Robôs: EUA bane tecnologia da China (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 30 de julho de 2026 às 12h06.
Robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior entraram na lista de produtos considerados ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. A decisão foi tomada na terça-feira, 28, pela FCC, agência que regula telecomunicações no país, e barra novos modelos de obter a autorização necessária para serem importados, comercializados ou vendidos em território americano.
O Ministério do Comércio da China pediu nesta quinta-feira, 30, que Washington revogue a medida, e ameaçou adotar contramedidas caso isso não ocorra. Segundo o comunicado, a agência americana ignorou a postura contida de Pequim em relação a banimentos de produtos.
Um dia antes, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, havia afirmado que o país tomará todas as medidas necessárias para defender os interesses de suas empresas, e que a restrição prejudicará companhias e consumidores americanos.
A proibição vale apenas para modelos novos. Equipamentos já autorizados seguem legais e podem continuar sendo vendidos, embora a agência mantenha o poder de revogar autorizações anteriores.
O escopo abrange robôs móveis terrestres com mais de 2 quilos que combinem sensores, conectividade e software de controle — humanoides, quadrúpedes e robôs autônomos de armazém. Ficam de fora veículos rodoviários conectados, drones, veículos submarinos, dispositivos médicos regulados, equipamentos de mobilidade assistida e braços industriais fixos.
Conversores de energia conectados também entraram na lista. São os equipamentos que transformam corrente contínua em alternada, usados em sistemas de energia solar, baterias, redes elétricas e data centers.
Fabricantes podem pedir isenção condicional ao Departamento de Defesa para seguir obtendo autorização. A agência não divulgou prazos nem critérios de análise.
Um grupo interagências convocado pela Casa Branca concluiu que robôs avançados de fabricação estrangeira representam risco inaceitável.
A avaliação aponta três possibilidades, como monitoramento de cidadãos americanos, ampliação do alcance de serviços de inteligência estrangeiros e tomada de controle direto dos aparelhos por agentes mal-intencionados. Some-se a isso a dependência de manufatura fora do país.
"Continuaremos a fazer nossa parte para proteger as cadeias de suprimento críticas da América", afirmou Brendan Carr, presidente da FCC.
O documento oficial não cita nenhuma empresa. A conta de mercado, porém, aponta em uma direção só.
A China responde por cerca de 85% do mercado global de robôs humanoides, segundo levantamento da Associated Press.
Dos aproximadamente 15.000 humanoides embarcados no mundo em 2025, Unitree e AGIBOT despacharam mais de 5.000 unidades cada, de acordo com a consultoria Omdia.
As rivais americanas Tesla e Figure AI entregaram algumas centenas cada uma. A Counterpoint Research estima que a Unitree sozinha detenha pouco menos de 20% do mercado global.
A empresa chinesa havia estreado comercialmente na Europa em 22 de julho, tornando-se o primeiro fabricante chinês de humanoides a chegar a um mercado ocidental. A entrada na América do Norte estava prevista para 12 de agosto — caminho agora fechado para modelos novos.
As ações da UBTech, outra fabricante chinesa do setor, caíram mais de 6% em Hong Kong na manhã desta quinta-feira. Unitree e AGIBOT já protocolaram pedidos de abertura de capital.
A troca de ameaças acontece a seis semanas de uma cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para setembro.
No mesmo dia em que Pequim ameaçou retaliar, Trump sinalizou que Washington pode afrouxar restrições à exportação de tecnologia de inteligência artificial (IA), como forma de manter os Estados Unidos à frente da China na corrida tecnológica. As duas mensagens correm em direções opostas.
Há ainda uma contradição doméstica. O Pentágono incluiu recentemente a Unitree em sua lista de empresas com vínculos com as forças armadas chinesas — mas fuzileiros navais americanos já haviam utilizado robôs quadrúpedes da companhia em operações selecionadas. E, em junho, a Nvidia apresentou um projeto de referência para robôs humanoides construído sobre o chassi da própria Unitree.
Em maio de 2025, os 24 integrantes do Comitê Seleto da Câmara sobre a China assinaram carta bipartidária pedindo investigação da empresa e sua inclusão na lista restritiva.
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