Em dezembro de 2015, Elon Musk e Sam Altman anunciaram a criação da OpenAI. A ideia era estruturar um laboratório de IA sem fins lucrativos, feito para impedir que a inteligência artificial ficasse nas mãos de uma única empresa. A empresa em questão era o Google, que havia comprado a DeepMind de Demis Hassabis no ano anterior.
No ano seguinte, Dario Amodei entrou no time e passou a comandar a pesquisa. Em 2018, o grupo escreveu um estatuto com uma cláusula curiosa: se outro projeto chegasse perto de uma IA de nível humano antes deles, a OpenAI pararia de competir e passaria a ajudar.
Logo em seguida, cada um seguiu o próprio caminho. Musk deixou o conselho em 2018 e criou a xAI em 2023. Amodei saiu no fim de 2020 e fundou a Anthropic. Hassabis continuou no Google. Altman transformou a OpenAI na empresa que lançou o ChatGPT.
Oito anos depois da cláusula do estatuto, os quatro voltaram a concordar em algo.
O que aconteceu
No dia 12 de setembro, Amodei publicou um ensaio chamado "We Must Pace the Frontier" (algo como "precisamos dosar o ritmo da fronteira"). O texto pede que os laboratórios desacelerem, de forma deliberada e coordenada, o avanço dos modelos mais poderosos. A palavra escolhida foi "dosar", e não "parar".
Em poucas horas, Altman escreveu "concordo com o Dario". Musk escreveu "o Dario tem razão". Hassabis alinhou a direção e assumiu a meta de montar, ainda em 2026, um órgão de padrões da própria indústria.
O gatilho para esse alinhamento foi um incidente ocorrido no meio do ano. Cópias de um modelo ainda não lançado da OpenAI escaparam do ambiente de teste (o sandbox) e atacaram os serviços da Hugging Face, uma espécie de repositório público de modelos de IA. A questão é que nenhum ser humano havia pedido isso aos agentes.
Nesta semana, Clement Dolangue, CEO da Hugging Face, se uniu a Altman e Amodei em reunião do conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) para explicar às lideranças globais os potenciais riscos de uma corrida descontrolada para desenvolver a inteligência artificial.
O plano descrito por Amodei para controlar a IA tem três degraus. Primeiro, avaliadores externos trabalhando dentro de cada laboratório, com acesso de funcionário. Segundo, coordenação entre laboratórios de países democráticos, com autorização antitruste do governo. Terceiro, um acordo global, o que inclui a China.
Os dois lados da moeda
Há uma leitura generosa e uma leitura "cínica" sobre o tema. As duas cabem exatamente dentro dos mesmos fatos.
A leitura generosa diz que o pedido é sincero porque sua aplicação custa dinheiro a quem o faz. Desacelerar o passo de desenvolvimento significa gastar mais capacidade computacional em testes de segurança e menos em produto. Gavin Baker, renomado gestor de fundos de tecnologia, fez a conta: quanto mais GPUs revisitando os modelos, menor a margem.
A leitura "cínica" vem de outro espectro, mais conectado ao lado analítico. David Sacks (o czar de tecnologia de Trump), Michael Burry (a figura central do filme "A Grande Aposta") e Ben Thompson (reconhecidamente um dos melhores analistas de tecnologia da última década), pontuaram: congelar a corrida com Anthropic, OpenAI e Google na frente é criar uma barreira de entrada disfarçada de prudência.
Thompson foi mais longe e batizou o mecanismo: ao ser a primeira a aceitar avaliadores externos, a Anthropic passa a definir o que se transforma em supervisão legítima, e, na sequência, pedirá ao governo que obrigue os concorrentes a adotar o mesmo modelo. Ele chamou os avaliadores de "comissários de IA".
Um detalhe reforça ainda mais essa segunda leitura. Os grupos de trabalho entre Anthropic, OpenAI e Google para criar esse órgão de padrões existem desde julho. A coordenação já estava em construção quando o apelo público apareceu.
O pedido para desacelerar é, antes de tudo, uma disputa entre quem escreve as regras.
A China é realmente a culpada por ninguém querer frear?
Donald Trump respondeu no domingo (13): "estamos à frente da China em IA, e quem vence a IA vence". Na terça (15), em uma ligação ao vivo com Jensen Huang, da Nvidia, Trump chamou as preocupações de "embuste".
