Não é que as gráficas que imprimem santinhos e adesivos tenham virado definitivamente coisa do passado. Mas os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apurados até as 18h de sexta-feira (11), sobre os fornecedores que mais receberam dos candidatos mostram que empresas ligadas a estratégias digitais e ao mundo audiovisual são as que mais faturam com as eleições. Bancas de advocacia e companhias de táxi aéreo também aparecem na lista dos 20 que mais receberam.
No total, R$ 1 bilhão já foi declarado por candidatos e partidos até agora ao TSE como gasto com fornecedores de campanha. O primeiro lugar entre os fornecedores, assim como ocorreu durante toda a campanha de 2022, pertence ao Facebook. A plataforma já recebeu R$ 46,5 milhões de candidatos e partidos, ou 5% do total. Procurada, a empresa não retornou para comentar o assunto.
Os números podem mudar até o fim do pleito, mas, por ora, os candidatos Célio Studart (deputado federal pelo PSD que concorre à reeleição no Ceará), Pedro Rousseff (sobrinho-neto da ex-presidente Dilma, candidato a deputado federal pelo PT de Minas Gerais), Alexandre Khury (candidato ao Senado do Republicanos pelo Paraná), Delegado Bruno Lima (candidato à reeleição como deputado federal pelo Podemos de São Paulo) e Guilherme Derrite (candidato ao Senado pelo PP em São Paulo) foram os que mais gastaram com a plataforma da Meta. Os valores variam de R$ 765 mil a R$ 520 mil.
"Comunicação e pessoal sempre foram os maiores gastos. Agora, nesta campanha, há uma mudança de rubrica dentro da comunicação, que passa do papel, jornal, adesivo, para o impulsionamento dos mesmos materiais, porém digitais", afirma o cientista político Emerson Urizzi Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do impacto dos recursos financeiros em resultados eleitorais em democracias.
Nova era digital
A lista dos fornecedores que mais receberam recursos até agora na campanha de 2026 apresenta uma série de empresas abertas nos últimos anos, que visam exatamente entregar pacotes de serviços abrangentes para os candidatos tanto ao Executivo como ao Legislativo. A ligacão entre estratégia, comunicação, tecnologia e análise de grandes quantidades de dados é cada vez mais umbilical.
Entre elas está a Epos Brasil Estratégia, Comunicação e Tecnologia, aberta em junho de 2024, que oferece ações voltadas para comunicação, tecnologia, dados e notícias. A empresa, até sexta-feira, recebeu R$ 10 milhões da candidatura do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) para a produção de programas de televisão, rádio e vídeo e outros R$ 10 milhões para o pagamento de terceiros.
A Aurea Tecnologia e Soluções também entra neste grupo. Criada como uma startup em outubro de 2024, a empresa é a responsável técnica pela criação de um canal digital 24 horas para a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). O serviço, de acordo com os dados do TSE, movimentou R$ 3,7 milhões.
"Importante considerar que, proporcionalmente, a diferença na atual campanha é ainda maior em relação a 2022, pois temos mais gastos agora com menos candidatos. Houve uma redução de cerca de 1/4 de candidatos em 2026 em relação a 2022. Então, menos candidatos estão gastando mais, o que implica em um aumento ainda maior por candidato em serviços digitais", afirma Cervi, pesquisador da UFPR.
Os valores investidos pelas campanhas no impulsionamento digital, segundo o cientista político, são principalmente voltados para a visibilidade pública dos candidatos. "O objetivo é aparecer, não necessariamente gerar melhores condições de vitória", afirma Cervi.
Com a sofisticação do mundo digital, as produtoras de audiovisual também aparecem com destaque entre os fornecedores mais contratados até o início do mês pelos candidatos. Entre os TOP 10 estão nomes como o da Paranoa Digital Produção Cinematográfica, de Vídeos e Programas, a Pia Filmes e a D. P. Malachias - Filmes.
A primeira da lista recebeu R$ 5,03 milhões da campanha de Flávio Bolsonaro. A Pia Filmes foi contratada por R$ 4,3 milhões pela campanha nacional do PP para produção de programas de rádio, televisão e vídeo, enquanto a D. P. Malachias atende à candidatura de Tarcísio de Freitas por R$ 3,8 milhões. Os valores variam dia a dia. Nem todas as campanhas prestam contas com a mesma frequência, porque as regras de controle preveem que os dados podem ser transmitidos por etapas ao TSE.
Aviões e legalidade
Escritórios de advocacia e empresas de táxi aéreo também estão entre as que mais prestam serviços para as candidaturas. A Alljet Táxi Aéreo, que opera a partir do aeroporto de Jundiaí (SP), já recebeu R$ 2,25 milhões da campanha de Flávio Bolsonaro.
"Os serviços prestados pela ALLJET, empresa de táxi aéreo, estão devidamente amparados por contrato, em conformidade com a legislação vigente e inseridos na prestação de contas à Justiça Eleitoral", informou a empresa por meio de nota ao UOL. O grupo aparece na 17ª posição da lista.
No setor dos escritórios de advocacia estão listados pelo TSE o Malheiros, Penteado e Toledo Advogados, na 14ª primeira posição, e o Bucchianeri Advocacia, na 17ª. Enquanto a primeira banca foi contratada pelas campanhas dos candidatos Tarcísio de Freitas (R$ 3 milhões) e Ronaldo Caiado (R$ 500 mil), a segunda fechou um contrato de R$ 3,15 milhões com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
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