Quando Craig Thompson era criança, nos anos 1980, ganhava um dólar por hora para capinar e colher ginseng em Marathon, cidade de pouco mais de mil habitantes no condado de mesmo nome, no interior do Wisconsin, nos Estados Unidos. A região tinha mais de mil produtores da raiz, quase toda vendida para a China. Quarenta anos depois, ele voltou para documentar esse mundo num livro e assistiu, enquanto desenhava, ao seu desmanche.
"Quando eu era criança, acho que havia 1.600 produtores na minha cidade. Na época em que fiz o livro, uns 180. Hoje está perto de 60", diz Thompson ao UOL. "As tarifas praticamente varreram a indústria."
Os números oficiais confirmam a tendência, ainda que não o tamanho exato da queda. O Wisconsin tinha cerca de 1.500 produtores de ginseng nos anos 1990 e 170 em 2021, segundo dados citados pela rádio pública do estado, a WPR. Em 2025, no auge da escalada tarifária entre Washington e Pequim, eram pouco mais de 150. O que Thompson descreve é o que vem depois: as fazendas pequenas fechando, e só as grandes de pé.
O quadrinista, autor de "Retalhos" e "Habibi", acaba de lançar no Brasil "Raízes de ginseng" (Quadrinhos na Cia), um livro de 448 páginas que mistura memória e reportagem. Foram oito anos de trabalho e entrevistas com fazendeiros aposentados, exportadores e agrônomos nos EUA, na China e na Coreia do Sul. "Eu poderia fazer um outro livro inteiro só sobre o quanto mudou", diz.
A raiz que o Wisconsin vende para a China
O ginseng americano (Panax quinquefolius) é parente da espécie asiática e valorizado na medicina tradicional chinesa por ser considerado mais "frio" e equilibrado. O asiático, nas palavras de Thompson, é "uma erva estimulante, que vai te empurrar como café"; o americano é o de uso prolongado, "para recompor as essências vitais", segundo o acupunturista Justin Penoyer, personagem do livro.
O Wisconsin, e em especial o condado de Marathon, responde por mais de 90% da produção dos Estados Unidos. A raiz seca chega a ser vendida entre US$ 700 e US$ 800 por libra (cerca de 450 gramas), e o grosso vai para China e Hong Kong.
Em 1709, o jesuíta francês Pierre Jartoux, cartógrafo a serviço do imperador chinês Kangxi, ganhou de um colega chinês uma raiz que não conhecia e a descreveu numa carta publicada em 1713. O relato levou outro jesuíta, Joseph-François Lafitau, a procurar a planta nas florestas do Canadá, e encontrá-la. Em 1784, o primeiro navio americano a negociar com a China, o Empress of China, zarpou com ginseng no porão. Thompson não resiste à provocação: "Talvez não existissem os EUA sem o ginseng."
É também um cultivo difícil e caro. A planta leva anos para ser colhida, cresce sob coberturas que imitam a sombra da floresta e não pode ser replantada no mesmo lote. "Não é o que ele tira do solo. É o que ele deixa: uma espécie de fungo na terra", explica um fazendeiro no livro. Alfafa e feno crescem bem ali depois; ginseng, nunca mais. Cada nova safra exige terra nova.
No livro, Thompson desenha o trabalho infantil que sustentava as fazendas familiares nos anos 1980. A família lembra de jornadas de 13 horas. As crianças chegavam de manhã logo depois da pulverização e trabalhavam sob a névoa do produto: "Nós enfiávamos o nariz na camiseta para não engasgar durante o trabalho". Um dos patrões diz que não contratava crianças, mas abriu exceção para os irmãos Thompson; o quadro completa: "Mas a pobreza é motivadora." Chua Vang, filho de refugiados hmong e um dos personagens centrais do livro, carregava aos 12 anos um pulverizador de 15 a 20 quilos de pesticida nas costas.
Do bico de verão ao galpão cheio
A queda começou antes das tarifas. Em 1993, o condado de Marathon ainda era o maior produtor mundial de ginseng americano cultivado, conta o livro. Em poucos anos perdeu o posto para produtores de tabaco de Ontário, no Canadá, que trocaram de cultura com incentivo do governo canadense quando o cigarro saiu de moda.
A guerra comercial entre Washington e Pequim veio depois e acelerou tudo. A tarifa chinesa sobre o ginseng dos EUA, que rondava os 10%, saltou para mais de 40% em 2018, no primeiro mandato de Donald Trump, e ficou em torno de 32% nos anos seguintes. Na escalada de 2025, chegou a 147%, segundo Will Hsu, presidente da Hsu's Ginseng, a maior operação integrada do país. Depois da trégua entre os dois governos, voltou a cerca de um terço, patamar em que estava em setembro deste ano.
Na prática, o comprador chinês foi atrás de outro fornecedor. "Muitas empresas estão escolhendo não importar do Wisconsin. Estão comprando de produtores canadenses ou da própria China", disse Hsu à imprensa local em maio de 2025, quando contou ter mais de 80% da safra de 2024 encalhada no galpão. O estado exportou quase US$ 20 milhões em ginseng em 2024.
Para Hsu, a fragilidade do pequeno produtor é estrutural. Numa conversa reproduzida no livro, ele descreve o agricultor de hoje: muitas vezes não é dono da terra, que é arrendada; os galpões são alugados ou hipotecados; a semente é propriedade intelectual de uma empresa, e o contrato proíbe guardá-la para replantar; o trator é lacrado, e mexer no sistema anula a garantia. "Então você é dono do quê? O único insumo que você tem é a mão de obra."
