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UOL há 32 d • Seg, 28 Set 2026 05:30:00 -0300

Mensagens contradizem proposta de delação de Vorcaro sobre Toffoli

Mensagens contradizem proposta de delação de Vorcaro sobre Toffoli

Mensagens apreendidas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Master, contradizem a versão contada por ele em proposta de delação premiada sobre sua relação com o ministro Dias Toffoli. A tentativa do ex-banqueiro de firmar uma colaboração foi rejeitada pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por insuficiência de provas.

O documento, obtido pelo UOL, dedica um anexo à relação com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). Nele, Vorcaro descreve o investimento no resort Tayayá, no Paraná.

Ele conta na proposta de delação que combinou um pagamento de R$ 35 milhões por uma fatia do Tayayá em 2021, mas pagou R$ 20 milhões e ficou devendo R$ 15 milhões de uma suposta segunda parcela. De acordo com Vorcaro, o valor restante não foi pago porque o ministro se afastou dele, devido a críticas de amigos.

Vorcaro diz que só reatou a relação com Toffoli em 2025. Ao analisar as mensagens de celular, porém, a PF (Polícia Federal) identificou 12 ocasiões em que o ex-banqueiro esteve com o ministro de outubro de 2023 a fevereiro de 2025, uma relação que fora intermediada pelo ex-deputado federal Fábio Faria.

Procurado, o ministro Toffoli enviou uma nota, divulgada em fevereiro de 2026, na qual afirma que a Maridt Participações, empresa presidida por um de seus irmãos e que deteve participação no Tayayá, é "uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado", com declarações anuais à Receita Federal. O texto diz ainda que "todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado" e que todos os atos da empresa e de seus sócios estão declarados à Receita "sem nenhuma restrição".A defesa de Daniel Vorcaro disse que "repudia a divulgação de supostos anexos que estariam relacionados a tratativas de colaboração premiada que não foi celebrada" (leia abaixo).

O que diz a proposta de delação

Segundo o relato de Vorcaro, ele teria reencontrado Toffoli no início de 2025 num evento de um amigo em comum. Foi lá que o empresário Alberto Leite o teria abordado e oferecido comprar sua parte no Tayayá, afirma o ex-banqueiro.

Vorcaro diz que conversou pouco com o ministro do STF no evento. Ou seja: ele sustenta na proposta de delação que negociou a venda de sua participação no resort da família de Toffoli num evento em que o ministro estava presente, mas o magistrado não foi convidado para essa conversa.

Só depois disso, Vorcaro diz que começou a cobrar seu cunhado, Fabiano Zettel, para pagar os R$ 15 milhões restantes e quitar a compra de sua fatia no Tayayá.

"Após essa decisão de venda do investimento para Alberto Leite, ocorreram trocas de mensagens nas quais 'cobrava' Fabiano Zettel para complementar o restante do investimento", diz o texto da proposta de colaboração. Zettel operava os pagamentos do então banqueiro.

Cobrança começa em 2024

Mensagens do celular de Vorcaro mostram, no entanto, ele cobrando Zettel para que fizesse o repasse de R$ 15 milhões já em 2024.

As mensagens estão num relatório da PF (Polícia Federal), como mostrou a revista Piauí. Elas ocorrem dez meses antes do que a proposta de delação descreve, e desmentem a versão do encontro com Leite.

Em 24 de maio de 2024, horas após receber uma ligação de Toffoli, Vorcaro escreve a Zettel: "Vc nao resolveu o aporte no fundo. Tayayá. Estou em situação ruim", cobrou.

Nas mensagens, Vorcaro e Zettel tratavam dois assuntos como parte de uma mesma negociação: um novo aporte de R$ 15 milhões para quitar a compra da fatia no Tayayá e a transferência do fundo Arleen, da gestora de investimentos Reag, para um terceiro.

