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UOL há 95 d • Sex, 31 Jul 2026 08:21:15 -0300

Lula unifica a esquerda, mas levanta questões sobre o futuro sem ele

BRASÍLIA, 31 Jul (Reuters) - Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subir ao palco na convenção do Partido dos Trabalhadores, no domingo, para aceitar sua sétima, e última, indicação como candidato à Presidência, aos 80 anos, o fará com a esquerda ​brasileira mais unida em sua defesa do que em qualquer outro momento ​de sua longa carreira política.

Pela primeira vez em quase 40 anos, Lula é o candidato presidencial de todos os cinco principais partidos de centro-esquerda. Mas essa unidade, forjada na oposição a uma crescente extrema-direita, também levanta questões sobre quem poderá liderar o movimento quando o ex-líder sindical não estiver mais na disputa eleitoral.

"Não será ​fácil", disse Juliano Medeiros, ex-presidente do Partido Socialismo ⁠e Liberdade (PSOL), um dos partidos ​da coligação de Lula. "Teremos que debater muito para ver se conseguimos manter uma convergência na esquerda que ⁠vá além de nomes e da ameaça do crescimento da extrema-direita."

O crescimento de ​uma coalizão em torno de Lula vem de uma estratégia de sobrevivência, à medida que os brasileiros se tornam cada vez mais conservadores e o espaço da esquerda no país diminui.

De acordo com o pesquisador Felipe Nunes, autor do livro "Brasil no ‌Espelho", de 2014 a 2023, a parcela de brasileiros que ‌se consideram de direita ​subiu de 26% para 37%, enquanto a dos que se identificam como de esquerda caiu de 29% para 23%.

Essa mudança favoreceu a ascensão de figuras da extrema-direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que no ano passado foi condenado por tentativa de golpe de Estado.

Agora, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ‌está concorrendo contra Lula.

"A direita-extrema se mantém viva e o campo popular democrático, que nós representamos, precisa se unir. Temos que ter lado, é uma questão de coerência", disse Carlos Lupi, presidente do PDT, que teve seu próprio candidato à Presidência nas últimas eleições, em 2022, mas se juntou a Lula no segundo turno. "Estamos em um momento muito singular. Os democratas vão estar de um lado e filhotes da ditadura, de outro."

A mudança é regional. Lula é um dos poucos líderes de esquerda a governar um país sul-americano hoje, após a eleição de líderes de direita em países como Chile, Colômbia e Argentina nos últimos anos.

Muitos na esquerda concordam que reverter a tendência de guinada à direita sem Lula parece inviável agora.

O cientista político Creomar de ‌Souza, da consultoria Dharma Political Risk and Strategy, afirmou que o espaço político reduzido da esquerda é ainda mais acentuado pela dificuldade em encontrar uma narrativa eficaz nas redes sociais, deixando os partidos com poucas opções viáveis para vencer.

"Aí tem um ​elemento pragmático. Ao entrarem na campanha eleitoral do Lula, eles (os demais partidos) têm a vantagem de tentar se ancorar na figura política que Lula representa e nos impactos que essa figura ainda tem do ponto de ‌vista eleitoral", aponta.

Atualmente, Lula lidera as pesquisas de opinião para os dois turnos da eleição, com uma margem pequena, mas consistente, sobre Flávio Bolsonaro.

Eden Valadares, secretário de comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), afirmou não ver um declínio da esquerda, mas sim uma polarização, com a direita ‌tradicional perdendo terreno para a extrema-direita e um amadurecimento ‌da esquerda diante dessa ameaça.

"O apoio de todos esses partidos a Lula não é automático", disse ele, acrescentando que o PT teve que fazer concessões para garantir o apoio a Lula. "Há um processo de ⁠mediação no qual todos se sentem incluídos."

Entre essas concessões estão, por exemplo, abrir mão da cabeça de chapa no Rio Grande do Sul em favor do PDT, o que nunca havia feito em nenhuma eleição desde 1989. O partido fez o mesmo no Paraná.

"Esses dois exemplos mostram que avançamos como nunca tínhamos avançado", disse Carlos Lupi. "Isso para mim teve muita força. O PT teve a compreensão do momento que temos à frente."

Ainda assim, Lula, figura constante ​nas campanhas eleitorais brasileiras desde 1989, terá 84 ​anos ao final de um novo mandato, caso seja eleito, e não tem um sucessor claro.

Nos bastidores, os políticos reconhecem que uma luta feroz pelo legado do presidente provavelmente começará já durante um eventual quarto mandato de Lula.

Os ex-ministros Fernando Haddad e Camilo Santana estão entre os nomes do PT que surgem como possíveis sucessores -- Haddad já foi candidato em 2018, indicado por Lula, quando o presidente estava preso --, mas nenhum dos dois possui o mesmo prestígio na esquerda brasileira, ou internacionalmente, que Lula detém atualmente.

Quem quiser liderar a esquerda em 2030, quando está prevista a próxima eleição presidencial, terá a árdua tarefa de convencer o campo político a permanecer unido.

"Hoje nós temos a sorte de ⁠ter uma figura como Lula, que tem a capacidade de falar para além da bolha da esquerda", diz Juliano Medeiros. "Entre agora e 2030, teremos de debater uma ​visão para o país, uma estratégia comum."

(Reportagem de Lisandra Paraguassu, edição de Alexandre Caverni)

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