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UOL há 95 d • Sex, 31 Jul 2026 08:36:00 -0300

Ao menos 49 mil imigrantes do Marrocos entram em Ceuta em 24 horas; Espanha reforça segurança

Espanha e Marrocos reforçaram nesta sexta (31) os bloqueios na fronteira de Ceuta e, aparentemente, conseguiram conter as travessias em massa, após dezenas de milhares de pessoas terem chegado ao território espanhol por mar e terra em um único dia. Ao menos 57 pessoas morreram na região, segundo o governo do país europeu, devido à crise migratória.

Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham cruzado a fronteira nos últimos dias, disse Juan Jesús Vivas, líder do território espanhol. O número representa mais de 70% da população de Ceuta, que tem cerca de 85 mil habitantes. De acordo com o Ministério do Interior da Espanha, ao menos 48 mil migrantes retornaram ao Marrocos até a tarde desta sexta. Todos o fizeram de forma voluntária, segundo as autoridades.

A travessia em massa para Ceuta —um pequeno exclave no norte da África que é controlado pela Espanha e faz fronteira com o Marrocos—, causou choque e divisão na Europa. A França anunciou que intensificaria as operações em suas fronteiras, o Reino Unido ofereceu ajuda, e a Itália suspendeu de forma temporária as regras que permitem livre circulação de pessoas com a Espanha.

No entanto, segundo o responsável do bloco para questões migratórias, Magnus Brunner, não há um fluxo observado desses imigrantes para o continente europeu. Em publicação no X, ele relembrou que existem regras especiais aplicadas a Ceuta e Melilla, outro exclave espanhol no norte da África, relacionadas a vistos e ao trânsito dali ao continente europeu. Um exclave é uma parte de um país que fica separada do restante do território.

Em publicação no X, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, rebateu críticas ao publicar números de entradas irregulares na União Europeia, citando dados da Frontex, a agência europeia de fronteira. Segundo ele, outros países têm tanto ou mais registros do que a Espanha. "Não é a hora de nos dividirmos. É hora de continuar construindo uma UE forte e unida", escreveu.

Nos portões de entrada de Ceuta, agentes marroquinos utilizaram caminhões com canhões de água e dispersaram as pessoas. Os restos carbonizados de um ônibus e sete carros, resultado de confrontos, podiam ser vistos nas proximidades. Parte das mortes foi provocada por afogamento, enquanto outras pessoas morreram esmagadas ao tentar escalar a cerca na fronteira, segundo as autoridades.

As autoridades espanholas afirmaram que tentarão expulsar o mais rápido possível aqueles que entraram de forma ilegal, apesar de uma decisão judicial que impôs restrições à aplicação das regras de "rejeição na fronteira", mecanismo que permite a deportação de pessoas que cruzam a fronteira de forma irregular.

A União Europeia está em contato com as autoridades marroquinas para resolver a crise, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. "Estou confiante de que nossa estreita parceria com Marrocos ajudará a alcançar resultados concretos", disse.

Ela afirmou que as imagens vindas de Ceuta são inaceitáveis. "Não podemos permitir que ninguém entre na UE sem respeitar nossas regras", acrescentou.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez foi a Ceuta nesta sexta com o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. O premiê criticou o episódio, classificando-o de "um ataque e uma violação" do território nacional. "O governo espanhol está ao lado da cidade de Ceuta. Compreendemos a emoção e o estado de ansiedade que eles têm vivenciado nas últimas horas", afirmou.

Ceuta e Melilla possuem as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África. As duas cidades, cada uma com cerca de 85 mil habitantes, registram periodicamente tentativas de travessia por migrantes que tentam chegar à Europa. A crise atual, no entanto, é sem precedentes.

O ministro da Política Territorial da Espanha, Ángel Víctor Torres, afirmou que um dos fatores que podem ter contribuído para o aumento do fluxo migratório foi uma decisão do Supremo Tribunal do país, proferida no início deste mês. Em linhas gerais, a corte estabeleceu que a deportação imediata de migrantes em situação irregular não pode ser aplicada àqueles que chegam por via marítima.

Torres disse a uma rádio local que o governo reagiu de forma imediata ao fluxo migratório e que dará continuidade ao retorno dos migrantes, respeitando as decisões judiciais e os direitos dos envolvidos.

Sem apresentar provas, Sánchez afirmou que o súbito aumento do fluxo migratório foi provocado por redes de tráfico de pessoas, que difundiram informações distorcidas sobre a decisão judicial. "O que emergiu das nossas conversas com as autoridades marroquinas é que as máfias do tráfico de pessoas fizeram uma interpretação conveniente da decisão do Supremo Tribunal", afirmou. Segundo ele, essa interpretação "espalhou-se como fogo em palha nas últimas horas".