Também investigada no caso Master, a Reag entrou na sociedade do Tayayá em 2021, mesmo ano que Vorcaro conta ter acertado a compra de uma fatia no resort da família Toffoli. A operação foi feita por meio do fundo Arleen, que adquiriu dos irmãos do magistrado uma fatia do negócio por R$ 20 milhões —valor idêntico ao que Vorcaro relatou ter aplicado no resort.

Em um diálogo posterior, Zettel disse que estava apenas aguardando um advogado dizer para quem o fundo deveria ser transferido para encerrar o negócio.

A proposta de delação apresenta Alberto Leite como alguém que surgiu no início de 2025, num evento social, com uma iniciativa espontânea de compra.

Nas mensagens, a história é outra. Em 5 de novembro de 2024, Vorcaro diz a Leite: "Estou pronto pra executar aquele deal que falamos." Leite responde "beleza" e diz estar na Espanha.

Poucos minutos depois, na mesma noite, Vorcaro diz a Zettel que "aquele FIP Tayayá tem que passar pra um amigo que vai comprar". FIP é a sigla para Fundo de investimento em Participações. Em seguida, dá o nome: "Alberto".

Em 27 de dezembro de 2024, Vorcaro pede ao cunhado o contrato de venda: "Preciso fazer contrato de venda do fundo Tayayá." Ele determina prazo de pagamento em até 180 dias e, sobre o comprador, escreve: "Sem nome." Em 19 de fevereiro de 2025, Zettel informa: "Alberto Leite concluído! Tá todo feliz."

O que mudou na delação

O anexo sobre Toffoli foi reescrito entre a primeira e a terceira versão da proposta de delação. O UOL comparou os dois textos.

Na versão final, o acordo de R$ 35 milhões passou a ser descrito como "compromisso inicial verbal". Foi acrescentada a informação de que o contrato assinado cobria apenas os R$ 20 milhões da entrada.

Também foi acrescentada uma frase sobre a parcela restante: "Como a segunda parcela, de R$ 15MM não havia sido formalizada, não era possível que a empresa do ministro fizesse qualquer cobrança ou notificação". A empresa referida é a Maridt Participações, presidida por um irmão do ministro.

Saiu do texto uma frase em que Vorcaro negava haver contrapartida por parte do ministro: "A operação se tratou de investimento e venda sem qualquer contrapartida ou pedido relacionado ao ministro Dias Toffoli".

Foi retirada também a afirmação de que, no período, não havia "causas específicas de interesse do colaborador ou do Banco Master com o ministro Dias Toffoli".

As mensagens mostram que Vorcaro tinha uma expectativa de que o ministro votasse a seu favor em um caso envolvendo direitos creditórios de usinas do setor sucroalcooleiro, que representavam um patrimônio bilionário para o Master.

Na primeira versão, Vorcaro dizia que faria o investimento "mesmo se não fosse ligado ao ministro Dias Toffoli". Na última, diz que a operação "se tornava ainda mais interessante por ser relacionada ao Dias Toffoli".

Foi alterada ainda a explicação para Vorcaro ter pago a segunda parcela, de R$ 15 milhões. Antes, ele dizia que "entendeu ser bom para o negócio". Depois, Vorcaro afirma que decidiu pagar "a fim de cumprir a palavra dada ao ministro, por se tratar de quem ele é".

Por fim, as mensagens deixaram de figurar na lista de provas de corroboração do anexo. Na primeira versão, estavam listadas as conversas com Fábio Faria e as cobranças a Zettel como elementos de corroboração.

O que diz a defesa de Vorcaro

A defesa de Daniel Vorcaro disse que "repudia a divulgação de supostos anexos que estariam relacionados a tratativas de colaboração premiada que não foi celebrada".

"A defesa não confirma o conteúdo do material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas."

"O material preliminar da colaboração foi disponibilizado a um número restrito de autoridades que possuem dever legal de confidencialidade. A defesa reafirma que Daniel Vorcaro possui informações personalíssimas e relevantes para o caso e segue disponível para contribuir com as autoridades."

Procurado, Alberto Leite não comentou.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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