O coordenador nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Paulo Rodrigues reclamou, nesta segunda-feira (27), da política agrária no terceiro mandato do presidente Lula (PT).
Segundo Rodrigues, a política econômica adotada pelo Ministério da Fazenda e a "agenda de ajuste fiscal" fizeram com que a reforma agrária ficasse "completamente na periferia dos programas do governo".
"Eu corro o risco de dizer que foi o pior dos três mandatos do presidente Lula e foi muito aquém das expectativas da esquerda do PT e do próprio MST", afirmou o ativista.
A declaração ocorreu no programa Frente a Frente, da Folha e do UOL, que vai ao ar toda segunda-feira. A entrevista com Rodrigues foi conduzida por Fábio Zanini, editor da coluna Painel, e por Carla Araújo, colunista do UOL.
O líder sem terra ressaltou, entretanto, o que considerou avanços na atual gestão petista. Na política agrária, Rodrigues citou a oferta de crédito, a renegociação de dívidas de pequenos e médio produtores e a inclusão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) como empresa compradora da produção dos assentamentos.
Ele afirmou que fará parte da campanha petista em 2026, assim como na última eleição presidencial, em que coordenou a mobilização popular. Também disse que o convite já foi feito e que estará junto do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL).
Questionado se não seria contraditório participar da campanha de um governo para o qual direciona críticas, Rodrigues afirmou que o apoio não é uma "moeda de troca".
"O MST não vende a agenda da reforma agrária. 'Quem fazer mais a gente apoia'. No governo Lula, a gente tem outros compromissos além da luta pela terra", disse, elencando temas como defesa da soberania nacional, da democracia e da política ambiental.
Rodrigues afirmou ainda que a gestão Lula "nem se compara" a outros governos, dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e Itamar Franco. Ele chamou as gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro de "trágica experiência".
O líder do MST também quer que o atual presidente se comprometa em um eventual quarto mandato a "fazer a reforma agraria no canetaço". Rodrigues parafraseou uma fala de Lula dita em 1994, quando era candidato à Presidência.
"O governo não precisa de decisão do Congresso Nacional, nem do Judiciário. Fazer reforma agrária no Brasil é orçamento e o Incra. Por isso, nós estamos muito convencidos que, no quarto mandato do presidente Lula, não tem desculpa para ele não assentar todas as famílias acampadas", disse.
Segundo dados citados por Rodrigues, até o final do ano serão 10 mil famílias assentadas, de um total de 150 mil acampadas.
"Nós precisamos, nesse ritmo, pelo menos mais 15 anos de governo Lula para assentar todo mundo. Não podemos aceitar", afirmou.
Rodrigues também foi perguntado sobre o diálogo com outros presidenciáveis, além de Lula. Ele afirmou que o MST organizou um documento para destribuir a candidatos do que chamou de "campo progressista", mas afirmou não ser possível dialogar com todos.
"Tem candidatos que querem a morte do MST. Então, não tem sentido eu entregar esse documento, que corro o risco dele querer matar o documento o dia que ele receber. Eu vou dar um exemplo, o Ronaldo Caiado", disse.
O ex-governador de Goiás e candidato à Presidência pelo PSD é um opositor histórico do movimento por reforma agrária no Brasil. Caiado foi um dos fundadores da UDR (União Democrática Ruralista), criada em 1985 em defesa da propriedade privada e em reação ao MST.
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