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UOL há 73 d • Qua, 19 Ago 2026 23:00:00 -0300

Lula e Flávio Bolsonaro propõem caminhos diferentes para derrotar facções

Segurança pública, uma das principais preocupações dos brasileiros hoje, é destaque nos programas de governo dos dois principais candidatos à Presidência da República em 2026.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) partem de visões distintas dos mesmos problemas, como era de se esperar. Apesar disso, ambos dão centralidade ao crime organizado com diagnóstico comum e algumas propostas convergentes.

O diagnóstico é de que as organizações criminosas deixaram de ser um problema de tráfico de drogas e armas, roubos e controle territorial e passaram a operar nacional e internacionalmente como estruturas logísticas e financeiras, controlar mercados lícitos e ampliar sua influência sobre instituições e contratos públicos.

Já o ponto de maior convergência é a estratégia de atingir a capacidade econômica do crime organizado, provável efeito da operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, que revelou elos de facções com o sistema financeiro e impôs prejuízos ao crime sem disparar um tiro.

Flávio propõe "seguir o dinheiro", bloquear ativos e desarticular estruturas de lavagem. Lula defende a "asfixia financeira" das facções e afirma que ações articuladas nessa frente já provocaram R$ 35,8 bilhões em prejuízos às organizações criminosas desde 2023.

A aproximação revela uma compreensão mais contemporânea do crime organizado: prender (ou matar) o criminoso da ponta não atinge organizações que têm comando, patrimônio, fornecedores, rotas e operações de lavagem de dinheiro. O Brasil tem hoje 88 facções do crime organizado mapeadas.

Outras convergências neste campo são sobre a importância do controle de fronteiras, do isolamento de lideranças de facções no sistema prisional e da retomada de territórios dominados pelo crime. Pesquisa Datafolha apontou que 68 milhões de brasileiros vivem em áreas dominadas pelo crime organizado.

Os candidatos se afastam no caminho imaginado para alcançar esses objetivos.

Lula propõe mudanças institucionais e estruturantes tidas como essenciais no debate especializado, mas que são de difícil tradução eleitoral. Quer ampliar a presença da União para coordenar as políticas nacionais, aumentar a cooperação entre governo federal, estados e municípios para integrar dados, inteligência, investigações e ações de combate ao crime.

Para centralizar políticas e programas, aposta em um Ministério da Segurança Pública (MSP), como aquele inaugurado por Michel Temer (MDB) em 2018, que já foi promessa da campanha de 2022, mas não saiu do papel.

Como todo candidato à reeleição, Lula também acena com medidas do seu atual governo, como o Programa Brasil Contra o Crime Organizado e a lei antifacção (2026), proposta do governo que foi modificada diversas vezes pelo deputado federal Guilherme Derrite (PL-SP), copartidário de Flávio. Ex-secretário de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas, Derrite hoje é candidato ao Senado e se notabilizou pelas operações Escudo e Verão, contra o crime organizado, que deixaram 84 mortos na Baixada Santista (SP).

Na dimensão preventiva, Lula acrescenta a urbanização de favelas e periferias, requalificação de espaços públicos e ampliação de serviços para reduzir os mercados explorados pelas organizações criminosas. Também propõe policiamento de proximidade, mediação comunitária, justiça restaurativa e políticas voltadas à juventude negra.

Já Flávio Bolsonaro, coerente com o pedido que fez ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação a Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), propõe classificar facções do crime organizado como organizações terroristas. Se nos EUA a mudança amplia possibilidades de investigação e congelamento de ativos suspeitos, no Brasil ela tem impacto duvidoso.

Isso porque o marco jurídico criado pela lei antifacção (15.358/2026) tornou mais amplos os instrumentos de investigação e os mecanismos de bloqueio e confisco de bens do que aqueles da lei antiterrorismo, de 2016. Além disso, terrorismo é crime federal, portanto, da alçada da Polícia Federal e da Justiça Federal, que carecem de recursos humanos para encarar o tamanho e alcance do crime organizado no país.

O candidato do PL organiza sua proposta em torno de medidas punitivas, de forte apelo popular, como o endurecimento de penas, a redução da maioridade penal, a restrição da progressão de pena, a construção de presídios e vigilância tecnológica.

Flávio propõe castração química para condenados por crimes sexuais e que assassinos cumpram integralmente suas condenações —no Brasil, apenas 6 a cada 10 homicídios são investigados.

A política penitenciária é uma das maiores diferenças entre os candidatos. Flávio propõe cinco novos presídios federais de segurança máxima batizados, para impressionar, de sistema Treva, com 500 mil novas vagas no sistema prisional em quatro anos.

A promessa responde ao problema real da superlotação que favorece o domínio de organizações criminosas dentro de presídios, mas ignora outros problemas das prisões e cria novos ao propor que 100% do auxílio financeiro a famílias de presos de baixa renda seja transferido para famílias de vítimas de crimes, sem detalhar critérios.

Com outro foco, Lula propõe reformar o sistema prisional para reduzir superlotação sem falar em construção de novas unidades, mas na melhoria das condições das prisões e ampliação das oportunidades de reinserção social como educação, trabalho, qualificação profissional e geração de renda. Vale lembrar que a maioria das pessoas presas em algum momento sairá de trás das grades.

A tecnologia é outro ponto de convergência, mas com funções diferentes. Lula fala em drones, radares, sensores, satélites e sistemas de rastreamento de armas e munições, e na ampliação do Celular Seguro para proteger fraudes e dificultar a recepção de aparelhos.

Flávio propõe um sistema nacional de reconhecimento facial conectado a bancos de dados criminais, com mais de 1 milhão de novas câmeras em espaços públicos, portos e aeroportos. Diante dos roubos de celulares, aposta em quadruplicar a pena para quem furta e revende os aparelhos.

Outro terreno de convergência é a proteção às mulheres. Lula e Flávio apostam na celeridade de medidas protetivas, na ampliação da rede de acolhida e em monitorar agressores com tornozeleiras eletrônicas, todas medidas importantes, mas que exigem investimento.

E é aí que está a maior lacuna comum aos dois programas: quanto custará executar tudo isso?

Flávio afirma que vai dobrar o orçamento da segurança, sem explicar de onde vai sair o dinheiro. Lula se restringe a especificar origem dos recursos para investimento de estados e municípios em equipamento e infraestrutura de segurança: R$ 10 bilhões do Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS). O restante do investimento necessário às medidas de cada um, ainda não se sabe de onde virá.

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