A norte-americana Christa Pike, 50, continuava respirando e roncando após receber duas doses de pentobarbital em uma tentativa de execução por injeção letal nesta quarta-feira (30), no Tennessee, nos Estados Unidos.
Condenada à morte pelo assassinato de uma jovem em 1995, ela foi retirada da prisão em uma ambulância e levada a um hospital após o procedimento frustrado.
Até esta quinta-feira (1º), as autoridades não haviam divulgado informações sobre o estado de saúde de Pike nem explicado por que a substância não provocou sua morte.
O governador do Tennessee, Bill Lee, determinou uma investigação independente e suspendeu as execuções previstas no estado até o fim do ano.
Como a substância letal age no organismo
O pentobarbital pertence à classe dos barbitúricos, medicamentos que durante décadas foram usados para induzir o sono, controlar convulsões e produzir sedação e anestesia.
A substância age no sistema nervoso central, reduzindo a atividade dos neurônios. Em doses elevadas, pode atingir as regiões do cérebro que controlam a respiração, fazendo com que ela fique lenta e superficial até ser interrompida.
A falta de oxigênio no sangue compromete o funcionamento do cérebro, do coração e de outros órgãos, podendo causar uma parada cardíaca e levar à morte.
Na injeção letal, o pentobarbital é administrado por via intravenosa em dose elevada para produzir essa sequência de efeitos. A morte, porém, não é necessariamente imediata: o resultado depende da quantidade de substância que chega à circulação sanguínea e da resposta do organismo.
Embora ainda tenha usos médicos específicos, em alguns tratamentos o pentobarbital foi substituído por medicamentos considerados mais seguros, como os benzodiazepínicos.
Entre as razões para a troca estão o risco de dependência e a possibilidade de depressão respiratória grave em caso de intoxicação.
O que pode ter dado errado na execução de Christa Pike
Autoridades do Tennessee ainda não explicaram o caso de Pike. De acordo com os advogados da mulher condenada à morte, ela recebeu duas doses da substância letal, mas não perdeu a consciência.
Segundo a agência de notícias Associated Press, jornalistas que acompanhavam o procedimento em uma sala separada relataram que as cortinas da câmara de execução foram abertas às 19h27 no horário local, quando Pike estava presa a uma maca.
De acordo com as testemunhas, a segunda dose de pentobarbital foi aplicada às 20h26. Mesmo depois, ainda era possível ouvir a mulher respirando e roncando atrás da cortina fechada, até que o microfone foi desligado, às 20h53. Os jornalistas foram, então, retirados da área.
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O médico Joel Zivot, professor da Escola de Medicina da Universidade Emory e contratado pela defesa como perito, afirmou à BBC que provavelmente não foi alcançada uma concentração suficiente de pentobarbital no sangue que pudesse interromper a respiração e comprometer o sistema cardiovascular. A hipótese ainda precisa ser investigada.
Ele disse ainda que, em razão da demora para reanimar Pike, é "muito possível que ela tenha sofrido uma lesão cerebral".
Segundo o DPI (Death Penalty Information Center), os advogados apontaram possíveis problemas no acesso venoso, incluindo o rompimento de veias, e alegaram que o medicamento poderia estar degradado. Nenhuma dessas possibilidades foi confirmada pelas autoridades.
A conservação da substância é uma questão relevante, porque medicamentos podem perder potência quando armazenados inadequadamente ou usados após o prazo de validade.
Não há, porém, evidências públicas de que o pentobarbital aplicado em Christa Pike estivesse comprometido.
Uso do pentobarbital em execuções nos EUA
Alguns protocolos de injeção letal nos Estados Unidos combinam três medicamentos: um anestésico, um agente que paralisa os músculos e uma substância que interrompe o funcionamento do coração.
Organizações de direitos humanos e associações médicas criticam o método porque, se o anestésico não produzir efeito adequado, a pessoa pode sentir dor sem conseguir demonstrá-la.
O pentobarbital passou a ser uma alternativa devido ao seu mecanismo de ação —provocar perda de consciência e interromper a respiração, quando em doses altas.
A mudança também foi impulsionada pela dificuldade de obter medicamentos para as execuções. De acordo com o DPI, a partir de 2010, fabricantes interromperam a produção de anestésicos usados para esse fim, em parte para evitar que os produtos fossem usados para matar pessoas.
A escassez levou estados a buscar alternativas, e Ohio foi o primeiro a realizar uma execução apenas com pentobarbital, em março de 2011.
Outros estados, como Texas, Geórgia, Missouri e o próprio Tennessee adotaram protocolos semelhantes.
Ainda assim, o uso do pentobarbital gera controvérsia. Uma revisão do Departamento de Justiça dos EUA apontou incertezas sobre a possibilidade de o método causar dor e sofrimento desnecessários.
Entre as preocupações está a chance de edema pulmonar agudo, acúmulo de líquido nos pulmões que pode provocar sensação de sufocamento. Especialistas divergem sobre se a pessoa perde a consciência antes de sentir esses efeitos.
O governo norte-americano usou o pentobarbital em 13 execuções em 2020 e 2021, ainda segundo o DPI. Após a suspensão na gestão Joe Biden, o Departamento de Justiça voltou a autorizar o protocolo em 2026, no segundo mandato de Donald Trump.
O pentobarbital também é usado na medicina veterinária para eutanásia de animais.
Em humanos, a substância tem uso autorizado em alguns contextos legais. Na Suíça, por exemplo, o pentobarbital sódico é prescrito para o suicídio assistido mediante critérios médicos rigorosos e avaliação da capacidade de decisão do paciente.
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