No lado marroquino da fronteira, milhares de migrantes invadiram a cidade de Fnideq, próxima de Ceuta, durante a noite, apesar do reforço da segurança que frustrou a maioria das tentativas de travessia. Embora as principais passagens parecessem bloqueadas, grupos se deslocavam em busca de rotas alternativas. Alguns se preparavam para nadar.

"Cheguei atrasado", disse Brahim, 32, que se identificou apenas pelo primeiro nome. Ele contou que havia chegado de Tânger na esperança de atravessar pelo portão, mas o encontrou fechado. Entre os que tentavam atravessar, havia mulheres e crianças, tanto do Marrocos quanto de países da África Subsaariana mais ao sul.

Em uma publicação no X, a associação da Guarda Civil espanhola, AUGC, afirmou que havia poucos policiais no local para monitorar a cerca durante o fluxo migratório de quinta, o que os impossibilitou de impedi-lo.

A migração é uma questão sensível em toda a Europa, onde partidos de direita emergiram na década que se seguiu à crise de 2015, quando mais de um milhão de pessoas chegaram ao continente, principalmente a pé, em busca de asilo, a maioria fugindo da guerra na Síria.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, de direita, disse que seu país está preparado para "intervir com medidas extraordinárias para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, incluindo a suspensão do Espaço Schengen com a Espanha". Horas depois, seu governo anunciou a interrupção das regras que permitem a livre circulação de pessoas entre os países.

"Esta é uma medida extraordinária, adotada para salvaguardar a segurança nacional e prevenir repercussões possíveis para a nossa nação", disse Meloni.

Embora a Itália não compartilhe fronteira terrestre com a Espanha, a medida pode afetar quem viaja de avião ou barco entre os dois países. O Ministério do Interior da Itália ainda informou ter acordado com Paris o reforço dos controles na fronteira terrestre franco-italiana, visando impedir a passagem de migrantes em situação irregular.

O chanceler espanhol, Jose Manuel Albares, afirmou que o livre movimento no espaço Schengen estava "absolutamente garantido", acrescentando que não é possível "viajar de Ceuta a Melilla à península sem se identificar em um posto de controle policial". "Chega de confusão deliberada", afirmou.

Embora o governo socialista da Espanha declare manter-se firme em relação às travessias ilegais, defende que ajudar os imigrantes fortalece a economia e ofereceu uma anistia em massa que permitiu que centenas de milhares de pessoas buscassem a cidadania no último ano.

"As imagens vindas de Ceuta mostram como a decisão do governo de Madri de conceder cidadania espanhola, e portanto europeia, a mais de 500 mil imigrantes irregulares é profundamente equivocada e incentiva o tráfico de pessoas", escreveu o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani.

O chanceler da Espanha, Jose Manuel Albares, respondeu que a mensagem de Tajani é inapropriada e disse que seu país espera "solidariedade e não demagogia partidária" de um parceiro.

A França, por outro lado, está em contato com as autoridades espanholas e marroquinas, informou a comitiva do presidente francês, Emmanuel Macron. O país está pronto para ajudar a Espanha, se necessário, inclusive por meio da Frontex, acrescentou, informando ainda que Macron solicitou ao ministro do Interior, Laurent Núñez, que reforce as fiscalizações nas fronteiras com o território espanhol.

O ministro afirmou já ter emitido instruções para "intensificar as verificações na fronteira espanhola". A declaração de Núñez não especificou o que isso significa na prática e não houve resposta imediata a um pedido de esclarecimentos do ministério. Normalmente, não há verificações nas fronteiras entre os membros do Espaço Schengen interno da UE, embora possam ser introduzidas por um período limitado em circunstâncias excepcionais.

Marine Le Pen, candidata à Presidência pelo partido de extrema direita Reunião Nacional da França, afirmou que, se vencer as eleições no próximo ano, restringirá a livre circulação no Espaço Schengen a cidadãos europeus. "Diante do fluxo maciço e coordenado de migrantes para a Espanha —incentivado pelo governo espanhol— a França deve reforçar imediatamente o controle de suas fronteiras", disse no X.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, também disse que seu governo ofereceu ajuda à Espanha. A crise é "uma questão que diz respeito, antes de tudo, ao governo espanhol, mas é motivo de preocupação", disse. "Estamos entrando em contato com o governo e as autoridades da Espanha para oferecer apoio, mas também para compreender as implicações dessa situação."

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