Associações de imprensa do Brasil e de outros países das Américas ampliaram a participação da região na SPUR, iniciativa criada para acompanhar como a inteligência artificial usa notícias. A SPUR é uma coalizão internacional criada para desenvolver padrões de uso de conteúdo. A entidade anunciou ontem a entrada de 44 novos integrantes, entre eles sete associações das Américas. A coalizão informou ter ultrapassado 80 membros em mais de 20 países. Entre os membros participantes estão a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).
O objetivo é dar às empresas jornalísticas informações para discutir autorização e pagamento pelo uso de suas reportagens. Hoje, uma resposta de IA pode aproveitar uma notícia sem levar o leitor ao site que a publicou. Saber que o conteúdo participou dessa resposta, em qual etapa e de que forma é uma informação diferente de contar visitas ou procurar links visíveis na tela.
Essa diferença tem consequência para quem paga pela apuração. Uma redação mantém repórteres, editores e estrutura para produzir informações que outros serviços podem usar. Se a notícia ajuda uma plataforma a responder ao público, mas esse uso permanece desconhecido pelo veículo de imprensa, a empresa jornalística tem menos elementos para avaliar a relação comercial. A proposta da SPUR é criar registros que ajudem a tornar essa discussão verificável.
Também fazem parte do anúncio regional a ADEPA, da Argentina; a AMI, da Colômbia; a ANP, do Chile; a Alianza de Medios MX, do México; e o Conselho da Imprensa Peruana. São sete associações das Américas. No caso brasileiro, a ANJ já havia divulgado sua adesão em 8 de setembro.
Dados institucionais publicados pela ANJ informam que a SIP reúne cerca de 1.300 publicações no continente. A associação brasileira tem mais de 100 empresas associadas, entre elas as que publicam O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, GZH, Gazeta do Povo, O POVO e Correio Braziliense. Há também veículos como Jornal do Commercio, A Gazeta, O Popular, A Tarde e O Liberal.
Na Argentina, a ADEPA representa cerca de 180 empresas e mais de 200 publicações impressas e digitais, incluindo Clarín e La Nación. A ANP chilena reúne mais de 60 publicações, entre elas El Mercurio e La Tercera. O comunicado cita ainda El Tiempo e El Espectador entre os integrantes da AMI; El Universal e Proceso na Alianza de Medios MX; e representantes de El Comercio, La República, RPP e outros veículos na direção do conselho peruano.
O que acontece entre a notícia e a resposta
SPUR significa Standards for Publisher Usage Rights (padrões para os direitos de uso dos editors, em tradução livre). A organização foi lançada em fevereiro de 2026, funciona sem fins lucrativos e é financiada pelos membros. Entre os oito fundadores estão BBC, Financial Times, Guardian Media Group, Mediahuis, Sky News, Telegraph Media Group, Associated Press e CMA Media. The New York Times, AFP, The Atlantic, The Observer e The Economist aparecem na expansão de outubro.
Sua principal iniciativa técnica é o Content Telemetry Standard, ou o padrão de telemetria de conteúdo. Telemetria, nesse caso, significa registrar e comunicar o que aconteceu com um conteúdo durante seu uso por um agente de IA. A versão 1.0 da especificação técnica foi publicada em 2 de setembro e anunciada pela coalizão em 2 de outubro. A proposta divide esse uso em cinco eventos, que permitem observar situações normalmente reunidas sob a expressão genérica "a IA usou minha notícia".
Para entender a diferença, vale pensar em uma reportagem sobre o preço dos alimentos. Um assistente pode buscar esse texto para responder a uma pergunta sobre a alta do café. Esse é o evento de recuperação, chamado retrieved. Se o conteúdo entrar no contexto que o sistema usa para elaborar a resposta, haverá outro registro: grounded. Buscar uma página e efetivamente incluí-la na elaboração da resposta são ocorrências distintas.
O terceiro evento, cited, registra a citação. O quarto, presented, indica que o conteúdo ou uma referência a ele foi apresentado ao usuário. O quinto, engaged, trata da interação: um clique, uma cópia, um compartilhamento ou um pedido para que o agente execute alguma ação. A especificação usa esses nomes em inglês para que diferentes empresas consigam registrar os mesmos tipos de ocorrência, sem exigir que todas aconteçam ou sigam uma sequência obrigatória.
A distinção é importante porque uma reportagem pode entrar no contexto da resposta sem receber uma citação. Também pode ser citada sem gerar um clique. Nesse último caso, procurar apenas visitas ao site deixaria parte do uso fora da medição. Por outro lado, a apresentação de uma referência na tela não demonstra que a pessoa a leu ou sequer a percebeu.
Para o leitor, a discussão toca na possibilidade de identificar de onde veio uma informação. Para o veículo, envolve reconhecer o trabalho que sustentou uma resposta. Para quem desenvolve IA, um padrão comum pode facilitar a organização desses registros em relações com diferentes fornecedores de conteúdo. Esse benefício depende de implementação: publicar uma especificação não faz com que os sistemas passem a cumpri-la.
Há uma dificuldade importante no desenho dessa proposta. Eventos como a inclusão de conteúdo no contexto e sua citação são informados pelo próprio agente de IA. A empresa jornalística depende, portanto, de registros produzidos pelo sistema que usou seu material. A possibilidade de verificar esses dados de forma independente será decisiva para que eles tenham valor nas negociações.
O registro de que uma reportagem entrou no contexto também não revela quanto ela influenciou a resposta. Um sistema pode consultar várias fontes, aproveitar trechos diferentes e combinar informações. Estabelecer que houve uso é uma etapa; atribuir a cada fonte uma participação no resultado exige outros critérios. O padrão de telemetria não resolve sozinho essa divisão.
Uma camada complementar, chamada Content Telemetry Profile, está na versão preliminar 0.2. Ela descreve requisitos para avaliar a conformidade, entre eles o envio dos eventos individualmente, em tempo real e para um endereço escolhido pelo veículo. Admite também amostragem ou outra frequência de envio quando houver acordo. Para identificar materiais, o conjunto de propostas admite recursos como o C2PA, padrão que permite associar informações de procedência a conteúdos, inclusive imagens e vídeos. Essa identificação ajuda a reconhecer o material, mas não garante a detecção de todos os usos.
A coalizão também anunciou provas de conceito e ferramentas em desenvolvimento com parceiros, além de um conselho consultivo voltado à infraestrutura técnica e ao licenciamento, o Licensing Advisory Board. São iniciativas para testar e viabilizar o padrão. Os anúncios citados não demonstram que as grandes plataformas de IA já o tenham adotado amplamente.
No comunicado divulgado pela ANJ, Rebecca Grossman-Cohen, do The New York Times, defende a participação das empresas editoriais na definição dos padrões de proteção autoral. David Buttle, cofundador e porta-voz da SPUR, sustenta a necessidade de organização internacional da mídia. Se o padrão for adotado, as empresas de mídia poderão ter mais elementos para conferir o uso de suas reportagens. A confiança nesses registros dependerá de como serão produzidos e verificados.
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
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