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UOL Economia há 4 d • Qua, 28 Out 2026 05:30:00 -0300

'Ninguém vai dar benefício da dúvida', diz CEO da AZ Quest sobre Lula

'Ninguém vai dar benefício da dúvida', diz CEO da AZ Quest sobre Lula

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de apresentar medidas concretas de contenção dos gastos públicos para recuperar a confiança dos investidores, afirma Walter Maciel, CEO da AZ Quest. Na avaliação do executivo, o mercado não tem apenas dúvidas sobre a condução da política econômica: já trabalha com a expectativa de que o ajuste fiscal não será realizado.

Cabe ao governo hoje provar que o mercado está errado. Ninguém vai dar o benefício da dúvida. Por quê? Porque não existe a dúvida. Existe uma convicção de que o problema fiscal não vai ser endereçado e, aí é a minha percepção, nós vamos caminhar para a dominância fiscal. Walter Maciel, CEO da AZ Quest

A dominância fiscal ocorre quando o desequilíbrio das contas públicas é tão grande que compromete a capacidade do Banco Central de controlar a inflação apenas com a política de juros. Nesse cenário, a preocupação com a dívida pode pressionar o dólar e os preços, mesmo com os juros elevados.

Maciel atribui essa percepção ao histórico dos governos petistas e às declarações de Lula contrárias à contenção de despesas. Para ele, a reação dos investidores reflete a expectativa de continuidade dessa orientação.

Questionado sobre um possível otimismo exagerado do mercado com Flávio Bolsonaro (PL), Maciel afirma que a valorização dos ativos após o primeiro turno refletiu a expectativa de uma mudança na condução das contas públicas. Segundo ele, os investidores interpretaram as declarações de Lula como um sinal de que o presidente não faria um ajuste fiscal relevante. "Quando ele ganhou o segundo turno, o mercado voltou à estaca em que estava antes. Ou seja, voltou a acreditar que nenhuma medida fiscal importante seria adotada", afirma.

O diagnóstico vem acompanhado de um alerta sobre a atividade econômica. De acordo com o executivo, os juros elevados e o endividamento das famílias e das empresas ameaçam o consumo e a sobrevivência de negócios menores. A AZ Quest já trabalha com um cenário em que o crescimento econômico de 2027 pode ficar próximo de zero.

Para Maciel, as dificuldades financeiras das empresas ainda não apareceram integralmente nos indicadores econômicos. Ele teme que a pressão sobre os negócios se transforme em queda de demanda, aumento do desemprego e desaceleração mais intensa da economia. "Isso tudo que está acontecendo no mundo microeconômico virá para o mundo macroeconômico em algum momento", afirma.

Juros pressionam empresas mesmo com melhora operacional

Na avaliação do executivo, empresas podem melhorar suas operações e ainda assim não conseguir compensar o peso das dívidas. A manutenção de juros reais elevados por um período prolongado pode transformar negócios antes saudáveis em companhias financeiramente fragilizadas.

Maciel descreve uma situação em que a empresa primeiro deixa de amortizar o valor principal da dívida, passa a pagar apenas os juros e, posteriormente, precisa contratar novos empréstimos até para cobrir esses encargos. Sem uma recuperação das condições financeiras, o processo pode terminar em recuperação judicial ou falência.

Grandes companhias, segundo ele, têm mais condições de atravessar esse ambiente e podem até ganhar participação de mercado com o enfraquecimento de concorrentes menores. Isso, porém, não elimina os efeitos negativos sobre a economia.

Executivo defende corte de gastos equivalente a 1% do PIB

Maciel considera necessário que Lula escolha um nome com credibilidade para comandar a equipe econômica, dê autonomia a esse profissional e estabeleça o ajuste fiscal como prioridade. O executivo cita como referência a relação entre o ex-presidente Michel Temer e o então ministro da Fazenda Henrique Meirelles. "Bota um nome forte, fala que essa é a meta principal do governo e faz igual o Temer fez com o Meirelles", afirma.

O executivo sugere começar com um corte de despesas equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos no país. Na avaliação dele, uma primeira medida concreta poderia melhorar a confiança dos investidores, favorecer o real e reduzir a pressão sobre a inflação.

Maciel acredita que uma recuperação econômica após o ajuste poderia se transformar em apoio político para o governo, independentemente do partido. "O cara que fizesse esse ajuste vai sair megapopular", afirma. Em contrapartida, teme que a ausência de medidas provoque uma crise econômica de grandes proporções.

