O governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foi alertado sobre a preparação de um grande ataque pelo chefe da inteligência egípcia onze dias antes de 7 de outubro de 2023. A revelação foi feita pela revista americana The Atlantic na sexta-feira (25) e sacode a campanha para as eleições legislativas em Israel, que vai às urnas neste domingo (27).
Michel Paul, correspondente da RFI em Jerusalém
"Se vocês não mudarem de rumo, Gaza vai explodir na cara de vocês". Esse teria sido o alerta feito pelo chefe da inteligência egípcia, Abbas Kamel, a Israel, onze dias antes do fatídico 7 de outubro. Após uma extensa investigação, a The Atlantic traz detalhes sobre o desembarque secreto de Kamel no aeroporto Ben-Gurion em 26 de setembro de 2023.
Segundo o registro do voo ao qual a reportagem teve acesso, o chefe da inteligência egípcia permaneceu no local por apenas 67 minutos. O objetivo seria alertar o governo de Benjamin Netanyahu que o Hamas estava preparando um grande ataque e que a janela de oportunidade para evitar uma catástrofe estava se fechando. O chefe da inteligência egípcia ainda teria recomendado a Netanyahu que aliviasse a pressão econômica sobre a Faixa de Gaza.
The Atlantic também informa que autoridades árabes, americanas e europeias estavam a par da visita e confirmaram que Kamel alertou Israel sobre os preparativos do grupo Hamas. Sob anonimato, um militar israelense declarou à revista que não há qualquer "cenário em que altos funcionários israelenses tenham se reunido com o chefe da inteligência egípcia e Benjamin Netanyahu não estivesse ciente disso".
Há algumas semanas, uma investigação similar realizada pelo jornal israelense Haaretz indicou que o presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed, teria dado um telefonema a Benjamin Netanyahu para fazer um alerta parecido. A informação também foi divulgada pelo jornal americano The New York Times na sexta-feira (25). Segundo a The Atlantic, o primeiro-ministro rejeitou a revelação e ameaçou processar o diário israelense.
Oposição israelense exige investigação
Em plena reta final da campanha eleitoral em Israel, as revelações têm o efeito de uma bomba no país. A oposição denuncia o que considera uma cegueira política imperdoável da parte de Netanyahu e exige a criação de uma comissão oficial de investigação.
Diante do terremoto político e dos ataques dos adversários, o gabinete do primeiro-ministro mantém a versão propagada desde o dia do ataque. Netanyahu nega categoricamente ter recebido tais alertas e denuncia uma tentativa de manipulação.
O atentado do grupo Hamas contra Israel ocorreu onze dias após a visita de Kamel, resultando na morte de 1.200 pessoas do lado israelense, em sua maioria civis, e no sequestro de 251 reféns, levados para Gaza durante ataques coordenados contra comunidades, bases militares e um festival de música.
Em retaliação, Israel lançou uma imensa campanha militar que matou mais de 73 mil palestinos na Faixa de Gaza, a maioria civis, segundo o Ministério da Saúde do território. A guerra no enclave, que completará três anos o próximo mês de outubro, é considerada uma das mais devastadoras tragédias humanitárias deste século.
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