Suspenso pelo governo de São Paulo no início deste ano, na esteira do escândalo envolvendo o Banco Master, o Credcesta voltou ao noticiário na última semana após o UOL revelar que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em um dos anexos de sua proposta de delação premiada, ter pagado propina para manter o cartão de benefício consignado do seu grupo em operação no estado durante o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) —as três tentativas de colaboração foram rejeitadas pela PF (Polícia Federal) e pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por ausência de fatos novos e de provas.
Documentos e dados oficiais confirmam que o Credcesta se tornou um negócio relevante no mercado de cartão-benefício dos servidores paulistas e que R$ 5 milhões foram doados formalmente às campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
A PKL One Participações, responsável pelo Credcesta, já estava credenciada quando Tarcísio assumiu, nunca teve exclusividade no cartão-benefício e não dependia do decreto editado pelo atual governo em dezembro de 2024 para oferecer o produto.
A norma citada por Vorcaro abriu o mercado de empréstimos consignados para uma nova categoria de instituições. O cartão-benefício, segmento em que atuava a PKL, estava aberto a administradoras desde março de 2022.
O decreto de Tarcísio também trouxe uma mudança que alcançou diretamente o Credcesta: permitiu descontos parciais na folha dos servidores para o pagamento do cartão-benefício —o que beneficiaria a Credcesta/PKL. A regra, porém, valia para todas as empresas habilitadas nessa modalidade, e não há evidência conhecida de que tenha sido solicitada pela PKL.
O que Vorcaro afirma
Em um dos anexos de sua proposta de delação, Vorcaro afirmou que Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master e criador do Credcesta na Bahia, fez em 2022 um "ajuste indevido" com Gilberto Kassab, presidente do PSD e um dos principais articuladores da campanha de Tarcísio.
Segundo o relato, o acordo teria como objetivo garantir a "manutenção do Credcesta no Governo Tarcísio" e previa contrapartidas financeiras.
As doações oficiais foram realizadas por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e constam da prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral. A realização dos repasses, entretanto, não comprova a finalidade ilícita atribuída a eles pelo ex-banqueiro.
Não foram apresentados publicamente elementos que comprovem o pagamento dos R$ 10 milhões em espécie nem o repasse de 5% do resultado da operação.
PKL entrou antes de Tarcísio
O cartão-benefício foi criado no sistema paulista pelo Decreto 66.622, assinado pelo então governador João Doria em 31 de março de 2022.
A norma reservou até 15% da margem consignável para compras, financiamentos e saques realizados por meio do novo cartão. Também permitiu o credenciamento de administradoras conveniadas com instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central.
A PKL foi credenciada em maio de 2022, ainda durante a gestão Rodrigo Garcia. Outras empresas também foram habilitadas naquele período, entre elas a Capital Consig e a Meucashcard.
Quando Tarcísio tomou posse, em janeiro de 2023, a PKL já possuía código de consignação e contratos em andamento.
O credenciamento não é uma contratação pública nem implica transferência de dinheiro do Tesouro para a empresa. O servidor escolhe a instituição, contrata o produto e autoriza o desconto em seu pagamento. O Estado processa a retenção e o repasse do valor.
Para retirar uma empresa do sistema, é necessário identificar o descumprimento das regras, abrir procedimento administrativo e assegurar prazo para defesa e regularização.
Recadastramento ocorreu durante a gestão atual
As consignatárias precisam passar por recadastramento a cada 18 meses. O procedimento serve para verificar se continuam atendendo às condições de habilitação, como regularidade fiscal, atividade empresarial compatível e convênio com uma instituição financeira autorizada pelo Banco Central.
Cronogramas publicados pela própria Fazenda estadual mostram que a PKL tinha recadastramentos previstos para novembro de 2023 e maio de 2025, ambos durante o governo Tarcísio.
O recadastramento, entretanto, é um procedimento vinculado: se a empresa apresenta os documentos e cumpre os requisitos, a administração não pode recusá-lo por conveniência política.