O tempo para agir, segundo ele, é limitado. Maciel alerta que o crescimento das despesas obrigatórias poderá comprometer ainda mais o espaço do governo para outros gastos a partir de 2028.

Fonteles agrada, mas autonomia será determinante

Entre os nomes mencionados para o Ministério da Fazenda, Maciel avalia positivamente Rafael Fonteles. O executivo afirma que sua percepção é influenciada pela confiança que deposita no economista Marcos Lisboa, a quem atribui uma avaliação favorável sobre a capacidade de Fonteles. "Em relação ao Rafael Fonteles, eu vou hipotecar aqui a minha confiança ao Marcos Lisboa. Eu fico animado com o nome", diz.

Maciel também elogia a capacidade de diálogo de Geraldo Alckmin, mas considera que seu perfil é mais adequado à Vice-Presidência do que ao comando da política econômica. "O Alckmin é um cara muito dócil. É um cara muito afável. É um cara muito diplomático. Isso é ruim para esse cargo", afirma.

O gestor ainda menciona Mário Mesquita e Mansueto Almeida como possibilidades para a equipe econômica. Mais importante que a escolha de um nome, porém, seria o compromisso de Lula em dar respaldo às medidas propostas.

Na avaliação de Maciel, profissionais com esse perfil só aceitariam o cargo se tivessem segurança de que poderiam executar as mudanças necessárias.

AZ Quest espera sinais para voltar a comprar

A cautela com a política econômica também aparece no posicionamento da gestora. Maciel afirma que a AZ Quest entrou na eleição com exposição reduzida ao risco. Segundo ele, os fundos de ações acompanharam o desempenho do mercado, enquanto os multimercados tiveram perdas pequenas. Nas estratégias de renda fixa, arbitragem e crédito privado, não houve perdas, de acordo com o executivo.

Para ampliar as compras, Maciel considera duas possibilidades: uma queda adicional que torne os ativos suficientemente baratos ou uma mudança concreta na orientação econômica do governo. Na avaliação dele, as perdas recentes ainda não justificam aumentar as posições.

Ou você tem uma percepção de que, apesar de tudo, ficou barato demais. Ou você tem a sinalização do governo de que algo vai ser feito de fato. Você não pode se mover antes disso. Walter Maciel, CEO da AZ Quest

Data centers podem transformar a economia brasileira

Apesar da cautela com a conjuntura, Maciel vê na expansão dos data centers uma oportunidade para transformar a economia brasileira. Segundo ele, a disponibilidade de energia renovável coloca o país em posição favorável para atrair a infraestrutura necessária ao avanço da inteligência artificial.

O Brasil pode ser o hub global de data centers. Esse, sozinho, é o tema mais importante depois do fiscal. Walter Maciel, CEO da AZ Quest

A oportunidade, na avaliação do executivo, vai além da construção de instalações para armazenar e processar dados. Maciel considera que a inteligência artificial também representa uma ameaça para economias como a brasileira, com forte presença de serviços de baixo valor agregado. A substituição de tarefas por ferramentas de IA poderia ampliar o desemprego caso o país não consiga participar dos investimentos e das novas atividades geradas pela tecnologia.

Para evitar esse cenário, ele defende que o Brasil aproveite a demanda por data centers como porta de entrada para uma cadeia de negócios de maior valor agregado. A partir dessa infraestrutura, o país poderia atrair centros de desenvolvimento de empresas de inteligência artificial e, posteriormente, atividades ligadas à produção de componentes, como chips e memórias.

Maciel argumenta que a escassez de energia e os longos prazos necessários para instalar novos projetos em outros países criam uma oportunidade para o Brasil. Essa vantagem, porém, não seria permanente. "Ou você faz isso agora ou alguém vai fazer no teu lugar", afirma.

A AZ Quest pretende lançar um novo fundo voltado a data centers, segundo o executivo. A iniciativa busca aproveitar o crescimento da demanda por infraestrutura digital, mas também depende de condições favoráveis para atrair investidores e financiar projetos de longo prazo.

É nesse ponto que Maciel volta à preocupação com as contas públicas. Para ele, os juros elevados tornam a renda fixa mais atraente e reduzem a disposição para financiar novos empreendimentos, mesmo em setores com potencial de crescimento.

"O maior problema é aversão a risco", afirma. Segundo Maciel, o governo precisa adotar medidas capazes de recuperar a confiança e mudar o ambiente de medo que, em sua avaliação, hoje limita os investimentos no Brasil.

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