Ações de empresas ligadas ao mercado de apostas registravam quedas de até 34% nas bolsas internacionais hoje, após a proibição das bets no Brasil, na última sexta-feira, após fechamento dos mercados. A medida levou companhias a cortar projeções financeiras e ameaça, segundo elas, os planos de expansão no país.
O que aconteceu
Maior queda entre nove empresas do setor com ações em Bolsa era da Better Collective, que recuava 33,8% em Estocolmo. A companhia, que recebe parte de sua receita de operadoras pela indicação de apostadores, reduziu suas previsões de crescimento e suspendeu a recompra de ações após a decisão no Brasil.
Também caíam grupos responsáveis por algumas das marcas de apostas mais conhecidas dos brasileiros. A Flutter, controladora da Betnacional e da Betfair, perdia 6,74% em Nova York. A Entain, responsável por Sportingbet e Betboo, recuava 3,85% em Londres. A Allwyn, que possui participação minoritária de 36,75% na Kaizen Gaming International, dona da Betano, tinha baixa de 4,65%. A Betsson, que opera no Brasil com a própria marca, caía 1,83%
Movimento atingia ainda empresas que fornecem serviços para o setor. A Playtech, que mantém exposição financeira à Galera Gaming, ligada à Galera.bet, recuava 2,83%. A Evolution perdia 3,14%, enquanto a Kambi tinha queda de 1,44%. A MGM Resorts, sócia da Globo na BetMGM brasileira, destoava das demais e subia 0,15% em Nova York.
Exposição ao Brasil varia entre os grupos. Além das operadoras que recebem diretamente as apostas, a cadeia do setor inclui empresas de tecnologia, fornecedoras de jogos e negócios remunerados pela indicação de clientes.
Empresas cortam previsões
Better Collective esperava aproximadamente 45 milhões de euros em receitas no Brasil em 2026, dos quais 15 milhões de euros seriam obtidos no restante do ano. Com a proibição, a empresa reduziu sua projeção de crescimento orgânico de uma faixa de 7% a 12% para 3% a 8%.
Previsão para o Ebitda antes de itens especiais também foi revista. Para o lucro antes de juros, impostos, depreciação a amortização, a companhia esperava anteriormente crescimento entre 8% e 18%, mas agora trabalha com uma faixa que vai de queda de 7% a alta de 3%. As metas financeiras para 2027 e 2028 foram suspensas.
Flutter estima perder US$ 70 milhões em receitas e US$ 20 milhões em Ebitda ajustado em 2026 caso a proibição seja mantida, segundo a Reuters. Em comunicado citado pela agência, a companhia afirmou estar "extremamente decepcionada" e disse avaliar suas opções, inclusive um possível recurso.
Entain esperava obter no Brasil cerca de 5% de sua receita líquida de jogos online neste ano. A companhia reduziu a projeção de crescimento dessa receita, em câmbio constante, de 5% a 7% para 4% a 6%. O resultado subjacente deve ficar próximo do piso da faixa anteriormente prevista, entre 910 milhões de libras e 960 milhões de libras, segundo a Reuters.
Jesper Søgaard, cofundador e co-CEO da Better Collective, criticou a decisão. Ele destacou os investimentos realizados desde a regulamentação do mercado brasileiro, em janeiro de 2025. Segundo o executivo, as operadoras licenciadas investiram recursos significativos para construir seus negócios no país. "Retirar esse mercado regulado não eliminará a demanda subjacente por apostas", afirmou Søgaard.
Medida pode direcionar apostadores para plataformas ilegais, que não pagam tributos locais nem oferecem as mesmas proteções aos usuários. Trata-se da avaliação da Better Collective, que depende comercialmente das operadoras.
Obtenção das licenças brasileiras havia sido apresentada pelas empresas como uma oportunidade de expansão. Quando a Betsson anunciou sua autorização para operar no país, em 2025, o presidente e CEO Pontus Lindwall comemorou a adoção das regras locais e a concessão da licença. Na ocasião, a companhia descreveu a entrada no mercado regulado como um reforço de sua presença na América Latina.
Impacto imediato sobre os lucros pode ser relativamente limitado porque o Brasil ainda estava em fase de investimentos. Segundo disse Paul Ruddy, analista da Davy, à Reuters, o efeito de longo prazo, porém, pode ser maior, já que a proibição elimina um mercado que vinha sendo tratado pelas empresas como uma avenida relevante de crescimento.
Balanço da BetMGM no Brasil mostra o tamanho dos gastos de uma empresa que buscava conquistar espaço no mercado. A Boa Lion, sociedade entre MGM Resorts e Globo responsável pela operação brasileira, registrou receita líquida de R$ 144,1 milhões e prejuízo de R$ 329,7 milhões em 2025.
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