Sou contra fingir normalidade onde ela não existe. Por vezes, sinto que nós tocamos violino enquanto o Titanic afunda - com a diferença que os músicos tentavam tornar a tragédia mais leve em 1912 e nós estamos jogando purpurina em cima da titica em 2026.
O debate (sic) entre Flávio Bolsonaro e Lula, na TV Bandeirantes, reforçou o que venho repetindo aqui feito um suricato com cãibra: o formato morreu. Ele ainda serve para dar audiência aos veículos de imprensa, que transmitem, relatam e analisam, e como estúdio gratuito de produção de cortes de vídeos pelas campanhas. As torcidas dos candidatos acompanharam excitadas, mas quem tinha mais o que fazer, ficou enjoado e mudou de canal.
A ascensão da extrema direita em todo o mundo, somada à migracão do epicentro do debate público da TV para as redes sociais e aplicativos de mensagens, deveria ter alterado também a estrutura dos debates. Mas isso não aconteceu. E agora muitos fazem beicinho de reprovação quando o show grotesco de ontem já eram favas contadas.
Privilegiar o confronto direto em uma eleição ultrapolarizada com um candidato de extrema direita que opera como um "moleque", na definição perfeita de José Roberto Toledo, no UOL, é pedir para a coisa degringolar. Vai ter audiência, óbvio, mas não significa que servirá para alguma coisa.
O contexto dos debates hoje não é igual ao de dez, 20 anos atrás. Por isso, Flávio teria vantagem e poderia dar uma chave de braço em seu adversário. Ele mente com facilidade e frequência, e, mesmo canastrão (nunca soara autêntico como seu pai) tem desenvoltura e melhor relação com as câmeras. Lula se perdeu várias vezes e ficava irritadiço ao cair em provocações. Mas a chave de braço não aconteceu, culpa da falta de respostas de Flávio (repetindo a tática evasiva que havia adotado na sabatina do Jornal Nacional), somada à agressividade e à soberba.
Por isso, o melhor momento foi quando Lula convidou o adversário a quebrarem juntos seus sigilos bancário e telemático. Flávio, claro, não aceitaria porque sairia de lá preso.
Mas, olha lá, eu tentando jogar minha pitada de purpurina na titica.
Porque é irresistível entrar na discussão sobre quem ganhou, quem perdeu, quem acertou o golpe mais baixo e quem saiu com a cara mais amassada. É exatamente essa a armadilha. Enquanto discutimos o desempenho dos candidatos, deixamos de discutir por que ainda aceitamos um formato que premia a mentira, a provocação e a capacidade de transformar a política em um espetáculo de quinta.
No fim, os veículos enchem seus espaços e faturam, as campanhas produzem seus cortes, as torcidas comemoram e os analistas distribuem medalhas. O eleitor, coitado, continua sem respostas.
E nós seguimos no convés do Titanic. Mas não se preocupem, temos muita purpurina.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL