O corte de hoje pelo Banco Central de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic) dividiu os economistas do mercado financeiro. Enquanto a maioria das casas de análise prevê que o Copom (Comitê de Política Monetária) manterá a Selic em 13,75% ao ano até o fim de 2026 para proteger o real da alta de juros nos Estados Unidos, a XP, maior corretora do país, aposta na continuidade da flexibilização monetária porque o próprio Banco Central teria reconhecido que o enfraquecimento da atividade econômica está se espalhando pelo Brasil.
O que você precisa saber
A XP Investimentos projeta a continuidade dos cortes de juros, com a Selic recuando até o patamar de 11,50% ao ano. A corretora diz em nota que o BC emitiu uma sinalização mansa (dovish) ao manter inalterada a descrição do cenário externo e reconhecer um enfraquecimento geral da atividade econômica. "Prevemos 13,25% para a taxa Selic em dezembro de 2026, ou seja, mais dois cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões do Copom este ano, e a continuação do ciclo de afrouxamento monetário com a taxa Selic chegando a 11,50% em junho de 2027", projeta a equipe da XP.
O comunicado da Mirae Asset concorda a tese de que o ciclo de cortes não acabou. A economista-chefe da instituição apontou que o Banco Central manteve o plano de voo ao preservar a projeção de inflação para o primeiro trimestre de 2028 em 3,2%, o que sinaliza a continuidade do processo de ajuste. "O comunicado deixa, portanto, as portas abertas para a continuidade do ciclo de corte de juros pelo Banco Central, que serão dependentes da evolução dos dados econômicos", projeta Marianna Costa, da Mirae Asset Brasil.
A descrição no início do comunicado do cenário de atividade local traz uma visão de enfraquecimento mais espalhado na economia. XP Investimentos, em nota
Banco Central deixou aberta porta para seguir cortando juros, diz colunista do UOL. Para José Paulo Kupfer, os termos e o tom do comunicado divulgado logo após o encerramento do Copom sustentaram a colocação de mais fichas em uma extensão do ciclo de cortes para a reunião do início de novembro, exatos dez dias depois do possível segundo turno das eleições presidenciais, e até mesmo para a de dezembro. Em sua coluna, Kupfer aponta que a construção dessa expectativa veio do fato incomum de um comunicado praticamente idêntico ao do Copom anterior, de agosto, quando a decisão também foi por um corte de 0,25 ponto. "A repetição quase idêntica dos textos foi interpretada como um sinal 'silencioso' de que os cortes continuam", escreveu.
Eleições e petróleo
Ao contrário da XP, a maior parte das instituições consultadas pelo UOL projeta interrupção imediata nos cortes. Esses economistas argumentam que o Banco Central cumpriu o corte de juros já esperado, mas endureceu o tom ao indicar o encerramento das quedas devido à "desancoragem" das expectativas e pressões locais. "O corte estava contratado, e para mim ele é o de menos. O que importa é a mensagem, e o recado mais provável é que o ciclo chegou ao fim, ou muito perto disso", diz o presidente-executivo da Gravus Capital, Ricardo Trevisan.
A resistência da inflação de serviços e o mercado de trabalho aquecido devem forçar uma pausa nos cortes. Analistas sustentam que o recuo da inflação se deveu à oferta de alimentos, mantendo os custos do setor de serviços incompatíveis com o centro da meta. "A gente imagina que ele [BC] vá fazer uma pausa até ter mais segurança na convergência da inflação. Portanto, a gente fecharia Selic nesse ano em 13,75% ao ano", diz o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani. "Sem dúvidas, a inflação de serviços, a inflação de demanda tem uma melhora mais lenta do que o ideal. E o ritmo corrente dela está incompatível com o centro da meta", reforça o economista-chefe da Fórum Investimentos, Bruno Perri.
O descompasso entre a política monetária brasileira e a das grandes potências globais reduz a atratividade financeira do real. O aperto monetário mundial —com o banco central americano subindo taxas e o preço do petróleo pressionado acima de US$ 100— reduz o ganho diferencial de taxas entre os países, enfraquecendo a moeda brasileira. "Cortar juros enquanto o mundo sobe estreita o diferencial e deixa o real mais vulnerável, e o Banco Central sabe disso", diz Trevisan.
O período de incerteza política e a indefinição sobre o ajuste fiscal travam decisões mais ousadas do Banco Central. Os economistas alertam que o colegiado não assumirá compromissos de queda a longo prazo sem antes conhecer o plano econômico e fiscal das próximas reuniões que ocorrerão após as eleições. "Não faz sentido o Banco Central se comprometer com qualquer trajetória antes de saber qual será a política fiscal dos próximos quatro anos", defende Trevisan. "Soma-se a isso a persistência das incertezas relacionadas ao ciclo eleitoral no curto prazo", complementa o gerente de portfólio do Banco Sofisa, Rafael Pastorello.
O juro real brasileiro permanece em patamares alarmantes e segue punindo o setor produtivo e os investimentos. Mesmo com a redução da taxa nominal para 13,75%, o rendimento descontado da inflação prevista continua próximo de 9%, asfixiando o crédito corporativo. "Isso segue pesando sobre a atividade, sobre o crédito e sobre empresas endividadas, e explica por que o crédito corporativo está sob estresse", conclui Trevisan.
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