O que é e para que serve uma nota? No senso comum, nota é um número, geralmente vindo do desempenho de uma prova, que serve para dizer se você é bom ou ruim num determinado tema. Na escola, pode ser a diferença entre passar de ano ou a repetência. Num vestibular ou num concurso público, uma raquítica casa decimal separa quem obteve sucesso de quem, entre muitas aspas, fracassou.
O assunto é complexo. Para as ciências da educação, avaliar é bem mais do que isso — ou deveria ser. Do Ensino Fundamental ao Superior, além de indicar a posição relativa de um indivíduo no conjunto de seus colegas em situação de exame, uma avaliação deveria servir para balizar o trabalho do professor e corrigir rumos — tanto do ensino quanto de quem ainda não aprendeu o esperado.
Isso exige providências diversas: escolher o tipo correto de avaliação (há um universo de possibilidades para além da prova); o momento correto de avaliar (de que adianta um exame no fim do curso se já não há mais tempo para recuperar o aprendizado?); a natureza da avaliação (o conteúdo todo? dividindo em etapas ao longo do tempo?); o que fazer com os resultados (avançar muito mais do apenas fazer julgamentos entre bons alunos e últimos da classe).
Professor não se vê como avaliador
Professores, categoria em que me incluo, ainda não sabem avaliar direito. A afirmação ganha contornos mais precisos com um estudo de pesquisadores das Universidades Federal e Estadual do Ceará (UFC e UECE), que analisaram o cenário global e nacional sobre o tema em uma metanálise, espécie de síntese das pesquisas que já foram publicadas sobre um determinado assunto.
A metanálise realizou uma síntese de 13 estudos publicados entre 2019 e 2024 para investigar o chamado letramento em avaliação. Trata-se do conjunto de saberes e habilidades que permitem ao professor o uso crítico e consciente da avaliação em diversos contextos. Envolve o domínio conceitual (definições e tipos), o conhecimento das ações para avaliar e as finalidades do processo.
Uma das conclusões é que o professor não se vê como alguém responsável por avaliar. "Ele se identifica como professor, na dimensão do ensino, do domínio do conteúdo, mas raramente ele se identifica como avaliador", explica Carlos Renêe Martins Maciel, professor da rede pública de educação em Fortaleza e do Ceará, doutorando na UFC e um dos autores do estudo. "Embora a avaliação seja parte intrínseca da prática profissional, muitos a reduzem a uma prova que quantifica quem tirou zero ou dez."
Renêe, como é conhecido pelos colegas, reforça que essa lacuna é fruto da falta de formação específica. Daniel Brandão Menezes, professor da UECE e também autor do estudo, dá números à carência. "Num curso tradicional de licenciatura, que forma professores especialistas para o ensino Fundamental ou Médio, menos de 2% do currículo se dedica ao tema da avaliação".
Superar a avaliação como julgamento
O resultado é que persiste o que os estudiosos chamam de avaliação de "primeira geração" — focada no julgamento de quem está aprovado ou reprovado. que utiliza a avaliação apenas como julgamento de valor para aprovar ou reprovar.
Visões mais sofisticadas contemplam diferentes perfis e necessidades dos alunos (as formas de avaliar não precisam necessariamente ser as mesmas para todo mundo) e se estruturam como um processo ao longo do tempo. "É a chamada avaliação formativa, em que o erro é visto como um caminho de trabalho e não apenas como um ponto de punição", diz Maria José Costa dos Santos, da UFC e também autora do trabalho. "Os dados de onde a turma errou são preciosos para apontam caminhos para o aprendizado que ainda não se consolidou".
Quanto mais experiência, menos conhecimento sobre avaliar
Um dado da pesquisa contradiz uma ideia arraigada, a de que tempo de serviço reverte em experiência e mais sabedoria profissional. Se o assunto for avaliação, o que ocorre é o inverso: a metanálise identificou uma correlação inversa extremamente forte entre tempo de experiência docente e letramento em avaliação.
Isso significa que professores com mais idade e mais tempo de sala de aula tendem a ter menos formação atualizada e maior resistência a novos modelos avaliativos. "Parte desses profissionais ainda seguem se apoiam em ideias de gerações passadas, que remetem a seu tempo de graduação inicial", diz Renêe.
O problema exige trabalhar na chamada formação em serviço — aquela que atinge quem já está atuando no dia a dia da profissão. Daniel, da UECE, destaca que a maioria dessas ações não produz bons resultados. "São palestras 'show', com grandes nomes da educação que falam por 1 ou 2 horas sobre o tema de maneira ampla e depois vão embora. Falta efetividade", critica. Nesse aspecto, o estudo aponta que formações curtas (de uma semana ou menos) não possuem impactos fortes na mudança de postura do docente.
Para o professor, uma abordagem mais profunda é a chamada "formação em contexto" ou no "chão da escola". Daniel explica que essa abordagem permite que os formadores vejam in loco como incidir na realidade enfrentada pelos professores. É um trabalho mais demorado, com duração mínima de seis meses.
A armadilha das avaliações externas
Os autores criticam o modelo das avaliações de larga escala como o SAEB, usado no cálculo do recém-divulgado Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Muitas escolas têm moldado o ensino apenas para ir bem nessas provas, o que disvirtua a função do ensino. E do ponto da docência, há pouco o que fazer com os dados. "Como eles chegam à escola até um ano depois, o professor não consegue utilizá-los para corrigir as dificuldades dos alunos em tempo hábil", diz Daniel.
O estudo aponta para a urgência de que o letramento em avaliação se torne uma política pública nacional. Esse esforço incluiria [reformar os currículos das universidades para incluir a temática e reforçar a formação em serviço situada e alongada. "É preciso agir o quanto antes. Senão, daqui 30 anos seguiremos discutindo a necessidade de despertar entre os docentes a sensibilidade de que ser avaliador também faz parte da sua identidade", afirma Renêe..
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