A Apex Partners pediu à Justiça que amplie de R$ 5 milhões para R$ 23,25 milhões o bloqueio de bens de Fernando Antonio Kulnig Cinelli, cofundador e ex-presidente da companhia. Em petição protocolada na quinta-feira (3), o grupo afirma ter identificado 298 lançamentos financeiros atribuídos ao executivo sem contrato, justificativa contábil ou aprovação interna.
Os pagamentos foram realizados entre dezembro de 2021 e agosto de 2026, segundo levantamento apresentado pela Apex. A companhia acusa Cinelli de ter usado recursos de empresas do grupo em benefício próprio. O executivo já negou ter desviado ou se apropriado de dinheiro e sustenta que as movimentações tinham justificativa econômica.
O que aconteceu
Apex quer elevar o bloqueio de bens para R$ 23,25 milhões. A Justiça já havia determinado a indisponibilidade de até R$ 5 milhões do patrimônio de Cinelli e autorizado a quebra de seu sigilo bancário. Na ocasião, o juiz Marcos Pereira Sanches considerou que documentos indicavam transferências da ABM Partnership para a conta pessoal do executivo sem justificativa jurídica aparente.
Novo pedido ainda não foi decidido. Na petição de 3 de setembro, a Apex solicita que as buscas e restrições patrimoniais sejam ampliadas até atingir R$ 23.253.168,34. O documento consultado pelo UOL não contém uma decisão da Justiça sobre a ampliação.
Empresa relaciona 298 lançamentos em cinco categorias. A maior parcela corresponde a 43 transferências de recursos sem contrato localizado, realizadas entre julho de 2022 e agosto de 2026. Elas somam R$ 17,23 milhões e teriam saído da ABM Partnership Investimentos.
Apex também questiona pagamentos de remuneração e valores antecipados. O levantamento aponta R$ 1,83 milhão em 85 lançamentos descritos como remuneração de conselheiro ou administrador e R$ 2,57 milhões em 84 pagamentos feitos antes do período ao qual supostamente se referiam.
Lista inclui aportes em previdência e pagamento de tributos pessoais. Segundo a petição, foram identificados R$ 1,56 milhão em três lançamentos relacionados ao fundo Propósito Previdência e R$ 53,3 mil em 83 pagamentos classificados como parcelamento tributário pessoal de Cinelli.
Valores questionados pela Apex
Transferências sem contrato localizado: R$ 17.235.000 em 43 lançamentos.
Remuneração de conselheiro e administrador: R$ 1.831.428 em 85 lançamentos.
Pagamentos antecipados: R$ 2.573.449 em 84 lançamentos.
Aportes no Propósito Previdência: R$ 1.560.000 em três lançamentos.
Parcelamento de tributos pessoais: R$ 53.291,34 em 83 lançamentos.
Pagamentos ligados à CVC
Cinelli alegou que parte dos valores foi usada para sustentar a participação do bloco Apex/Carbyne na CVC. Segundo a defesa apresentada anteriormente no processo, os recursos seriam destinados à manutenção de margens e garantias relacionadas às ações da operadora de turismo.
Apex contesta a justificativa e afirma que parte da participação na CVC pertencia pessoalmente a Cinelli. A empresa argumenta que a ABM Partnership, de onde teriam saído os recursos, não era signatária do acordo de acionistas da CVC e não poderia financiar uma posição pessoal do então presidente sem autorização dos demais sócios.
Petição aponta uma diferença de R$ 100 mil em uma operação. Cinelli teria apresentado uma chamada de margem de R$ 1 milhão em 14 de maio. A Apex afirma, porém, que R$ 1,1 milhão saiu do caixa da ABM Partnership na mesma data e questiona a destinação da diferença.
Outro pagamento de R$ 3 milhões teria sido feito no dia seguinte. De acordo com a companhia, o dinheiro foi transferido em 15 de maio para a conta pessoal de Cinelli, sem que o ex-presidente tenha esclarecido a finalidade integral do pagamento.
Apex afirma que o fundo BRM Carbyne Voyage já possuía ações suficientes para a posição de referência prevista no acordo. Documentos anexados à petição indicam que o fundo detinha 71,58 milhões de ações, equivalentes a 13,62% da CVC. O acordo estabelecia como referência uma participação de 11%, segundo a empresa.
A relação entre a Apex e a CVC está no centro da crise. A gestora adquiriu mais de 15% da operadora de turismo por meio de fundos e da participação pessoal de Cinelli. Em abril, a CVC alterou seu estatuto depois de um acordo entre a Apex e o fundo GJP, do fundador da operadora, Guilherme Paulus.
Discussão sobre previdência privada
Cinelli também justificou um aporte de R$ 900 mil no fundo Propósito Previdência. O ex-presidente afirmou que a operação foi necessária para cobrir resgates e preservar a liquidez de um produto que atendia integrantes do Grupo Apex.
Apex diz que a ABM Partnership não tinha obrigação de financiar o fundo. Segundo a companhia, não havia vínculo contratual, exposição econômica ou acordo de ressarcimento que justificasse o uso do caixa da empresa nessa operação.
Dinheiro teria passado por um plano de previdência de titularidade de Cinelli. A Apex afirma que o fundo Propósito tinha como único cotista o BTG Vida e Previdência. Para fazer o aporte, Cinelli teria contratado um plano individual e destinado a ele os R$ 900 mil retirados da ABM Partnership. A empresa considera que a operação configurou benefício pessoal; essa acusação ainda não foi julgada.
