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UOL Economia há 35 d • Sáb, 26 Set 2026 09:53:58 -0300

'Não faria sentido sujar nossa reputação', diz CEO do Genial

'Não faria sentido sujar nossa reputação', diz CEO do Genial

A terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada na última quinta-feira (24), voltou a colocar sob os holofotes o grupo Genial e um ex-diretor da instituição. A empresa e o executivo Humberto Arthur Tupinambá Neto aparecem nas investigações por operações que, segundo o Ministério Público de São Paulo, teriam sido usadas para ocultar os verdadeiros financiadores da compra de uma distribuidora de combustíveis.

Em entrevista ao UOL, o CEO do grupo Genial, Rodolfo Riechert, afirma que as operações de crédito apontadas pela Carbono Oculto não chamaram atenção do grupo antes porque tratam-se de operações comuns no mercado financeiro. Ele diz que o banco não tinha como imaginar, na época, que se tratavam de movimentações suspeitas.

"A gente tem uma conduta respeitada. Somos um grupo de sócios que colocou o próprio dinheiro na empresa", diz o executivo, que é um dos fundadores da empresa. "O fundo investigado era uma operação de R$ 100 milhões de administração de um universo de bilhões que a gente administra. Não faria o menor sentido 'sujarmos' nossa reputação por isso", completa.

Hoje, o grupo que reúne banco, corretoras, gestão de fundos, assessoria financeira a empresas, crédito, administração de patrimônio e negócios em energia e entretenimento. Segundo dados divulgados em seu site, a Genial tem 3 milhões de clientes, mais de R$ 270 bilhões em ativos e mais de 200 escritórios associados.

Ex-sócios do Pactual criaram o Genial

A história do grupo começou com quatro ex-sócios do banco Pactual. Junto com Riechert, André Schwartz, Carlos Eduardo Rocha e Eduardo Moreira criaram a Plural Capital, em 2009. Eles saíram do Pactual após a recompra do banco pelo BTG.

No início, a empresa atuava em assessoria para grandes companhias, gestão de recursos e administração de patrimônio. Os fundadores aplicaram R$ 400 milhões de recursos próprios nos fundos da gestora. "Quando montamos o negócio, a ideia era ser um grupo de investimentos à moda antiga. Mas, quando você começa a ter clientes, precisa expandir, oferecer mais coisas", diz Riechert.

O plano dos fundadores era disputar os grandes negócios do mercado financeiro. Em 2012, Riechert dizia querer colocar a casa na mesma liga de Itaú BBA e BTG Pactual.

Para avançar, o grupo associou-se à Flow, corretora fundada por Jorge Felipe Lemann, filho do empresário Jorge Paulo Lemann, em 2011, e obteve autorização do Banco Central para adquirir o então inoperante Banco Equity, em 2012. Foi essa aquisição que abriu caminho para a fundação do Banco Brasil Plural.

A entrada no varejo de investimentos veio pela Geração Futuro. Anunciada em 2012, a compra de R$ 150 milhões incorporou uma corretora conhecida por atender investidores de pequeno porte.

Anos antes de virar parte do Genial, a Geração Futuro oferecia clubes de investimento com aplicações iniciais de R$ 100. O negócio deu ao grupo uma base de cerca de 80 mil clientes e uma experiência de distribuição que não estavam no centro da antiga Plural. "Nós entendemos que esse público era muito mal atendido e tinha espaço para crescer. E entendemos que o caminho para crescer era por meio da tecnologia", explica Riechert.

Com essa visão, em 2018, a antiga Geração Futuro passou a se chamar Genial Investimentos. No ano seguinte, o grupo reuniu suas marcas sob o nome Genial. O controle atualmente está concentrado em Riechert e Schwartz, dois dos fundadores. Segundo Riechert, o grupo tem hoje cerca de 70 sócios, sendo que 30 possuem uma participação relevante no negócio, dentro do modelo de partnership.

Os negócios do grupo

O crédito passou a ocupar mais espaço nos planos de crescimento do grupo. Desde 2024, o Genial oferece um cartão cujo limite é calculado com base nos investimentos mantidos pelo cliente na plataforma. Em 2026, criou uma operação de empréstimos consignados para servidores públicos, com planos de expansão do serviço para trabalhadores do setor privado.

"A operação de crédito é hoje muito rentável. Olhamos para o que poderíamos fazer e chegamos à conclusão que o consignado é a maneira mais segura de entrar nesse mercado", explica Riechert.

A plataforma de investimentos é a face mais conhecida do grupo Genial. Nela, clientes pessoas físicas encontram produtos de renda fixa, fundos e ativos negociados em Bolsa. O grupo também distribui seus produtos por meio de uma rede de mais de 200 escritórios associados.

Em outra frente de atuação, a Genial Gestão informa ter mais de R$ 29 bilhões sob gestão, distribuídos em 91 fundos, com atuação em imóveis, crédito e participações em empresas. Para o público de alta renda, as áreas de wealth management e private banking reuniam mais de R$ 15 bilhões, em abril de 2026, segundo entrevista de um executivo da instituição ao site de notícias NeoFeed.

O grupo também atua no setor elétrico. Incorporada em 2017, a Genial Energia comercializa energia. No fim de 2025, a empresa reunia 620 clientes no mercado livre, distribuídos por 18 estados. Na geração solar, outra empresa do grupo, a Genial Solar, era composta por 22 usinas em operação, em março de 2026.A companhia mira clientela residencial e empresas conectadas à baixa tensão, como bares e restaurantes. "Nossa operação de energia solar vai muito bem porque escolhemos um mercado, o Rio de Janeiro, que tem pouca competição", explica Riechert.

