A plataforma de investimentos capixaba Apex Partners entrou com um pedido de recuperação judicial na Justiça do Espírito Santo após acumular uma dívida preliminar de R$ 985,6 milhões e afastar seu antigo presidente por suspeita de desvios.
O que aconteceu
A solicitação foi feita na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. O pedido ocorreu no limite do prazo estipulado pela Justiça para que a empresa definisse sua situação financeira e tentasse uma reestruturação.
A Apex Partners informou que a medida busca garantir a preservação de seus ativos. Em nota oficial, a empresa afirmou que "apresentou, nesta segunda-feira (14), pedido de recuperação judicial da empresa, que agora será submetido à análise da Justiça".
A plataforma garantiu que continuará funcionando durante o processo judicial. "O grupo segue operando de forma a garantir a continuidade das suas atividades, preservando os projetos dos quais participa. A Apex Partners reforça seu compromisso com a verdade, a transparência e o respeito aos seus investidores, colaboradores, parceiros e credores", completou a companhia.
O colapso da gestora começou com uma operação agressiva envolvendo ações da operadora de turismo CVC Corp. A Apex comprou mais de 15% das ações da CVC entre 2025 e 2026 em uma estratégia batizada pelo mercado de "Master Capixaba".
A plataforma usou recursos de clientes e fundos de terceiros para financiar a compra. Em vez de aplicar capital próprio, a gestora canalizou dinheiro de um ecossistema de investimentos sob sua gestão avaliado em R$ 17,5 bilhões.
Para atrair investidores, a Apex prometeu retorno garantido e risco zero em renda variável. A empresa assegurou aos clientes que eles ficariam com os lucros se as ações subissem, mas receberiam pelo menos 100% do CDI se os papéis caíssem ou ficassem estagnados.
As ações da CVC despencaram mais de 30% em 2026, inviabilizando a promessa. Para cobrir a diferença de rendimento prometida aos clientes, a Apex teve de tirar dinheiro do próprio caixa, gerando um rombo milionário.
A dívida bruta total da gestora saltou para R$ 985,6 milhões. Deste montante preliminar, R$ 309,8 milhões correspondem ao mecanismo de compensação de rendimento oferecido a 1.600 contratos de clientes.
O escândalo provocou o calote de parceiros comerciais e o congelamento de fundos. O Grupo Gazin não recebeu uma parcela de R$ 7,9 milhões, enquanto o banco BTG Pactual rompeu a parceria de distribuição e suspendeu os saques de um fundo de R$ 160,5 milhões da gestora.
Ex-presidente foi afastado
O fundador da Apex, Fernando Cinelli, e o ex-diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados em agosto. Uma auditoria interna iniciada pelos próprios sócios identificou "inconsistências financeiras", acusando a dupla de gestão temerária e má-fé.
A Justiça determinou o bloqueio total dos bens de Cinelli e a quebra de seu sigilo bancário. A decisão atendeu a um pedido da própria Apex, que identificou transferências suspeitas que somam mais de R$ 23 milhões para as contas pessoais do executivo.
O juiz Marcos Pereira Sanches apontou indícios de desvio e risco de perda de patrimônio. O magistrado destacou transações iniciais sem justificativa jurídica de R$ 5 milhões de contas de uma empresa do grupo para a conta pessoal do ex-presidente.
A defesa de Cinelli declarou que o empresário está comprometido em colaborar com as investigações. Em nota, informou que ele busca demonstrar sua idoneidade e que já acionou a Justiça para obter documentos internos e provar que não tomava decisões sozinho.
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