Para que esse processo pudesse ser apontado como contrapartida, seria necessário demonstrar que a PKL tinha alguma pendência ou corria risco concreto de suspensão e que houve interferência para mantê-la no sistema. Os documentos disponíveis até agora não mostram isso.
Também não está esclarecido se a empresa apresentou toda a documentação, se recebeu alguma notificação ou se houve discussão interna sobre sua permanência.
Dados contradizem alegação de exclusividade
Vorcaro afirmou que a "exclusividade da operação do Credcesta" foi mantida durante o governo paulista. Os dados oficiais contradizem essa afirmação.
Em dezembro de 2022, a PKL respondia por 59,6% do valor mensal descontado dos servidores na modalidade cartão-benefício. Os concorrentes já detinham os outros 40,4%.
A PKL foi líder e chegou a controlar a maioria do segmento, mas nunca foi a única operadora. Ao longo dos anos, perdeu espaço para os concorrentes.
Os valores representam parcelas descontadas naquele mês, e não novas contratações, faturamento ou lucro da empresa. Em dezembro de 2025, por exemplo, cerca de R$ 34 milhões foram descontados da folha em favor da PKL. Isso não significa que a companhia tenha faturado ou lucrado esse valor.
A permanência de uma participação de 31,5% em agosto de 2026, meses depois da suspensão da empresa, também reflete o estoque de contratos antigos, cujos descontos continuaram sendo processados.
Decreto não abriu o mercado de cartão-benefício
Vorcaro afirmou que "somente em 9 de dezembro de 2024" o governo editou um decreto que abriu o mercado para outras instituições.
O Decreto 69.126, assinado por Tarcísio, realmente permitiu a entrada das SCFIs (Sociedades de Crédito, Financiamento e Investimento) no sistema paulista.
A autorização, porém, tratava da concessão de empréstimos e financiamentos consignados. Não foi ela que abriu o cartão-benefício para concorrentes da PKL.
As administradoras de cartão já podiam se credenciar desde março de 2022, e diferentes empresas entraram no segmento antes do decreto de Tarcísio. A própria Nu Financeira foi incluída na relação de consignatárias em agosto de 2024, quatro meses antes da publicação da norma.
Não está explicado, portanto, de que forma a entrada de SCFIs no mercado de empréstimos teria encerrado a suposta exclusividade da PKL no cartão-benefício.
Decreto de Tarcísio favoreceu PKL e concorrentes
O decreto de 2024 produziu outro efeito. A norma passou a permitir descontos parciais para o pagamento do cartão-benefício, possibilidade que já existia para empréstimos consignados.
Se o valor devido fosse maior que a margem disponível naquele mês, o sistema poderia descontar a parte que coubesse na folha, em vez de deixar de realizar qualquer retenção.
A alteração poderia melhorar o fluxo de recebimentos da PKL e das demais administradoras de cartão-benefício. Mas não aumentou a margem do servidor nem concedeu um direito exclusivo ao Credcesta.
A norma foi publicada em dezembro de 2024, quase dois anos depois do suposto acordo descrito por Vorcaro. A distância temporal não descarta a acusação, mas torna indispensável demonstrar a relação entre o pagamento alegado e a decisão administrativa.
Acusação ainda depende de respostas
Os documentos disponíveis mostram que o Credcesta era economicamente relevante, que a PKL liderou o cartão-benefício paulista e que uma mudança promovida pelo governo Tarcísio alcançou a modalidade operada pela empresa.
Eles não demonstram, entretanto, que a PKL tenha recebido exclusividade, que enfrentasse risco conhecido de ser retirada do sistema ou que o decreto de 2024 tenha sido editado como contrapartida.
Tarcísio afirmou que nunca manteve contato com Vorcaro e classificou o relato como uma "ilação que beira o ridículo".
