A greve dos funcionários da Caixa em setembro afetou o recebimento de recursos e contribuiu para o aumento dos cancelamentos de vendas de construtoras no terceiro trimestre. Relatórios de Itaú BBA e BTG Pactual sobre as prévias dos resultados financeiros de MRV, Cury e Tenda mostram que a paralisação, somada a critérios mais rigorosos para a aprovação de financiamentos, dificultou a conclusão de negócios.
O que você precisa saber
A greve ocorreu nas últimas semanas do trimestre. Os funcionários pararam em 10 de setembro, após um impasse na negociação do acordo coletivo, principalmente sobre o custeio do plano de saúde. Em 29 de setembro, o TST (Tribunal Superior do Trabalho) determinou o fim da paralisação e o retorno às atividades até o dia seguinte. A corte considerou o movimento não abusivo e autorizou a compensação dos dias parados.
O impacto nas construtoras aparece nos repasses dos financiamentos. Essa etapa permite que a empresa receba os recursos relativos à venda do imóvel financiado. Os relatórios mostram que os atrasos pressionaram o caixa e, em alguns casos, contribuíram para a desistência de compradores.
Na MRV, a greve atrasou o recebimento de R$ 80 milhões, segundo o Itaú BBA. O relatório assinado por Elvis Credendio, Mariangela Castro e Juliana Veiga aponta que a operação do Minha Casa, Minha Vida consumiu R$ 2 milhões de caixa no trimestre, afetada por recursos que não foram recebidos da Caixa em setembro.
O BTG Pactual também identificou o atraso, mas vê dificuldades além da paralisação. No relatório assinado por Gustavo Cambauva e Gustavo Fabris, o banco calcula que, mesmo sem o efeito dos R$ 80 milhões, a geração de caixa da operação de baixa renda da MRV teria ficado abaixo de sua expectativa, de aproximadamente R$ 150 milhões.
Na Cury, os repasses à Caixa caíram e os cancelamentos aumentaram. Segundo o Itaú BBA, os repasses somaram R$ 1,3 bilhão, queda de 36% em relação ao segundo trimestre e de 13% sobre um ano antes. Os cancelamentos chegaram a R$ 358 milhões, alta de cerca de 60% na comparação anual, e representaram 15% das vendas brutas, ante 8% no trimestre anterior.
A demora nos repasses levou parte dos compradores a desistir, segundo o Itaú BBA. O banco também menciona clientes que não conseguiram aprovação do financiamento. A análise mais rigorosa da Caixa, com entrevistas e menor aprovação de trabalhadores informais, aparece como outro fator que dificultou a conclusão das vendas da Cury.
Na Tenda, os repasses de setembro caíram 51% em relação a agosto. Considerando Tenda e Alea, os repasses do trimestre somaram R$ 765 milhões, recuo de 32% sobre um ano antes, segundo o Itaú BBA. Na operação convencional da Tenda, os cancelamentos atingiram R$ 293 milhões, alta de 115%, e corresponderam a 19,4% das vendas brutas.
O fim da greve pode aliviar os cancelamentos nos próximos meses. O Itaú BBA avalia que parte da dificuldade da Tenda já era esperada e projeta uma normalização com a retomada das atividades da Caixa.
Com a greve da Caixa agora encerrada, os cancelamentos devem se normalizar daqui para a frente. Itaú BBA, sobre a Tenda
As exigências de crédito continuam sendo um ponto de atenção. Para se adequar às regras da Caixa, a Tenda reduziu de 10% para 7% a parcela de financiamento direto ao comprador após a entrega das chaves. Segundo o Itaú BBA, o ajuste pode pressionar os preços e as margens dos novos contratos. O BTG também cita a redução dos preços, do financiamento direto e o aumento dos cancelamentos entre os desafios da companhia.
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