Eram favas contadas que haveria uma reversão na trajetória da inflação, da deflação de 0,32% em agosto para setembro, porque haveria o rebote do bônus de Itaipu, que recompôs as tarifas de energia rebaixadas no mês anterior. Mas o resultado do mês passado mostrou pressões disseminadas nos preços.
Medida pela variação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a inflação em setembro deu um pinote e fechou com alta de 0,82%. No acumulado em 12 meses, a alta de preços ficou em 4,6%, voltando a superar o teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, que é de 4,5% para um centro de 3%.
Tendência de alta
Ainda que em tendência de alta, a inflação tende a avançar em ritmo mais moderado e constante até o fim do ano, sem a gangorra de altas e baixas registrada nos últimos meses. Já em outubro, o IPCA deve variar 0,3% acima da variação de setembro, manter o ritmo de alta em novembro e dar uma esticada de 0,6% em dezembro.
Essas projeções são do economista Fábio Romão, experiente responsável pelo acompanhamento de preços na consultoria 4intelligence. Neste último trimestre, a inflação acumulada em 12 meses evoluiria para 4,8% em outubro e 4,9% em novembro (mesmo com a inflação mensal de 0,3% em cada um dos dois meses), chegando em dezembro aos 5,2% previstos para o fechamento de 2026.
Não se deve confundir a moderação da inflação daqui para a frente depois da alta forte de setembro com preços baixos ou mesmo em queda. Eles continuarão subindo, apenas em ritmo mais lento do que no mês passado.
Energia puxou para cima
A alta de 8% nas tarifas de energia elétrica foi determinante para a inflação de setembro, mas os aumentos de preços no mês foram disseminados. Além da energia elétrica, os preços subiram em alimentos, combustíveis, transportes e serviços, na comparação com agosto.
Isso se refletiu nos núcleos de inflação. Na média, os núcleos — indicadores que limitam a variação de preços a causas estruturais, desconsiderando altas inesperadas e sazonais — subiram 0,32% em setembro contra 0,23%.
Em 12 meses, o núcleo que exclui preços voláteis de passagens aéreas evoluiu de 5,1% em agosto para 5,4% no mês passado. No mesmo período, o núcleo que mede a variação de preços nos serviços intensivos em trabalho subiu de 7,2% em agosto para 7,4% em setembro.
Esticão nos alimentos
A alimentação no domicílio deu um esticão em setembro, saindo de deflação de 0,6% em agosto para alta de quase 1% em setembro. Analistas já creditam a pressão aos efeitos do super-El Niño, que vai impactar negativamente a oferta de comida daqui para a frente, e também ao aumento das exportações de carne, reduzindo a oferta doméstica.
Para os alimentos no domicílio, Romão prevê relevantes altas mensais próximas a 1% nos meses restantes do ano, com repercussões negativas avançando por 2027. As estimativas do economista apontam alta de 7% na inflação de alimentos no domicílio e avanço até 10%, no acumulado em 12 meses, no começo do ano que vem.
Espaço para corte nos juros
Apesar das pressões sobre preços reafirmadas em setembro, o retorno da trajetória e das tendências da inflação a uma marcha mais "típica" para uma economia em desaceleração, nos meses restantes do ano, mantém espaço para novo corte nos juros.
Conforme esperado no mercado financeiro, a taxa básica de juros (taxa Selic) caminha para novo corte de 0,25 ponto percentual, descendo de 13,75% para 13,5%. O cenário e o ambiente econômico incerto, por fatores externos — petróleo, guerras, instabilidades em economias centrais — e internos — novo governo e desaceleração da atividade —, ditarão os passos seguintes da política de juros.
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