A elite empresarial do país chega ao segundo turno da eleição presidencial vendo vantagem para o senador Flávio Bolsonaro (PL). Empresários e executivos ouvidos pelo UOL avaliam que o resultado das urnas reflete, entre outros fatores, o distanciamento do governo petista de grupos que apoiaram Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022.
Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula, com 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões, ou 45,16%, do presidente. A diferença foi de cerca de 2,2 milhões de votos.
Para as fontes ouvidas pela reportagem, a vantagem nas urnas coloca Flávio em posição mais favorável para a disputa que será decidida no segundo turno, em 25 de outubro. A avaliação leva em conta não apenas o desempenho dos presidenciáveis, mas também o avanço da direita nas eleições para o Senado e os governos estaduais.
Na visão de Pedro Passos, acionista da Natura, esse conjunto de resultados deixou o desenho do segundo turno mais claro, com um ambiente político mais favorável à candidatura de Flávio Bolsonaro.
A expectativa entre os empresários ouvidos pelo UOL é que a maior parte dos eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) migre para Flávio Bolsonaro no segundo turno. O senador também deve ganhar o reforço de governadores eleitos, entre eles Tarcísio de Freitas, em São Paulo.
Apesar de enxergar um cenário eleitoral mais favorável a Flávio, Passos demonstra preocupação com a pouca atenção dada pelos dois candidatos à agenda econômica. "Vamos enfrentar uma recessão como a vista no pós-governo Dilma [Rousseff], independentemente do candidato que vencer o segundo turno", afirmou.
O empresário cita como sinais de alerta o endividamento recorde das famílias e o aumento do número de empresas em dificuldades financeiras, com níveis elevados de pedidos de recuperação judicial e extrajudicial. "Nenhum dos candidatos fez um debate sério com sinalização [para a área econômica]", afirmou.
Lula afastou empresariado
Para Ricardo Lacerda, presidente do banco de investimento BR Partners, a "onda azul" a favor de Flávio Bolsonaro surpreendeu. "A tendência é ele consolidar essa vantagem no segundo turno, como aconteceu em todas as eleições que tiveram dois turnos. Esse resultado reflete uma exaustão do modelo de governo do PT, com grandes gastos e juros muito altos."
Entre os empresários ouvidos pelo UOL, uma das explicações para o desempenho de Lula é o afastamento de parte da frente ampla que o apoiou contra Jair Bolsonaro em 2022. Na avaliação de um empresário da indústria, o presidente governou voltado principalmente para seu eleitorado mais fiel e perdeu o apoio de setores identificados com uma agenda "liberal social".
A falta de interlocução com o setor privado é apontada como um dos motivos desse afastamento. "O governo não mostrou abertura. Tinha uns dois ou três [empresários] ungidos pelo governo que o PT ouvia. O resto, ignoraram", afirmou. "Houve uma soberba do PT", disse outra fonte.
Os empresários não descartam uma tentativa de aproximação de Lula com o setor privado na reta final da campanha. A avaliação, porém, é que o presidente terá mais dificuldade para conquistar esse apoio do que teve no segundo turno de 2022.
Crise no STF
Lacerda, da BR Partners, ressaltou que as urnas mostram de forma muito contundente que a população quer mudanças no Judiciário e no Supremo Tribunal Federal. "O STF foi o grande eleitor de hoje (4 de outubro)", disse.
Empresários ouvidos pelo UOL sob condição de anonimato veem uma crise institucional no Judiciário, com possibilidade de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, mas não acreditam, por ora, numa ruptura institucional caso Flávio Bolsonaro seja eleito no dia 25.
Um executivo de um grande banco de varejo disse ao UOL que a crise no Judiciário deverá ser superada.
Para outro empresário da indústria, que falou sob sigilo, as agendas da educação, saúde e relações exteriores devem ser fragilizadas caso Flávio Bolsonaro ganhe. "É muito ruim o Brasil se indispor com a China, importante parceiro comercial", afirmou.
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