Vendaval, enchente, onda de calor, ciclone: essas palavras entraram em nossas vidas sem pedir licença e vieram para ficar, como apontam os especialistas. A ansiedade climática decorrente desse cenário se dissemina por todo o território nacional, e por todo o globo. Mas os estragos, as dores e os medos atingem os grupos populacionais de forma desigual, e esses traumas, em muitos casos, já são históricos.
Se a crise ambiental e o racismo ambiental parecem fenômenos novos, o deslocamento territorial forçado é antigo, e é essa historicidade que conecta a crise climática a um processo muito mais amplo.O trauma climático tem raça, gênero e endereço, ou seja, não é neutro nem universal. Para a população negra, a ansiedade climática, descrita superficialmente como pavor diante do futuro, revela-se uma reação adaptativa e contínua ao racismo ambiental e ao deslocamento territorial historicamente forçado.
A tese central desta reflexão é que o sofrimento psíquico das mudanças climáticas nasce da repetição contínua do fim dos nossos mundos: o racismo funciona como dispositivo de poder que direciona os impactos da degradação ambiental sobre os corpos negros, convertendo o direito ao território em um estado de impermanência permanente.
O contínuo da expulsão: Beatriz Nascimento e a dor do deslocamento
Para compreender esse impacto, retomo o pensamento da historiadora Beatriz Nascimento, para quem a história da população negra na diáspora é pontuada por sucessivos deslocamentos e pela busca incessante de um espaço de pertencimento.
Quando uma tempestade, um deslizamento ou a elevação do mar destroem uma comunidade periférica, perde-se a ancoragem simbólica, a memória afetiva, a soberania comunitária, ou seja, perde-se muito mais que infraestrutura. A dor da perda da terra atualiza a ferida ancestral da travessia atlântica, e a ansiedade climática é esse trauma do "ontem" invadindo o "hoje" e ameaçando o "amanhã", revelando que os direitos de cidadania da população negra e periférica nunca foram plenamente assegurados pelo Estado.Do ponto de vista histórico - e ecológico, nos termos propostos por Malcon Ferdinand -, esse olhar permite reinterpretar a formação do Brasil considerando que a expansão da plantation escravista implicou, simultaneamente, devastação ambiental, expropriação indígena e racialização do trabalho, como apontam as pesquisas de Patricia Alves-Melo e Soraia Salles Dornelles. Mesmo em liberdade, a população negra permaneceu excluída do acesso à terra, concentrando-se em várzeas, morros e periferias precárias. Por isso, quando eventos climáticos extremos atingem essas regiões, eles tornam visível uma desigualdade construída ao longo de séculos, e não um problema novo.
O racismo ambiental na prática: a lição de Nova Orleans
O racismo ambiental, conceito consolidado pelo movimento de justiça ambiental estadunidense, e suas relações com o deslocamento forçado, discutido no Brasil pela tese de doutoramento em Direito de Leilane Santos, mostra que as vulnerabilidades climáticas são distribuídas ao longo de linhas raciais e de classe.
O furacão Katrina (EUA, 2005) é caso paradigmático: pesquisadoras negras norte-americanas - como Beverly L. Wright - demonstraram que a destruição de bairros inteiros resultou da força da água, mas não só, a ela se somaram a precarização sistemática da infraestrutura e da negligência do poder público. A população negra foi abandonada ao afogamento, criminalizada pela mídia e, depois, impedida de retornar por meio da especulação imobiliária e da gentrificação.No Brasil, as enchentes no Sul, os deslizamentos no Sudeste e as secas no Nordeste - estas últimas retratadas por Candido Portinari e Graciliano Ramos - reproduzem a mesma lógica, visto que a infraestrutura de contenção privilegia bairros de maior renda; as áreas de risco são reservadas ao morar negro e periférico; os auxílios moradia são insuficientes para arcar com aluguéis, e a reconstrução pós-catástrofe raramente inclui a população atingida, abrindo caminho para novas remoções sob o pretexto da "segurança".
A resposta contra-colonial: Nêgo Bispo e a retomada do afeto pelo chão
Se a lógica colonial separa o ser humano da terra e trata o ambiente como recurso explorável, Nêgo Bispo, cuja cosmovisão dialoga com a de Beatriz Nascimento, propõe uma resposta epistemológica de permanência: "não estamos na terra, nós somos a terra". A saúde mental diante de eventos extremos pode se beneficiar dessa reconexão radical com o território e do direito de permanecer, cultivar e existir no chão dos nossos ancestrais.Essa resistência aparece em três casos do Rio Grande do Sul. No Quilombo dos Machado, no bairro Sarandi (um dos mais atingidos pelas enchentes de 2024), a comunidade salvou vidas, distribuiu alimentos, reconstruiu seu centro comunitário e segue lutando pela titulação do território.
O Quilombo Kédi não foi invadido pelas águas, mas serviu de apoio às comunidades das ilhas, cujas casas ficaram submersas; hoje enfrenta especulação imobiliária e demolições noturnas, enquanto os casarões da região das ilhas nunca são convocados a se deslocar.
Já o Passo dos Negros, em Pelotas, atingido em 2024 pelas águas bombeadas por um condomínio de luxo, se consolida como espaço de memória negra e periférica, nascido da exploração da mão de obra escravizada nas charqueadas locais.
Esses casos mostram um dos lados da moeda; no outro, cabe ao poder público garantir segurança climática, algo ainda incipiente, e por isso temido por parte da população gaúcha.
O falso dilema na crise climática: identidade e história
Esses casos ilustram, em escala concreta, um debate mais amplo: a relação entre crise climática e aquilo que se costuma chamar de "identitarismo" - bem elaborado e contextualizado no livro "O que é identitarismo", do filósofo e psicanalista Douglas Barros - é apresentada como conflito entre uma agenda universal do clima e reivindicações particulares de raça, gênero ou povos tradicionais.
Esse conflito é ilusório, porque não existe crise climática abstrata: seus impactos são produzidos e distribuídos por relações históricas de poder - colonialismo, escravidão, racismo, patriarcado e desigualdade territorial. São essas marcas que desmontam a suposta neutralidade universal.No Brasil, essa discussão ganhou força após as enchentes no Rio Grande do Sul e os desastres recorrentes na Amazônia e no Sudeste. Desastres naturais viram desastres sociais porque atingem desproporcionalmente populações vulnerabilizadas por políticas urbanas excludentes e racismo ambiental.
O que se chama de identitarismo é, na verdade, uma categoria arbitrária. As pessoas negras, indígenas ou quilombolas não são biologicamente mais vulneráveis, mas foi num longo processo histórico regido por projetos elitistas que se produziram desigualdades espaciais que expõem essas mesmas pessoas mais a enchentes, secas, ondas de calor e deslocamentos forçados.Reduzir esse debate a um rótulo obscurece sua dimensão histórica. Raça, gênero, classe e colonialidade explicam por que a crise climática afeta grupos de forma desigual e por que as respostas estatais precisam considerar essas diferenças.
A crise climática não foi capturada pelo identitarismo. As identidades são, elas mesmas, resultado de processos históricos, e é desse mesmo processo que nascem os efeitos desiguais da crise climática. Cabe a nós, que sonhamos com o amanhã, construí-lo com os pés no chão, sem repetir os projetos que interditaram existências no ontem.
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