Em 22 de dezembro de 1992, um Boeing 727 da Libyan Arab Airlines se aproximava do aeroporto da cidade de Trípoli, capital da Líbia, quando desapareceu dos radares. O voo 1103 havia decolado de Benghazi, no leste da Líbia, com destino à capital e, pouco tempo depois, a aeronave se desintegrou e caiu, matando as 157 pessoas a bordo.
A explicação oficial para a tragédia foi uma colisão em voo com um caça MiG-23 da Força Aérea da Líbia. Os dois ocupantes do avião militar conseguiram ejetar-se e sobreviveram. Décadas depois, porém, a versão oficial passou a ser questionada. O caso ganhou uma ligação ainda mais controversa com o então líder líbio, Muammar Gaddafi.
Na manhã daquele dia, o Boeing 727-200, de matrícula 5A-DIA, partiu do aeroporto internacional de Benina, em Benghazi, com 159 pessoas a bordo, segundo o relatório da autoridade de aviação civil líbia. O voo doméstico seguia normalmente para Trípoli, se aproximando para o pouso.
Durante a descida para o aeroporto, de acordo com a investigação oficial, um caça MiG-23 estava nas proximidades e os dois aviões acabaram envolvidos em uma colisão. A cauda do Boeing foi atingida e a aeronave perdeu o controle.
Os dois militares que estavam no MiG conseguiram abandonar o caça por meio dos assentos ejetáveis. Nenhuma das 157 pessoas que estavam no avião comercial sobreviveu.
O acidente ocorreu em um momento particularmente delicado para a Líbia. Meses antes, Estados Unidos, Reino Unido e França haviam aumentado a pressão sobre o governo de Gaddafi por causa das investigações sobre o atentado contra o voo Pan Am 103, destruído sobre Lockerbie, na Escócia, em 21 de dezembro de 1988 (relembre o caso aqui).
A coincidência chamava atenção: o avião líbio era o voo 1103, enquanto o Pan Am destruído em Lockerbie era o voo 103. Além disso, a tragédia na Líbia ocorreu exatamente quatro anos e um dia depois do atentado que matou 270 pessoas.
Lockerbie, entretanto, era tratado internacionalmente como um atentado ligado ao terrorismo patrocinado pelo regime líbio. Já a destruição do 1103 foi oficialmente classificada como um acidente provocado pela colisão com o caça militar.
O que mudou depois da tragédia
Em março de 1992, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 748, que impôs à Líbia um embargo aéreo e de armas, além de restrições diplomáticas, em razão da falta de cooperação do governo de Gaddafi nas investigações sobre Lockerbie e sobre o atentado contra o voo UTA 772 em 1989.
Na época do acidente, meios de comunicação estatais líbios passaram a apresentar as sanções como parte do contexto da tragédia. A investigação oficial manteve a versão da colisão e dois militares envolvidos foram presos.
Anos depois, porém, um deles, o instrutor Majid Tayari, contestou o relato oficial e afirmou que não houve colisão entre os aviões. O militar disse que viu a cauda do Boeing se separar e atingir a região de seu caça, obrigando os dois ocupantes a ejetar.
O antigo gerente de segurança da Libyan Arab Airlines, Mahmud Tekalli, também passou a defender a hipótese de que o avião havia sido destruído deliberadamente. Familiares de vítimas pediram uma nova investigação.
A ordem atribuída a Gaddafi
É nesse ponto que aparece a versão mais grave sobre o acidente. Em reportagem da BBC publicada em 2014, Ali Aujali, que havia sido embaixador da Líbia nos Estados Unidos durante o regime de Gaddafi, que depois rompeu com o ditador, afirmou que o líder líbio ordenou a destruição do voo 1103.
Segundo Aujali, Gaddafi queria usar a queda para mostrar ao mundo os efeitos das sanções internacionais impostas à Líbia após o atentado de Lockerbie. A ideia seria fazer parecer que as restrições estavam prejudicando a população líbia e sua aviação, que não podia decolar com segurança devido ao embargo imposto por meio do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), que restringia a venda de aviões e componentes para o país árabe.
Ainda segundo o ex-embaixador, uma bomba com temporizador teria sido colocada no avião de passageiros, mas não explodiu e, após isso, Gaddafi teria ordenado que a aeronave fosse derrubada.
A acusação, entretanto, não é uma conclusão da investigação oficial do acidente. Gaddafi morreu em 2011, sem nunca responder por essa alegação.
O caso permanece marcado pelo choque entre a versão oficial, que atribuiu a queda à colisão com o MiG-23, e os relatos posteriores de pessoas que questionaram o que realmente aconteceu com o voo 1103.
Fontes: BBC, Conselho de Segurança da ONU e Aviation Safety Network
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