Outra aposta do Genial está no automobilismo. A companhia lidera o consórcio responsável pelo desenvolvimento do Autódromo Parque de Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro. Apresentado pela Prefeitura do Rio em 2025, o projeto prevê uma pista de 4,7 quilômetros, capacidade para até 120 mil pessoas e investimento privado de R$ 1,3 bilhão no empreendimento.

Outro projeto de entretenimento com participação do Genial é o Imagine, concebido em parceria com a Rock World, empresa por trás do Rock in Rio, para a área do Parque Olímpico do Rio. A proposta reúne parque temático, anfiteatro, espaços para eventos e outras atrações permanentes. A estreia está prevista para o início de 2029.

O que diz a Operação Carbono Oculto

O nome do grupo Genial já tinha aparecido na primeira fase da Operação Carbono Oculto em agosto de 2025. A força-tarefa comandada pela Polícia Federal investiga fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, incluindo o uso de fintechs e fundos de investimento para ocultar recursos atribuídos a um grupo criminoso ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). "A gente foi pego de surpresa pela notícia", relembra Riechert sobre a primeira fase.

Na ocasião, o banco foi citado como administrador do fundo Radford, que tinha a Usina Itajobi como única cotista. Em setembro daquele ano, o Ministério Público confirmou que o fundo estava sob investigação criminal e tinha ativos bloqueados.

Após a deflagração da operação, a Genial renunciou à administração do fundo e, segundo o CEO, instaurou um processo interno para entender o caso do Radford. Na época, o Gaeco informou que o banco e seus gestores não eram investigados no procedimento.

Agora, na terceira fase da Operação Carbono Oculto deflagrada nesta semana, autoridades afirmam que Humberto Tupinambá, ex-diretor do Genial, e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá, atuaram em coautoria com lideranças do PCC como Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, chamado de "Primo", para desenhar e executar um projeto de aquisição da distribuidora de combustíveis Terrana, uma das maiores do país.

Triangulação financeira

No processo de aquisição, os investigadores identificaram uma triangulação financeira de R$ 100 milhões travada com a participação do banco Genial. No esquema, o fundo de investimentos Radford, que era administrado pelo Genial, aplicou R$ 100 milhões em Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBV) emitidos pelo Banco Genial.

Com o lastro desse CDBV, o Banco Genial concedeu empréstimos via CCB (Cédulas de Crédito Bancário) para duas empresas, a Berna Holdings e a Branson Holdings. A Berna e a Branson utilizaram, então, os recursos "emprestados" pelo Banco Genial para comprar 100% das cotas da distribuidora Terrana.

Para o Ministério Público, o esquema criou uma 'relação circular dissimilatória'. O dinheiro que o Banco Genial emprestou para as empresas de fachada comprarem a distribuidora era, na verdade, o próprio dinheiro da organização criminosa depositado no CDBV do banco.

Humberto Tupinambá entrou na Genial em 2012. Ele foi destituído do cargo de diretor em maio de 2026, após as apurações internas da empresa. "O Humberto é quase sócio fundador da companhia. Entrou logo no começo, para focar na parte de crédito. Antes disso, era diretor do banco Modal. Tinha uma longa carreira no mercado", diz Riechert. Segundo o fundador da Genial, o executivo sempre teve autonomia e a confiança dos sócios para atuar na área de crédito.

As operações eram submetidas à análise de um comitê, mas, segundo Riechert, a avaliação se concentrava no risco de o banco não receber o dinheiro de volta. Os CDBs vinculados, como o da operação envolvendo o fundo Radford, têm risco reduzido por conta das garantias. Por isso, diz, a análise interna do risco de crédito foi mais simples do que seria em um financiamento sem essas garantias.

O banco reconhece, no entanto, que o seu compliance fez um alerta sobre fraudes envolvendo um dos donos da Usina Itajobi, única cotista do fundo Radford. Segundo Riechert, o compliance encontrou um processo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de fraude envolvendo o sócio Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, e levou a informação a um comitê interno. A decisão da Genial, tomada em 2024, foi assumir o fundo mesmo assim.

Riechert diz que, naquele momento, o processo ainda não havia sido julgado e não havia informação de que Freixo pudesse atuar como intermediário de recursos de pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). "O mineiro tinha muitas empresas e uma ótima reputação no mercado financeiro. O processo na CVM acendeu um alerta amarelo, mas decidimos seguir", afirma.

BC multou o Banco Genial e inabilitou seu CEO

Em um processo administrativo distinto, o Banco Central multou o Banco Genial em R$ 21,56 milhões em agosto de 2026. O órgão identificou falhas nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro, na verificação da qualificação de clientes para operações de câmbio e na comunicação de movimentações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

O comitê responsável pelo julgamento também multou André Schwartz, CEO do Banco Genial e um de seus controladores, em R$ 516 mil e decidiu inabilitá-lo por quatro anos para cargos de administração em instituições financeiras.

Riechert contesta a punição do Banco Central. Ele afirma que as operações de câmbio analisadas pelo órgão, realizadas principalmente em 2020 e 2021, envolviam clientes do mercado de criptoativos e que o banco tinha controles compatíveis com as regras aplicáveis naquele período.

"O mercado de criptoativos era um mercado novo. Com o tempo, novas regulações foram sendo criadas. O que acontece é que o BC não pode analisar casos de 2020 e 2021 com as regulações que foram criadas depois", diz Riechert. A Genial está recorrendo para anular as penalidades.

Riechert afirma que em nenhum dos casos houve falha nos controles do grupo, mas que o grupo ficou mais rigoroso após as citações na Operação Carbono Oculto. Hoje o compliance é 10% do nosso efetivo. A gente reforçou essa estrutura, até como precaução para evitar problemas futuros", diz.

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Fonte da Notícia: UOL Economia
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