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UOL há 49 d • Sex, 11 Set 2026 06:09:33 -0300

11 de Setembro e a Guerra ao Terror: o início do declínio da superpotência americana

Assim como os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki ou a queda do Muro de Berlim, os atentados de 11 de setembro de 2001 fazem parte da memória coletiva contemporânea. No entanto, tanto para a diplomacia americana quanto para a visão que o resto do mundo tem do país, os ataques marcaram uma ruptura sem precedentes.

Anne Bernas, da RFI em Paris

Na manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova York, dois aviões comerciais colidiram com as Torres Gêmeas do World Trade Center. Uma terceira aeronave atingiu o Pentágono. Uma quarta, que provavelmente tinha como alvo o Capitólio, caiu na zona rural da Pensilvânia. O saldo do atentado, executado por terroristas da Al-Qaeda, foi o mais sangrento da história: : 2.977 mortos e 6.000 feridos em apenas duas horas. O mundo inteiro ficou em choque.

Até mesmo no Irã, durante as tradicionais orações de sexta-feira, as autoridades proibiram os fiéis de entoar os habituais slogans antiamericanos ao final do culto, conforme relatou a CNN na época.

A reação de Washington transformou os atentados em um episódio decisivo no curso da história. O 11 de Setembro de 2001 marcou uma virada nas relações internacionais e na política externa dos Estados Unidos, que teve como vítima colateral o multilateralismo. Nos anos seguintes, o unilateralismo se tornaria a via preferencial para Washington.

A administração Bush optou por perseguir os responsáveis pelos atentados, a qualquer custo. O conceito de "guerra ao terror" norteou a política externa e de segurança dos Estados Unidos: o presidente americano da época, George W. Bush, definiu um "eixo do mal" (Iraque, Irã e Coreia do Norte) a ser combatido e ampliou o escopo do conceito de "guerra preventiva".

Os múltiplos desvios da Guerra ao Terror

Já em outubro de 2001, Bush iniciou sua primeira guerra do pós-11 de Setembro contra os talibãs no Afeganistão, país onde vivia, na época, Osama bin Laden. O conflito durou 20 anos e terminou com um fracasso retumbante dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais.

Em seguida, o Iraque foi atacado em 2003, sem o aval das Nações Unidas e com base em uma mentira: a existência de um suposto arsenal de armas de destruição em massa. O país mergulhou em uma guerra civil. Washington ajudou a instalar um governo xiita em Bagdá, provocando a continuidade política e territorial xiita do Irã ao sul do Líbano, passando pelo Iraque e a Síria.

Um estudo realizado em 2023 na Universidade Brown, em Providence (EUA), intitulado "The Costs of War Project" (Projeto Custos da Guerra, em tradução livre), estima que mais de 930 mil pessoas foram mortas pela violência direta da guerra ocorrida após o 11 de Setembro no Iraque, no Afeganistão, na Síria, no Iêmen e no Paquistão, entre 2001 e 2023. Dessas, 432 mil eram civis.

Ataques iniciaram período de insegurança no mundo

Nesta sexta-feira (11), os 25 anos dos atentados estão na capa dos principais jornais franceses. Le Figaro observa que os ataques encerraram o período de otimismo que marcou os anos posteriores ao fim da Guerra Fria e inauguraram um século XXI dominado pela insegurança, pelos conflitos e pela polarização.

A Guerra ao Terror consumiu recursos gigantescos, provocou milhares de mortes e teve resultados decepcionantes. Para o jornal, a invasão do Iraque é o exemplo mais evidente de erro estratégico, ao fortalecer a influência do Irã na região e contribuir para a ascensão posterior do grupo Estado Islâmico.

Paralelamente ao dramático saldo de vidas perdidas, muitas liberdades foram postas em xeque. No final de outubro de 2001, o Congresso americano aprovou o "Patriot Act" com o objetivo de conceder a Washington, internamente, ampla margem de manobra para "combater o terrorismo".

O texto amplia os poderes de vigilância e investigação das autoridades, endurece as regras de imigração e as condições de detenção de certos estrangeiros. Também vem acompanhado de um conjunto de atos jurídicos e memorandos internos que facilitam o recurso a assassinatos seletivos e à tortura. O Estado de Direito retrocede no próprio coração do Ocidente.

O jornal Libération chama atenção para uma questão que permanece sem solução: Khalid Sheikh Mohammed, apontado pela CIA como um dos principais mentores da operação que matou quase 3 mil pessoas, ainda não foi julgado de forma definitiva. Para o jornal, esse impasse revela as contradições da resposta americana ao terrorismo, que continua a dificultar o encerramento de processos considerados centrais para a memória do 11 de Setembro.

"O sistema judicial dos Estados Unidos ficou preso em suas próprias reviravoltas, contradições e becos sem saída legais", escreve o diário. O Libération atribui parte dessa situação à decisão do governo americano de autorizar práticas de tortura nos interrogatórios conduzidos pela CIA após os atentados. Em entrevista ao jornal, a advogada da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), Clémence Bectarte, lembra que, segundo o direito internacional, confissões obtidas por meio de tortura não têm validade jurídica.

Unilateralismo agressivo e crise de credibilidade

Para Maud Quessard, diretora da área de Espaço Euro-Atlântico no Instituto de Pesquisa Estratégica Militar (Irsem) e especialista em política externa americana, as guerras intermináveis e malsucedidas enfraqueceram e fragilizaram os Estados Unidos, não apenas em termos de imagem externa, mas também devido aos custos internos.

"Iniciou-se um período marcado por um unilateralismo agressivo e messiânico, visando promover a 'mudança de regime' e percebido como uma cruzada ocidental. Mantém-se a ideia de ser impulsionado por valores universais, porém de forma agressiva, mediante o uso da força militar", apontou. "O 11 de Setembro escancarou o fato de que nem todos consideram os Estados Unidos o modelo a ser seguido."

A mudança de narrativa desenvolve-se com os sucessores do presidente Bush - Barack Obama e, principalmente, Donald Trump -, que passam a exibir uma nova prioridade: "America First", ou "América em primeiro lugar". Entre 2017 e 2021, a doutrina Trump rompeu de forma clara com a de George W. Bush.

"Os trumpistas, o movimento MAGA, têm toda essa história em mente e pensam que é preciso abandonar qualquer ideia de querer disseminar a democracia que, aliás, talvez nem seja um modelo tão bom assim, para eles", aponta Maud Quessard. "Esse precedente traz, portanto, uma dupla lição: não devemos nos iludir achando que vamos mudar o mundo, especialmente ao impor um modelo do qual nós mesmos não temos total certeza, e não estamos mais verdadeiramente em sintonia com nossos aliados ou com nossos antecessores quanto aos valores universais que queremos promover no exterior."

Fim do 'século americano'

A confiança nas instituições, na mídia e na classe política foi abalada, favorecendo a disseminação de teorias conspiratórias e o crescimento do populismo. Esse ambiente abriu caminho para a ascensão de Donald Trump e para o retorno de tendências isolacionistas que pareciam superadas na política americana.

Enquanto os Estados Unidos concentravam sua atenção no Oriente Médio, a China ampliou silenciosamente seu poder militar e se consolidou como o principal rival estratégico de Washington.

Para muitos analistas, o 11 de Setembro marcou o "fim do século americano". Maud Quessard discorda da data, que para ela, é a da chegada de Trump e, principalmente, a partir do seu segundo mandato.

"Os Estados Unidos permaneceram como a potência de referência em termos econômicos, comerciais e militares de 2001 a 2026. Talvez isso não ocorra da mesma forma na leitura que faremos do período que se inicia e que sucederá a era Trump."

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