O presidente Lula falou na ONU por mais de 20 minutos. Foi aplaudido enquanto falava apenas uma vez: no momento em que citou a luta contra o feminicídio e a abertura do mercado de trabalho para que mulheres sejam reconhecidas em sua totalidade. São tempos brutos esses que vivemos.
A luta contra o feminicídio citada pelo presidente é tímida e ineficaz. O papel da mulher no mercado de trabalho segue sendo absolutamente precarizado, com salários menores do que o de homens na mesma função. E, mais grave, o trabalho produtivo foi mais uma vez separado do reprodutivo, que nem citado foi. Para falar de trabalho, temos que começar com o trabalho não remunerado realizado dentro dos lares.
Ainda assim, esse é o presidente que mais fez pelas mulheres brasileiras. Fez quase nada, mas fez alguma coisa. Tempos brutos esses em que temos que apoiar com força a reeleição de um presidente que ainda não sabe do que se trata a luta das mulheres porque, diante dos demais, ele é o único que habita o campo democrático.
Lula, que coloca o feminicídio em pauta na ONU, tem um grupo de conselheiros quase que exclusivamente masculino. Seus chefes de campanha são homens, o dinheiro está nas mãos de homens, aqueles que estão mais perto dele são homens. Lula, que não colocou mulheres no STF dizendo que não cederia à pauta identitária, como se ser homem, branco, cis e heterossexual não fosse identidade. Lula que não sabe falar do trabalho de reprodução, esse que acontece todas as horas de todos os dias dentro dos lares e que está concentrado nas costas das mulheres.
Os aplausos que o presidente ouviu na ONU, no momento em que falou da luta contra o feminicídio, revelam o pulso do debate político. A pauta é gênero. O debate central é o regime binário da diferença sexual.
Ignorar essa realidade é usar as mulheres apenas para se reeleger e depois largar a gente pela rua. O presidente já fez isso uma vez. Não vamos aceitar que faça uma segunda vez.
Estaremos nas ruas para reelegê-lo e, no dia 1 de janeiro de 2027, começaremos a cobrar essa conta. O discurso terá que ser acompanhado de ações. Ministério igualitário no número de homens e de mulheres, STF com 50% de mulheres, conselheiras, letramento feminista, trabalho reprodutivo igualado em importância ao produtivo, fim do endividamento de titularidade feminina, direito ao aborto. Qualquer coisa menos do que isso vai ser uma nova traição a quem, por duas vezes seguidas, o elegeu.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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