Todo slam é a mesma história. Basta um dia mais longo, uma partida mais comprida, e o assunto volta à tona: por que os jogos de tênis são tão longos? Por que não dar um fim às partidas de cinco sets? Duelos mais curtos não trariam um público mais jovem para a modalidade? Não atrairiam mais pessoas? O que aconteceria se os slams masculinos fossem jogados em melhor de três? No último episódio do Café Com o Cossenza, meu podcast diário, um apoiador perguntou até se não seria o caso de usar o no-ad (games sem vantagem) ou o match tie-break (substituindo o set decisivo) também nos jogos de simples.
Há vários pontos interessantes a fazer sobre essa questão. O primeiro deles, que raramente e citado, é o seguinte: a grande maioria dos jogos do circuito masculino tem menos de duas horas de duração. Ou seja, durante a maior parte do calendário da modalidade, o tempo não é um problema. Essa questão só sai da tumba nos slams, que são jogados em melhor de cinco sets. São quatro eventos anuais. São, sim, os torneios mais importantes, mas não podem ser considerados os únicos responsáveis por fazer alguém gostar ou não de uma modalidade. Ainda assim, os jogos de cinco sets também são minoria nos slams. Neste US Open, foram cerca de 20% (um número até alto para um slam).
No-ad e match tie-break foram adotados nas duplas alguns anos atrás. Medidas que reduziram, sim, o tempo das partidas. No entanto, alcançaram o quê? A modalidade ganhou mais destaque? Os simplistas voltaram a jogar duplas com frequência? Não e não. Pelo contrário. Hoje, depois dessa experiência inútil, a própria ATP fala em reduzir ainda mais as duplas. Perderam a esperança no produto. A duração menor pouco ajudou.
No vídeo acima, um trecho do Café Com o Cossenza de hoje, falo sobre como o "Papinho Piqué" (a teoria de que o público hoje não quer passar muito tempo vendo nada) é fácil de derrubar. Procurem no YouTube streams de gamers e verão transmissões de 10h, 12h, com milhões de visualizações. Gamers! Jovens de 15-20-25 anos!
Também cito no vídeo como o golfe e a NFL, por motivos diferentes, têm seu sucesso com transmissões longas (mas bem amparadas por informações, recursos visuais e bons comentários).
Por fim, deixo a questão aos fãs de tênis: em suas listas de 10 melhores jogos vistos na vida, quantos deles têm menos de 2h de duração? Menos de 3h, talvez? Digam nos comentários!
- É ruim um jogo terminar depois das 3h da manhã, como aconteceu com o excelente Shelton x Alcaraz? Claro que é ruim! É péssimo para os jogadores, para o público, para os funcionários, para os detentores de direitos, etc. Mas será culpa do formato? Dos cinco sets?
- Quantos jogos terminam de madrugada em Roland Garros, onde a sessão noturna só tem uma partida? Pouquíssimos. E em Wimbledon, onde não há sessão noturna? Nenhum. Wimbledon, lembremos, tem um toque de recolher que obriga o torneio a interromper as partidas às 23h, mas são raríssimas as ocasiões em que esse tipo de interrupção se faz necessária.
- Logo, não me parece que a culpa é dos cinco sets. Com uma programação um pouco mais inteligente (e menos gananciosa, talvez?), dá para fazer as coisas bem, sem colocar tenistas, funcionários e espectadores madrugada adentro. Eleger os cinco sets como únicos vilões é emburrecer a conversa.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.
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