Imagine a seguinte situação: um time chega à última rodada do Campeonato Brasileiro com a vida resolvida. Não disputa mais o título, já garantiu sua vaga na Libertadores e não corre qualquer risco de rebaixamento. Do outro lado, um adversário desesperado, que precisa vencer para continuar na primeira divisão.
Até aí, nada que o futebol brasileiro já não tenha visto.
Mas existe uma variável pouco discutida nessa história. E se o clube que não precisa mais do resultado também tiver interesse financeiro na permanência do adversário na Série A?
O contrato de direitos de transmissão da Futebol Forte União (FFU), antiga Liga Forte União, com a Globo, por exemplo, prevê uma remuneração vinculada ao número de integrantes do bloco na primeira divisão.
A referência é de R$ 850 milhões anuais para 12 clubes. Cada representante a menos, abaixo da referência contratual, significa R$ 100 milhões a menos no faturamento do grupo.
O contrato da Libra também prevê uma redução no pagamento da Globo quando o bloco tem menos representantes na Série A. A referência é de nove clubes, com desconto de 11% por integrante abaixo desse número.
É importante destacar que esses valores não representam ganhos ou perdas individuais de R$ 100 milhões. O dinheiro é distribuído segundo critérios específicos, depois de deduções contratuais. Mas a lógica econômica merece ser examinada: a composição da Série A influencia a receita coletiva dos blocos comerciais.
E é aí que surge uma questão delicada na reta final do Brasileirão: quando o adversário também é parceiro comercial, pode surgir um conflito de interesses.
Vamos pegar um exemplo da última rodada: Cruzeiro x Internacional. Os dois são integrantes da FFU nesta temporada. Imagine que o Cruzeiro já não possa melhorar ou piorar sua situação esportiva. E que o Internacional dependa de uma vitória para continuar na Série A.
A permanência do clube gaúcho na Série A poderia preservar a quantidade de integrantes da FFU na primeira divisão e, consequentemente, evitar redução da receita coletiva do bloco.
É fundamental deixar claro: não existe qualquer evidência de que Cruzeiro, Internacional ou seus profissionais pretendam agir de maneira irregular. O exemplo é hipotético e serve para ilustrar um problema de governança.
A Série B também entra nessa conta. Hoje, 18 dos 20 clubes são da FFU -que, a partir de 2027, prevê uma nova divisão das receitas, destinando 85% aos clubes da Série A e 15% aos da Série B. Portanto, os efeitos econômicos da movimentação entre as divisões vão além dos clubes diretamente envolvidos na disputa esportiva.
A criação de uma liga única pode ajudar?
FFU e Libra negociam há anos um modelo que permita aos clubes assumir maior protagonismo na organização e na exploração comercial do Campeonato Brasileiro.
Uma liga única, com um contrato de transmissão cuja remuneração não dependa da quantidade de representantes de cada bloco, poderia eliminar esse incentivo específico
Mas a unificação, por si só, não resolveria todos os possíveis conflitos de interesses. Seria necessário estabelecer regras claras de governança, transparência, fiscalização e distribuição de receitas.
Afinal, quem seria responsável por identificar situações em que o interesse econômico coletivo de um grupo de clubes pudesse entrar em tensão com a disputa esportiva?
A CBF? A futura liga? Uma entidade independente de integridade?
São perguntas que precisam entrar na discussão.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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