Por insistência do filho, Marco Lisboa, 52, foi conhecer uma pastelaria de bairro no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, e se interessou pelo produto: pastéis de 30 cm, que, segundo ele, tinham massa crocante e recheio distribuído de ponta a ponta. Lisboa propôs sociedade aos donos do estabelecimento, Pedro Francisco, 31, e Pedro Afonso, 31, mas, em vez de franquear o negócio existente, os três criaram uma nova marca e reformularam a operação.
Assim nasceu o Pastel do Bairro, que abriu sua unidade piloto em maio deste ano e agora começa a buscar franqueados. A meta dos sócios é inaugurar cinco franquias até o fim de 2026. Especialista ouvido pelo UOL, porém, alerta que modelos novos precisam de tempo para comprovar sua viabilidade econômica antes de uma expansão mais acelerada.
De pastelaria de bairro a nova marca
A história começou com a Família Panda, aberta em 2020 no Jardim Ângela. Pedro Francisco, conhecido como Panda, e Pedro Afonso investiram cerca de R$ 6.000 no negócio. O cardápio tinha 30 sabores de pastéis, todos com 30 cm.
Marco Lisboa conheceu a pastelaria em 2025. "Meu filho [Matheus] joga bola aos domingos no bairro e sempre me falava da tal pastelaria que vendia pastéis crocantes, bem recheados e sem pingar uma gota de óleo. Um dia, fui lá conhecer e me impressionei com a qualidade do produto. Estudei o negócio e propus sociedade com eles, a fim de formatar a operação para franquia. O pastel é um produto altamente escalável e franqueável, caso seja profissionalizado e padronizado", declara Lisboa.
Lisboa já atua há mais de 20 anos com empreendedorismo e franquias. Ele também é dono da 3,2,1 GO!, 365 Fun Fest e Legale Vistos. A sociedade com Pedro Francisco e Pedro Afonso não transformou a Família Panda em franquia: os três decidiram criar uma marca diferente para desenvolver o novo modelo.
O Pastel do Bairro foi criado em abril deste ano. A unidade piloto abriu no mês seguinte na Chácara Santo Antônio, zona sul de São Paulo. A Família Panda continua funcionando no Jardim Ângela, mas não integra a nova rede.
A nova operação recebeu investimento de R$ 500 mil. A loja piloto ganhou decoração retrô inspirada nas décadas de 1940 e 1950, atendentes usando boinas, pastéis servidos em tábuas de madeira e totens digitais de atendimento.
Cardápio ficou menor
Uma das mudanças foi reduzir o cardápio de 30 para 11 sabores. Entre os mantidos está o pastel de costelinha de porco com molho barbecue e queijo, criado por Pedro Francisco. Há ainda opções tradicionais, como queijo, pizza, frango com Catupiry e portuguesa.
Pastel de 30 cm continuou como uma das características do negócio. Segundo Lisboa, a ideia surgiu ainda na Família Panda. "Isso é um diferencial, principalmente em relação aos pastéis de feira tradicionais que são muito 'pastéis de vento', com recheio apenas no meio e muita massa vazia. Para o cardápio das franquias, estabelecemos duas opções de tamanhos: os 'superpastéis' de 20 cm e de 30 cm", afirma.
Os salgados custam de R$ 19 a R$ 26 no tamanho de 20 cm e de R$ 23 a R$ 38 no de 30 cm. Os pastéis doces são vendidos apenas no tamanho menor e custam, em média, R$ 25. A montagem e a fritura são feitas na cozinha da loja, enquanto a massa é comprada de fornecedores.
Rede estabeleceu o uso de óleo de algodão na fritura. Segundo Lisboa, a escolha tem como objetivo deixar o produto menos gorduroso. O uso do ingrediente faz parte da padronização prevista para as futuras franquias.
Modelo também aposta em delivery e retirada na loja. Segundo a empresa, foram desenvolvidas embalagens térmicas para tentar preservar temperatura e crocância durante o transporte. "São embalagens grandes e térmicas que vêm com um picote centralizado. Isso permite que o cliente divida o pastel de 30 cm perfeitamente ao meio para comer ou compartilhar", afirma Lisboa.
Franquia custa a partir de R$ 50 mil
Rede pretende trabalhar com dois formatos de franquia. O modelo dark kitchen, voltado apenas a entregas, exige investimento inicial a partir de R$ 50 mil. Já a loja de rua, com atendimento presencial, parte de R$ 150 mil.
Empresa projeta faturamento mensal de R$ 30 mil a R$ 50 mil para a dark kitchen. Para a loja de rua, a previsão é de R$ 50 mil por mês. O prazo estimado pela rede para retorno do investimento é de 18 meses nos dois modelos.
A meta é abrir cinco franquias até o final do ano. A primeira etapa de expansão será concentrada no estado de São Paulo.
Marca nova já está pronta para ser franqueada?
Consultor recomenda cautela antes de investir em uma franquia ainda recente. Eduardo Mercadante, consultor de negócios do Sebrae-SP, afirma que o candidato precisa avaliar não apenas o produto, mas a viabilidade econômica do modelo que efetivamente será replicado. "Todo negócio de franquia deve ser analisado sob a luz do franchising. A lei exige que a COF [Circular de Oferta de Franquia] traga, por exemplo, balanços e demonstrações financeiras da empresa franqueadora relativos aos dois últimos anos. Isso é obrigatório", afirma.
O que é a COF? A Circular de Oferta de Franquia reúne informações sobre custos, regras, obrigações, histórico da empresa e dados financeiros que devem ser apresentados ao candidato antes da assinatura do contrato. Pela Lei de Franquias, o documento deve ser entregue com pelo menos dez dias de antecedência da assinatura do contrato ou pré-contrato ou do pagamento de taxas.
A COF é muito séria e deve ser levada a sério. Antes de assinar qualquer contrato de compra de uma franquia, ela deve ser lida e estudada com atenção.Eduardo Mercadante, consultor de negócios do Sebrae-SP
Empresa nova não tem dois exercícios financeiros completos para apresentar. A ABF (Associação Brasileira de Franchising) afirma que, quando a franqueadora foi recém-constituída, a COF deve deixar essa condição explícita para o candidato.
A transparência e a boa-fé são princípios centrais da Lei de Franquias e permitem que o candidato avalie adequadamente o estágio de desenvolvimento do negócio e os riscos inerentes ao investimento. Trata-se, portanto, de uma situação decorrente da própria fase de constituição da empresa, que deve ser tratada com absoluta clareza na documentação pré-contratual, sempre observadas as exigências da legislação aplicável.Natan Baril, diretor jurídico da ABF
Para Mercadante, o ponto principal é saber se o modelo oferecido ao franqueado já foi suficientemente testado. Embora os sócios tenham experiência anterior com a Família Panda, a marca Pastel do Bairro, o cardápio enxuto, o formato da loja e a operação que será reproduzida nas franquias são recentes. "Eles [Pastel do Bairro] reformularam o negócio, abriram a loja em outro lugar, formataram para franquia. Ou seja, um negócio que começa em um novo local, sob um novo formato, precisa de tempo para ser testado economicamente", declara.
Experiência com o produto não substitui a consolidação da nova marca. Mercadante afirma que dois elementos são importantes para agregar valor a uma franquia: o know-how, ou seja, o conhecimento de como executar o negócio, e um histórico de êxito da própria marca. "O Pastel do Bairro tem histórico quanto ao saber fazer e, agora, a hora é de construir o nome da marca e consolidá-la no mercado", diz.
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.