É uma ilusão de ótica quando se diz que a Europa não tem limite de estrangeiros para seus clubes. São quatro extracomunitários na maior parte dos países da elite do futebol. São três na Espanha, hoje o limite é de dois na Itália.
Acontece que, por lei, quem tem passaporte da Comunidade Econômica Europeia não é considerado estrangeiro. É assim desde a sentença Bosman, julgada pela Suprema Corte Europeia em 1995. Impressiona que até gente experiente se relacione com a informação como se não houvesse limite de estrangeiros na Europa. Há. Só que quem tem passaporte europeu não ocupa essas vagas. Pela lei, europeu não é estrangeiro em nenhum país da Comunidade Econômica Europeia.
Em 26 de dezembro de 1999, o Chelsea se tornou o primeiro clube do mundo a jogar com 11 estrangeiros: De Goey (Holanda), Ferrer (Espanha), Emerson Thomé (Brasil), Leboeuf (França) e Babayaro (Nigéria); Petrescu (Romênia), Di Matteo (Itália), Deschamps (França) e Poyet (Uruguai); Ambrosetti (Itália) e Tore Andre Flo (Noruega). O técnico era o italiano Gianluca Vialli.
Como juntou uma legião de jogadores de segunda classe misturados a extraclasses como Deschamps e Di Matteo, o Chelsea chegou em quinto lugar naquela edição da Premier League. Dez anos depois, temporada 2009/2010, a Internazionale sagrou-se a única campeã da Champions League com 11 internacionais: Júlio César (Brasil), Maicon (Brasil), Lúcio (Brasil), Samuel (Argentina) e Chivu (Romênia); Cambiasso (Argentina) e Zanetti (Argentina); Eto'o (Camarões), Sneijder (Holanda) e Pandev (Macedônia); Diego Milito (Argentina). O técnico era José Mourinho.
Há três enormes diferenças com o Brasil. Aqui não há legislação que permita extracomunitários, mesmo que joguem por outras seleções nacionais. A segunda é que contratam-se, aqui, os estrangeiros que não servem lá. A terceira, e mais importante, o maior produto do futebol daqui ainda é a seleção brasileira. Não os clubes.
Diferentemente da Inglaterra.
Hoje o Brasil exporta jogadores jovens que não jogam aqui e não conseguem se firmar lá. Os clubes brasileiros os substituem por estrangeiros de meio padrão. Sempre seremos a favor de ídolos como Pedro Rocha, De Arrascaeta, D'Alessandro, Sorín, Gustavo Gómez, Figueroa... O problema é que, para cada ídolo, há um Bilal Brahimi, Braithwaite, Felix Torres, Juan Dinenno, Héctor Hernández, José Martínez, Mancuello, Piris da Motta...
Ponto fundamental é que, atualmente, os jovens brasileiros saem daqui vendidos pela pressa dos empresários e ganância dos clubes. Chegam à Europa e não conseguem jogar, por não estarem ainda maduros. Casos até de Endrick e Estêvão. A qualidade de formação dos jogadores nascidos aqui precisa ficar mais tempo a serviço dos clubes brasileiros.
Sem deixar de contratar estrangeiros. Mas com espaço para desenvolver quem poderá jogar pela seleção brasileira. Sem xenofobia. Com planejamento.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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