Como defender a volta das bets? Fico pensando em que tipo de ginástica moral precisam fazer aqueles que, por dinheiro ou por crença, estão por aí argumentando a favor da volta das apostas online mesmo diante do cenário de degradação social que elas produziram.
O argumento de que sem a legalização as apostas clandestinas florescerão é bastante frágil. Casas de apostas ilícitas serão combatidas, claro. E o que sabemos é que foi a legalização que criou a crise social atual. Sem ela, o número de apostadores e de viciados cai sensivelmente.
O argumento de que seria preciso limitar de forma mais lenta também não serve. Ele apenas justifica a continuidade do lucro ganho com a destruição de vidas humanas. Se as bets causaram tanta dor e tantas mortes, elas precisam ser proibidas de forma rápida.
O único argumento que não faz uso de hipocrisia seria: queremos continuar ganhando rios de dinheiro e não ligamos que esse dinheiro venha associado à destruição social. Aí sim, temos um motivo honesto, ainda que deplorável.
Acho até que as bets voltarão porque o dinheiro que está circulando como lobby para que isso aconteça é inimaginável. Mas não poderiam voltar com autorização para fazer propagandas, dar nome a campeonatos de futebol, patrocinador times de futebol, pagar influenciadores para convidar gente para apostar. Elas precisariam existir silenciosamente e serem colossalmente taxadas; taxadas de modo a diminuir seus lucros de forma absolutamente drástica. Claro que num mundo ideal elas nem existiriam, mas estamos no capitalismo e, dentro dele, quem manda é quem tem dinheiro. Estamos torcendo para que elas não voltem e para que as famílias, essa instituição tão citada pela extrema direita que quer desesperadamente a volta das bets, possam viver em paz sem elas.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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