O ex-presidente afastado da Apex Partners, Fernando Cinelli, contestou na Justiça o pedido de recuperação judicial do grupo econômico e pediu o adiamento do processo até que supostas falhas societárias e documentais sejam resolvidas. O executivo, que detém 31,8% da ABM Partnership (principal controladora da Apex) e R$ 144,4 milhões patrimônio pessoal colocados como garantia, afirmou que sua participação nas deliberações societárias foi ignorada pela administração do conglomerado.
O que você precisa saber
A exclusão dos acionistas da votação sobre a recuperação judicial violaria as regras de governança corporativa. Os advogados de Cinelli argumentaram que o grupo teve prazo suficiente para debater o assunto com os sócios, mas preferiu omitir o tema das convocações oficiais. "Este Juízo deferiu a tutela cautelar antecedente em 7 de agosto de 2026 e as requerentes protocolaram o aditamento trinta e oito dias depois, intervalo em que convocaram e realizaram assembleia geral extraordinária, com edital publicado em 28 de agosto de 2026 e nove itens de pauta, sem incluir a autorização para o pedido de recuperação judicial", afirmam os defensores na petição protocolada na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória (ES).
A falta de documentos obrigatórios e a ausência de transparência foram apontadas como entraves ao andamento da ação. A defesa do executivo alertou o juízo que a própria perícia inicial já havia identificado omissões graves na prestação de informações por parte das empresas devedoras. "A administradora judicial já registrara quadro semelhante em 19 de agosto de 2026, ao relacionar vinte categorias de documentos não disponibilizados, consignar a ausência de quaisquer documentos societários de 123 das 148 sociedades requerentes e registrar que as requerentes cancelaram a visita técnica programada para 17 de agosto", diz o documento apresentado à Justiça.
O patrimônio de investidores terceiros teria sido incluído indevidamente no processo de renegociação das dívidas do grupo. A manifestação contesta a inserção direta de dezenas de veículos de investimento imobiliário e sociedades empresariais que reúnem recursos alheios, como a BRM Apex Inv RE Vizzo Participações Ltda e a Apex Log Pitanga Empreendimento Imobiliário SPE Ltda. "A manifestação não traduz resistência à recuperação das empresas, mas preocupação legítima com a adoção de uma solução juridicamente adequada, economicamente responsável e capaz de proteger todos os interesses envolvidos", afirma Cinelli em nota oficial.
A tentativa de conciliação prévia entre as partes foi formalizada como caminho para evitar prejuízos a 148 sociedades. O ex-executivo defende a realização de uma mediação antes de qualquer decisão que oficialize a recuperação judicial.
O UOL procurou a Apex Partners, e aguarda posicionamento.
O pedido de recuperação judicial
O pedido de recuperação judicial foi protocolado na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. O pedido ocorreu no limite do prazo estipulado pela Justiça para que a empresa definisse sua situação financeira e tentasse uma reestruturação.
A Apex Partners informou que a medida busca garantir a preservação de seus ativos. Em nota oficial, a empresa afirmou que "apresentou, nesta segunda-feira (14), pedido de recuperação judicial da empresa, que agora será submetido à análise da Justiça".
A plataforma garantiu que continuará funcionando durante o processo judicial. "O grupo segue operando de forma a garantir a continuidade das suas atividades, preservando os projetos dos quais participa. A Apex Partners reforça seu compromisso com a verdade, a transparência e o respeito aos seus investidores, colaboradores, parceiros e credores", completou a companhia.
O colapso da gestora começou com uma operação agressiva envolvendo ações da operadora de turismo CVC Corp. A Apex comprou mais de 15% das ações da CVC entre 2025 e 2026 em uma estratégia batizada pelo mercado de "Master Capixaba".
A plataforma usou recursos de clientes e fundos de terceiros para financiar a compra. Em vez de aplicar capital próprio, a gestora canalizou dinheiro de um ecossistema de investimentos sob sua gestão avaliado em R$ 17,5 bilhões.
Para atrair investidores, a Apex prometeu retorno garantido e risco zero em renda variável. A empresa assegurou aos clientes que eles ficariam com os lucros se as ações subissem, mas receberiam pelo menos 100% do CDI se os papéis caíssem ou ficassem estagnados.
As ações da CVC despencaram mais de 30% em 2026, inviabilizando a promessa. Para cobrir a diferença de rendimento prometida aos clientes, a Apex teve de tirar dinheiro do próprio caixa, gerando um rombo milionário.
A dívida bruta total da gestora saltou para R$ 985,6 milhões. Deste montante preliminar, R$ 309,8 milhões correspondem ao mecanismo de compensação de rendimento oferecido a 1.600 contratos de clientes.
O escândalo provocou o calote de parceiros comerciais e o congelamento de fundos. O Grupo Gazin não recebeu uma parcela de R$ 7,9 milhões, enquanto o banco BTG Pactual rompeu a parceria de distribuição e suspendeu os saques de um fundo de R$ 160,5 milhões da gestora.
Ex-presidente foi afastado
Cinelli, e o ex-diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados em agosto. Uma auditoria interna iniciada pelos próprios sócios identificou "inconsistências financeiras", acusando a dupla de gestão temerária e má-fé.
A Justiça determinou o bloqueio total dos bens de Cinelli e a quebra de seu sigilo bancário. A decisão atendeu a um pedido da própria Apex, que identificou transferências suspeitas que somam mais de R$ 23 milhões para as contas pessoais do executivo.
O juiz Marcos Pereira Sanches apontou indícios de desvio e risco de perda de patrimônio. O magistrado destacou transações iniciais sem justificativa jurídica de R$ 5 milhões de contas de uma empresa do grupo para a conta pessoal do ex-presidente.
A defesa de Cinelli declarou que o empresário está comprometido em colaborar com as investigações. Em nota, informou que ele busca demonstrar sua idoneidade e que já acionou a Justiça para obter documentos internos e provar que não tomava decisões sozinho.
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