Kassab disse que a acusação é "absolutamente fantasiosa" e sem "qualquer sustentação factual". Ele reconheceu que conhece Augusto Lima, mas negou ter tratado com ele sobre o Credcesta ou sobre doações.
A defesa de Lima classificou as informações como "absurdas".
Sem a identificação de um ato administrativo comprado e sem elementos independentes que vinculem as doações a esse ato, a acusação permanece sustentada essencialmente pelo relato de Vorcaro.
O que o governo do estado disse
O Governo do Estado de São Paulo repudia e nega, de forma categórica, qualquer insinuação de irregularidade ou favorecimento envolvendo o credenciamento da PKL Credcesta para operar crédito consignado no Estado, seja por doações mencionadas, seja por relações atribuídas ao então secretário de Governo, Gilberto Kassab. A hipótese não encontra respaldo nos fatos, na cronologia dos eventos nem nas regras que disciplinam o setor.
A PKL Credcesta foi credenciada no sistema estadual de consignados em maio de 2022, ainda na gestão anterior, antes de Tarcísio de Freitas assumir o Governo do Estado. Não houve, portanto, na atual gestão, qualquer ato de escolha ou contratação da PKL que possa ser relacionado a esses fatos. O credenciamento foi suspenso no exato momento em que a empresa perdeu, por decisão do Banco Central, as condições para operar. A atual gestão, portanto, não credenciou a empresa, não a contratou e tampouco lhe concedeu exclusividade ou tratamento diferenciado.
Credenciamento foi realizado em 2022A PKL foi credenciada em 27 de maio de 2022, na gestão anterior, com base no Decreto nº 66.622/2022, que criou a categoria de cartão de benefício consignado. A entidade credenciada é a PKL, detentora dos direitos de exploração comercial; Credcesta é a marca do produto.
Não existe contrato entre o governo e a instituição financeiraO credenciamento de instituições para operar consignado é ato vinculado, não discricionário, o que quer dizer que, se a instituição preencher todos os requisitos objetivos estabelecidos pela Lei, o credenciamento deve ser concedido. Cumpridos os requisitos legais, previstos na Lei nº 10.820/2003 e nas normas do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional, a instituição tem direito a operar, sem que o gestor da folha possa escolher, por conveniência, quem credencia ou não. Quem decide com qual banco ou financeira contratar é o próprio servidor: o contrato de consignado é entre o servidor e a instituição, não entre o Estado e a empresa.
O Decreto nº 69.126/2024 não tem qualquer relação com a PKLEm dezembro de 2024, o Estado editou o Decreto nº 69.126/2024, que criou uma nova categoria de consignatária: sociedades de crédito, financiamento e investimento (SCFIs) autorizadas pelo Banco Central, equiparando-as a bancos e cooperativas para fins de credenciamento. A medida seguiu normas do CMN e do Banco Central e ampliou o mercado para financeiras digitais, num cenário em que o Estado já contava com mais de 200 instituições credenciadas. A PKL não se enquadra nessa categoria: foi credenciada por via distinta, em 2022. Portanto, não há qualquer relação entre o decreto ou suposto benefício à empresa.
A participação da PKL no mercado é pequena em comparação com outros operadoresDos R$ 634 milhões movimentados em operações de consignado do Estado, a PKL responde por apenas 3,4%, participação, que já foi de 5,26% antes de sua liquidação pelo Banco Central. O maior operador do mercado paulista é o Banco do Brasil, com mais de 50% do share, seguido por Santander, Pan, Bradesco e Caixa. Não há, portanto, nenhum indício de qualquer suposto benefício.
O Estado agiu com rigor após a liquidação da PKLAssim que a PKL foi liquidada pelo Banco Central, o Estado suspendeu, em 19 de fevereiro de 2026, a celebração de novos contratos com a instituição. Os contratos já em vigor continuam sendo honrados por orientação da Procuradoria Geral do Estado (PGE), uma obrigação legal voltada a proteger o servidor que já havia contratado.
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