Um porta-aviões americano, com caças voando em formação: a demonstração de força é a carta na qual os EUA apostam para buscar concessões iranianas, que, por sua vez, se mantém firme no bloqueio de importantes vias marítimas (Marinha dos EUA/AFP)
Publicado em 28 de julho de 2026 às 06h01.
Nos últimos dias, os Estados Unidos e o Irã voltaram a alternar entre episódios de confronto militar e tentativas de negociação, em uma dinâmica que parece ser contraintuitiva tanto para o alcance de objetivos militares quanto para o de objetivos diplomáticos.
Para Emily Harding, analista do think tank Centre for Strategic and International Studies (CSIS), ambos os países utilizam a pressão militar e as conversas como instrumentos complementares para defender seus interesses.
Em vez de representar o fracasso das negociações, explica a autora em um comentário pela entidade, a continuidade dos ataques pode ser interpretada como parte do próprio processo de barganha entre Washington e Teerã. Nessa lógica, demonstrações de força servem para reforçar posições e ampliar o poder de negociação antes de eventuais concessões diplomáticas.
Na prática, episódios como ataques iranianos a embarcações comerciais, ofensivas americanas contra instalações portuárias e lançamentos de mísseis contra países do Golfo, como Kuwait e Catar, são vistos como mensagens políticas transmitidas por meio da força. Ao mesmo tempo, os canais diplomáticos permanecem abertos para buscar uma solução negociada, já que o conflito ainda é desgastante para ambos os lados.
Esse modelo contrasta com o formato tradicional de negociações internacionais, em que as partes buscam primeiro estabelecer um cessar-fogo para, somente depois, discutir um acordo permanente, explica Harding.
Em diversos conflitos, porém, meses acabam sendo consumidos por debates sobre condições preliminares e regras do próprio processo de negociação.
O presidente dos EUA, Donald Trump. Ambos os lados possuem razões tanto para buscar um fim diplomático quanto para almejar seus interesses militares (SAUL LOEB / AFP/AFP)
Harding destaca ainda que, muitas vezes, nenhum dos lados possui incentivos imediatos para aceitar uma trégua. Quem obtém vantagem no campo de batalha procura manter o impulso militar, enquanto a parte em desvantagem aposta na continuidade dos combates para tentar alcançar uma posição mais favorável antes de negociar. Mesmo quando um cessar-fogo é firmado, o acordo permanece vulnerável à atuação de grupos dissidentes — neste caso, tanto à ofensiva de Israel no Líbano quanto às atividades de proxies iranianos no Golfo —, a intervenções externas ou a falhas de comunicação capazes de reacender os confrontos.
Dessa forma, a avaliação do CSIS é que negociar enquanto os combates continuam pode tornar o processo menos suscetível a interrupções inesperadas. Assim, os Estados Unidos e o Irã adotam essa estratégia por razões pragmáticas: o presidente Donald Trump afirma que qualquer ameaça iraniana à navegação será respondida com força esmagadora, buscando demonstrar superioridade militar e pressionar Teerã a aceitar condições mais favoráveis nas negociações.
O governo iraniano, por sua vez, busca evidenciar sua capacidade de interromper o tráfego no Estreito de Ormuz e até mesmo no Mar Vermelho por meio de seus proxies houthis no Iêmen, duas das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo. Ao reforçar esse poder de pressão, Teerã tenta aumentar seu peso nas negociações e conquistar termos considerados mais vantajosos para seus interesses.
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Harding também observa que o Irã construiu, ao longo das últimas décadas, a reputação de negociador paciente e resistente a pressões externas. A liderança iraniana costuma apostar na capacidade de suportar longos períodos de tensão, mesmo diante de sanções econômicas e de dificuldades internas, enquanto espera que os adversários percam disposição para manter operações por períodos prolongados.
Apesar da lógica, a combinação entre negociações e confrontos militares acarreta riscos. Além das vítimas civis causadas pelos ataques, cada novo episódio amplia a instabilidade nos mercados internacionais, especialmente diante da importância do Golfo Pérsico para o comércio global de energia. Harding alerta, ainda, que erros de cálculo podem agravar a crise. Washington pode subestimar a capacidade de resistência do Irã, enquanto Teerã corre o risco de provocar uma resposta militar americana muito mais severa, incluindo ataques contra infraestrutura estratégica e instalações ligadas ao setor petrolífero.
Ainda assim, a autora avalia que ambos os governos possuem incentivos para evitar uma escalada abrupta, mantendo o diálogo diplomático mesmo em meio às hostilidades, na tentativa de alcançar uma solução duradoura para o conflito.
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