O que diz Cinelli
Defesa pede a revogação do bloqueio e da quebra do sigilo bancário. Em manifestação protocolada nesta sexta-feira (4), os advogados de Cinelli também solicitam que a Justiça rejeite a ampliação da restrição patrimonial para R$ 23,25 milhões. Subsidiariamente, pedem que as medidas já determinadas sejam suspensas até que o executivo tenha acesso aos documentos utilizados contra ele.
Advogados afirmam que os R$ 23,25 milhões foram calculados pela própria Apex. A defesa classifica o levantamento como uma planilha unilateral e argumenta que os lançamentos não foram individualizados com informações como data, empresa pagadora, conta de origem, contrapartida contábil e destinação econômica. "A mera anotação interna de contrato não localizado não equivale à inexistência de negócio subjacente", afirma a petição.
Defesa questiona a ausência da auditoria independente anunciada pela Apex. Segundo os advogados, a companhia informou no início de agosto que contrataria uma empresa internacional para investigar sua situação patrimonial, mas não apresentou esse trabalho no processo. "Até o momento, nenhum contrato, cronograma de trabalho, metodologia ou relatório de auditoria externa independente foi acostado aos autos", diz a manifestação.
Documentação entregue à administradora judicial estaria incompleta. A defesa afirma que a Laspro Consultores, auxiliar nomeada pela Justiça, registrou pendências na entrega de documentos de diferentes empresas do grupo. Por isso, Cinelli pede acesso simultâneo a todos os extratos, balancetes, relatórios e demais arquivos fornecidos à Laspro que possam ser usados para fundamentar acusações ou restrições contra ele.
Cinelli afirma que as operações ligadas à CVC faziam parte de uma estratégia do grupo. Segundo a defesa, as 5,95 milhões de ações registradas em nome do empresário foram adquiridas com recursos próprios, mas integravam formalmente o bloco Apex/Carbyne. O acordo de acionistas estabelecia atuação conjunta, restrições à negociação dos papéis e responsabilidade solidária entre os participantes, argumentam os advogados.
Recursos transferidos posteriormente teriam sido usados em chamadas de margem e operações a termo. A defesa afirma que os pagamentos não financiaram a aquisição das ações pessoais de Cinelli. Os R$ 1 milhão relacionados à movimentação de 14 de maio e os R$ 3 milhões transferidos no dia seguinte teriam sido destinados à manutenção da posição do bloco na CVC.
Documentos indicariam aportes de R$ 4,69 milhões e uma liquidação de R$ 4,64 milhões. Segundo a petição, o débito de R$ 4,64 milhões foi registrado em 22 de julho como liquidação de operação a termo de ações. A defesa afirma que a posição terminou com resultado negativo e que os valores depositados como margem foram consumidos na operação, sem benefício econômico para Cinelli.
Diferença de R$ 100 mil ainda dependeria de conciliação. Sobre o questionamento da Apex de que uma transferência de R$ 1,1 milhão superou em R$ 100 mil a chamada de margem apresentada, a defesa afirma que o saldo precisa ser examinado a partir dos registros contábeis que permanecem sob controle da atual administração. Os advogados argumentam que a diferença não permite presumir desvio de todos os valores.
Aporte no Propósito Previdência teria sido operacionalizado pela diretoria financeira. A defesa diz que os R$ 900 mil foram destinados à recomposição de fluxo provocada por resgates e que mensagens corporativas demonstram que a operação partiu da própria área financeira, sem autorização prévia de Cinelli. Segundo os advogados, o uso de um plano em nome do executivo era necessário porque o produto previdenciário precisava ser contratado por uma pessoa física.
Defesa afirma que outros integrantes da administração conheciam o tamanho do passivo. Um material apresentado ao Conselho de Administração Deliberativo em 17 de abril de 2026 teria indicado obrigações de R$ 618,76 milhões. A reunião ocorreu 11 dias antes da assembleia que aprovou as demonstrações financeiras de 2025.
Contas dos exercícios de 2020 a 2025 foram aprovadas sem ressalvas, segundo atas anexadas ao processo. A defesa argumenta que as aprovações afastam a versão de que a situação financeira era desconhecida pelos órgãos de governança. Também sustenta que pagamentos e transferências passavam pelas equipes de tesouraria e controladoria e não eram decididos ou executados exclusivamente por Cinelli.
Cinelli nega desvio ou enriquecimento pessoal. Os advogados afirmam que a existência de transferências não comprova apropriação indevida e reiteram que o executivo está sem acesso aos sistemas, emails, livros contábeis e registros internos desde seu afastamento. A defesa pede que o prazo para uma resposta detalhada comece somente depois da liberação integral desses documentos.
Entenda a crise da Apex
Cinelli foi afastado da presidência em 6 de agosto. Sócios da Apex atribuíram ao executivo e ao então diretor financeiro Eduardo Siqueira acusações de gestão temerária e falta de transparência sobre as contas do grupo. Cinelli nega irregularidades e afirma que colabora com as investigações.
Crise envolve uma dívida bruta preliminar de R$ 985,6 milhões. A dívida líquida da Apex saltou de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões entre janeiro de 2025 e junho de 2026. Do total bruto, aproximadamente R$ 309,8 milhões estão relacionados a obrigações de retorno prometidas a clientes em operações estruturadas com ações da CVC.
A Apex está sob proteção judicial contra credores. O grupo obteve uma blindagem temporária de 60 dias enquanto prepara a reorganização de suas contas. A companhia também anunciou a contratação de uma auditoria externa para aprofundar a investigação sobre as movimentações financeiras e individualizar eventuais responsabilidades.
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