O argumento tem base. Como escrevi anteriormente, os modelos chineses estão seis a doze meses atrás dos americanos e chegaram até aqui com 1% a 3% do poder de processamento dos rivais. Um ano de freio nos Estados Unidos zera essa distância. A imprensa estatal chinesa, aliás, leu o ensaio de Amodei como estratégia de hegemonia: restrição de chips somada a desaceleração seletiva.
É por isso que o terceiro degrau do plano, o acordo global, é o que Thompson chamou de "fantasioso". Sem freio doméstico, nenhum acordo internacional se sustenta. E sem acordo internacional, o freio doméstico transfere uma vantagem perigosa.
O resultado mais provável desse tema é o que Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca, já sinalizou: proteções pontuais, discutidas em reuniões, e nada de moratória.
O apocalipse como gênero
A semana do apelo foi antecedida por uma sequência de alertas. Um ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic pediu demissão citando uma chance de 10% de a IA "matar a humanidade até o fim da década". Um colega dele fala em 25%. Greg Jensen, codiretor de investimentos da Bridgewater, o maior fundo de hedge do mundo, e investidor das duas empresas, disse que a regulação só virá "quando a IA começar a matar gente".
Vale colocar esses números no contexto. A pesquisa mais ampla sobre o tema, com milhares de pesquisadores de IA, encontrou uma mediana de 5% a 10% para o cenário de catástrofe. Os alertas individuais estão dentro da distribuição da área, e não na cauda dela.
O que me chama a atenção é o padrão. Em março de 2023, mais de mil pessoas assinaram uma carta pedindo uma pausa de seis meses no treinamento de modelos (entre elas estava nada menos do que Elon Musk).
Em maio daquele ano, Altman, Amodei e Hassabis assinaram uma declaração de 22 palavras comparando o risco da IA ao de uma pandemia ou de uma guerra nuclear. Mesmo assim, nenhum modelo deixou de ser lançado. E exatamente no mesmo fim de semana do ensaio de Amodei, a OpenAI anunciou ter resolvido um dos sete Problemas do Milênio da matemática usando agentes rodando sem parar.
O ensaio de Amodei somou cerca de 69 milhões de visualizações. O discurso de apocalipse é o gênero literário mais eficiente da indústria de IA para ocupar a conversa pública, e é nela onde se negociam regras, autorizações antitruste e o formato da regulação.
Isso não significa que o risco seja zero. Thompson, por exemplo, faz uma distinção útil: risco digital (ataques cibernéticos, enxames de agentes) é real, escalável e difícil de rastrear. Risco físico (armas biológicas, robôs) exige fábricas, insumos e laboratórios, tudo muito mais visível. O primeiro merece (e tem) resposta técnica: basta as companhias colocarem em prática os seus sistemas de pesos e contrapesos (eles já existem de certa forma - tente fazer algo errado com um agente e ele certamente te impedirá). O segundo ponto é o que sustenta a narrativa de fim do mundo de verdade.
Os sinais frescos da 'grande ponderação'
Para quem investe daqui, três consequências.
A primeira: do pacote inteiro, o único fato concreto até agora são os avaliadores externos dentro da OpenAI e da Anthropic. Todo o resto é proposta. Hock Tan, presidente da Broadcom, reafirmou as metas de receita de longo prazo na terça. Os investimentos em infraestrutura seguem, e com eles as contas da Nvidia, das empresas de energia e das construtoras de datacenters e hyperscalers.
A segunda: regulação desenhada para os laboratórios de fronteira é vantajosa para quem já está na fronteira. A Anthropic prepara sua abertura de capital para as próximas semanas (vamos ver como Amodei vai se portar). Quem detém BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados na B3) ou ações de quem escreve as regras, como por exemplo, com exposição a Microsoft, Alphabet e Nvidia, não deveria se preocupar.
A terceira: segurança cibernética mais do que nunca virou linha de receita. Quando os próprios criadores da tecnologia dizem que ela pode atacar sozinha, o orçamento de proteção das empresas cresce. A alta das ações da CrowdStrike no dia do pânico diz muito sobre o humor do mercado em tempo real.
Em 2018, os fundadores da OpenAI prometeram parar se alguém chegasse na frente. Em 2026, pedem para todos desacelerarem juntos, e mantêm o governo como testemunha. Desacelerar em conjunto é a forma mais elegante de nenhum deles parar.
João Piccioni é Analista de Investimentos (CNPI), gestor de carteiras autorizado pela CVM e fundador da Capital Pulse. Esta coluna é análise, e não recomendação de investimento.
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