Thompson conhece Hsu de perto. A empresa foi fundada pelo pai dele, Paul Hsu, imigrante taiwanês que chegou aos EUA em 1969, e é personagem do livro. Segundo Thompson, foi das poucas a atravessar a crise. "Só os maiores sobreviveram. Eles tinham rotas por Hong Kong, Taiwan e Coreia, e passaram a focar no mercado doméstico. Os mercados sino-americanos viraram seus principais compradores."
Os pequenos não tiveram para onde correr. No livro, Chua Vang aparece ainda plantando: "Mas planto todo ano; e toda primavera tiro um pouco da palha pra ver se cresceu. [...] Pra mim, representa um recomeço." Com uma raiz na mão, completa: "Elas cresceram comigo." Ao UOL, Thompson conta o desfecho: "Muita gente que entrevistei não está mais no ginseng, incluindo o Chua Vang, que acho que é um dos personagens principais."
A mão de obra mudou tanto quanto o mercado. Nas notas do livro, Thompson resume a sucessão: no início do século 20, americanos brancos; nos anos 1970, famílias tocando lotes pequenos; nos anos 1980, crianças como ele; nos 1990, imigrantes hmong; hoje, sobretudo trabalhadores mexicanos temporários.
Ele admite que esse é o buraco do livro. "A maior falha na narrativa de 'Raízes de Ginseng' é o fato de eu não ter conseguido entrevistar nenhum dos trabalhadores mexicanos que compõem a maior parte da mão de obra moderna", escreve nas notas. Algumas fazendas proibiam fotos, e os patrões não queriam perguntas que atrapalhassem a produção. Os trabalhadores, segundo ele, cumprem jornadas de 16 horas, isolados, e o capataz é o único que fala inglês.
O outro lado da mesma briga
Para o agro brasileiro, a história de Marathon é o avesso de uma conhecida. A mesma disputa tarifária que fechou a China para o ginseng do Wisconsin abriu espaço para a soja brasileira, concorrente direta da americana. Em 2025, com Pequim sem negociar com Washington, o Brasil bateu o recorde histórico de exportação de soja ainda em outubro: 102,2 milhões de toneladas entre janeiro e outubro, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), acima do ano inteiro de 2023, o recorde anterior. Em setembro, a China comprou 93% de toda a soja que o país embarcou.
A lógica é a mesma, com sinal trocado. Quando a tarifa encarece o produto americano, o comprador chinês procura outra origem: no ginseng, Canadá e as plantações da própria China; na soja, o Brasil. O livro de Thompson ajuda a entender que, do lado perdedor, a conta não cai sobre o agronegócio em abstrato, mas sobre cidades pequenas que dependem de um único produto, como o caso de Marathon. "Era tudo ginseng. Quando criança, eu nem pensava no que era aquilo. Era só um bico de verão."
"Raízes de Ginseng" não é um livro de economia, mas antecipa o enredo. Um capítulo inteiro trata da eleição de 2016, decidida por Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, estados da classe operária onde, nas palavras do livro, "a promessa de Trump de recuperar os empregos na indústria bateu fundo". Thompson desenha o fazendeiro pequeno, o refugiado que virou produtor, o imigrante taiwanês que virou o maior exportador do mundo e o trabalhador mexicano que nunca sai da fazenda. Juntos, eles são a cadeia que a tarifa rompeu.
O enredo inclui até a promessa de reindustrialização. Em 2017, Paul e Will Hsu conheceram Terry Gou, fundador da taiwanesa Foxconn, que anunciou uma fábrica no Wisconsin e visitou a empresa deles em Wausau. Em setembro de 2018, segundo a agência Associated Press, a Foxconn assinou um acordo para desenvolver o ginseng do estado com a Hsu, no mesmo ano em que a China elevou a tarifa sobre a raiz. O livro reproduz a fala de Trump na cerimônia da Foxconn, em junho de 2018: "Quando ganhamos o estado de Wisconsin... um republicano não ganhava ali desde Dwight D. Eisenhower, em 1952." Não é verdade: Ronald Reagan venceu no estado em 1980 e em 1984.
Por que um quadrinista
Thompson, 51, ficou conhecido com "Retalhos" (2003), memória gráfica sobre crescer numa família cristã fundamentalista no mesmo interior do Wisconsin. Dos 10 aos 20 anos, ele e o irmão caçula, Phil, passaram os verões nas lavouras de ginseng. O dinheiro ia para gibis, e os gibis o tiraram de lá.
O ginseng voltou em abril de 2011, numa viagem à China para comemorar o fim de "Habibi". Ali ele machucou a mão de desenhar e ganhou um spray à base da raiz. O projeto ficou engavetado por cinco anos; as primeiras entrevistas são de agosto de 2016.
Inspirado no jornalismo em quadrinhos de Joe Sacco, gravou as conversas no celular e as transcreveu, seguindo um conselho do próprio Sacco. Entrevistou oficialmente 80 pessoas; menos da metade chegou às páginas finais. Em 2017, viajou com o irmão até Geumsan, na Coreia do Sul, cidade-irmã de Marathon e centro milenar do cultivo, e até a província chinesa de Jilin, na fronteira com a Coreia do Norte.
O livro não terá edição na China. "A primeira informação que recebi foi: não pode ser impresso nem publicado lá", diz. O livro reconhece Taiwan, origem de parte da indústria do ginseng americano, e mostra Mao Tsé-tung. Sugeriram que ele cortasse as páginas. Ele recusou. Os leitores chineses o conhecem mesmo assim, por outra via: numa das viagens, Thompson descobriu um fã que escaneia seus quadrinhos e os revende na internet.
"Raízes de Ginseng", Autor: Craig Thompson. Tradução de Érico Assis. Quadrinhos na Cia, 448 págs. Preço sugerido R$ 159,90
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.