que a imagem fica pronta. Traduzindo: a foto que você mandou de brincadeira pode entrar, automaticamente, no material usado para treinar o próximo modelo da empresa. Para que isso não aconteça, você precisa saber que a opção existe, ir até as configurações, caçar o menu de controles de dados e desligar o botão. Quase ninguém faz.

E uma vez que a sua imagem entra num ciclo de treinamento, não há botão de desfazer. Não adianta apagar a conversa que depois não resolve: o rosto que você entregou numa tarde de feriado, achando graça, não volta mais. Você doou o rosto em alta definição, de graça, e ainda agradeceu pela diversão.

OK, mas qual é o problema disso? Vou trazer aqui a perspectiva de alguém que já trabalhou em uma empresa que justamente vendia dados organizados para treinamentos de IA. Só que para entender por que uma foto sua vale alguma coisa, é preciso lembrar como essas ferramentas nasceram.

A IA generativa (como o ChatGPT, Gemini e Claude) foi criada varrendo a internet inteira: sites de notícia, fóruns, posts, legendas, vídeos do YouTube... Tudo o que estava disponível e de graça. Foi assim que os modelos aprenderam a escrever, falar, criar e interpretar: consumindo, sem pedir licença, o trabalho de milhões de pessoas.Com algum atraso, veículos de imprensa, grandes grupos de mídia e artistas começaram a processar as empresas, e daí vieram os acordos de licenciamento. O material fácil da internet, hoje, já foi praticamente todo digerido. Só que essa indústria é faminta, não para de evoluir, e ter dados coletados de forma ética, ou seja, consentidos, anonimizados e catalogados, para depois serem treinados não é nada barato.

Esses conjuntos de dados valiosos têm nome: datasets (e existe todo um mercado para consegui-los). Já existem empresas que prometem renda extra para quem topa fazer micro tarefas, como gravar um áudio, filmar um gesto, rotular e classificar algum conteúdo. A remuneração é baixa, a demanda é instável, mas o apelo é sempre o mesmo: me dê seu tempo e ganhe um dinheiro fácil.Para a IA ficar cada vez mais humana ela precisa de coisas que só um corpo humano produz: um áudio com sotaque regional falando de forma espontânea, um vídeo de alguém mexendo uma panela, um rosto real envelhecido ou rejuvenescido, uma pessoa dizendo o que considera ofensivo ou não.

Com as trends de IA que bombam nas redes sociais, a empresa pega carona numa brincadeira aparentemente espontânea. Imagina o preço que seria para poder pagar milhares de pessoas a fornecerem suas faces em diferentes estilos, idades e transformações?

Quer ter uma ideia de como isso pode ser problemático? Pega o caso da Tools for Humanity, empresa cofundada por Sam Altman, o mesmo criador do ChatGPT. Ela desenvolveu um sistema de autenticação biométrica pela íris dos olhos.Nos últimos anos, a companhia montou no mundo inteiro postos para escanear a íris das pessoas com um aparelho chamado Orb. As barraquinhas prometiam cerca de R$ 600 para tirar uma foto dos olhos. Cerca de 500 mil brasileiros toparam; no mundo, estima-se que mais de 17 milhões.

Os postos eram colocados próximos a estações centrais de metrô e de ônibus, ou seja, em lugares com muita circulação de pessoas, muitas de camada mais simples. Só que o pagamento não era em dinheiro, mas na criptomoeda da empresa, a Worldcoin. A falta de transparência fez muita gente só saber de como seria a forma de remuneração após já ser escaneada. Em julho deste ano, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) processou a empresa, pedindo uma indenização de R$ 240 milhões.

É curioso a relação que temos de troca com as big techs. Primeiro, demos a nossa atenção para as redes sociais, que lucraram com cada minuto do nosso olho na tela. Depois, começamos a dar o nosso afeto, quando passamos a conversar com inteligências artificiais como quem conversa com um amigo. Agora, damos o corpo: o rosto, a voz, os gestos, e até a íris.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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