A CXMT levou apenas dez anos para sair de um projeto financiado pelo governo chinês e chegar ao topo do mercado acionário da China. A fabricante de chips de memória estreou nesta segunda-feira (27) na Bolsa de Xangai e encerrou o dia avaliada em 3,3 trilhões de yuans, cerca de R$ 2,49 trilhões. A abertura de capital também colocou sob os holofotes o engenheiro Zhu Yiming, fundador da companhia. Depois de estudar e trabalhar nos Estados Unidos, ele retornou à China, criou duas fabricantes de chips e se tornou um dos novos bilionários do setor de semicondutores.
O que você precisa saber
A CXMT se tornou a empresa mais valiosa da China continental. Em sua estreia na Bolsa de Xangai, as ações subiram 466%. A valorização fez a companhia superar o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC) e se tornar a empresa com maior valor de mercado nas bolsas da China continental. Considerando também as companhias listadas em Hong Kong, a Tencent, com valor de mercado de US$ 500 bilhões, é a única acima dos US$ 487,7 bilhões da CXMT.
A disparada elevou em quase 300% a fortuna de Zhu Yiming. O patrimônio do fundador da CXMT chegou a US$ 13,9 bilhões, ou aproximadamente R$ 71,1 bilhões, segundo o Bloomberg Billionaires Index.
A alta nas ações mostra o apoio de investidores à estratégia chinesa de garantir autossuficiência tecnológica. A CXMT é tida pelo governo do país como essencial para o desenvolvimento da indústria de inteligência artificial e também é vista como um símbolo de orgulho nacional na linha de frente da crescente rivalidade tecnológica com os EUA.
O que a CXMT fabrica?
A CXMT é a maior fabricante chinesa de chips DRAM, sigla em inglês para memória dinâmica de acesso aleatório. Esses chips funcionam como memória de curto prazo de aparelhos e sistemas eletrônicos. Eles armazenam temporariamente os dados que estão sendo usados por celulares, computadores, servidores e sistemas de inteligência artificial.
A companhia é hoje a quarta maior fabricante de DRAM do mundo. No primeiro semestre deste ano, sua participação nesse mercado era de cerca de 8%, atrás apenas das sul-coreanas Samsung Electronics e SK Hynix e da americana Micron Technology.
A CXMT construiu sua escala principalmente dentro do mercado chinês. Entre seus clientes estão gigantes chinesas da internet como Alibaba, ByteDance (dona do TikTok) e Tencent. A empresa também vende para fabricantes de dispositivos como Lenovo e Xiaomi.
A virada financeira ocorreu em 2025, quando a companhia teve seu primeiro lucro anual, impulsionada pela inteligência artificial. A expansão da inteligência artificial (IA) aumentou a demanda por chips de memória de alta velocidade. Isso porque o treinamento e a execução de modelos de IA exigem que servidores processem grandes quantidades de dados, tornando a memória um componente essencial dessa infraestrutura.
Atualmente, o mercado vive em uma escassez desse produto que, segundo especialistas, deve durar até pelo menos 2030. A CXMT pretende usar os recursos captados no IPO para ampliar a produção, modernizar suas fábricas e investir em pesquisa e desenvolvimento.
Por que a CXMT é estratégica para a China?
Para Pequim, a CXMT reduz uma vulnerabilidade tecnológica construída ao longo de décadas. A China vem há anos tentando diminuir sua dependência de chips estrangeiros. Esse espaço foi intensificado após os Estados Unidos e aliados endurecerem os controles de exportação sobre semicondutores avançados.
A CXMT foi apoiada por capital público desde o início. O projeto da empresa nasceu em 2016 em Hefei, capital da província de Anhui, a partir de uma parceria entre o empresário Zhu e fundos de investimentos ligados ao governo municipal.
Antes do IPO, acionistas estatais detinham 36,29% da companhia. Essa participação inclui veículos ligados aos governos de Hefei e Anhui e o chamado Big Fund, fundo criado por Pequim para financiar a indústria chinesa de semicondutores.
Quem é o fundador da CXMT?
O agora bilionário Zhu Yiming estudou e trabalhou nos Estados Unidos. Após a formação na Universidade Tsinghua, uma das mais prestigiadas da China, ele concluiu um mestrado em engenharia elétrica na Universidade Estadual de Nova York. Depois, foi para o Vale do Silício onde trabalhou em empresas de tecnologia como iPolicy Networks e Monolithic System Technology.
Ainda no Vale do Silício, Zhu passou a defender a criação de uma indústria chinesa de chips de memória. Em mensagens enviadas a potenciais investidores em 2004, ele defendeu que o centro dessa indústria havia migrado dos Estados Unidos para o Japão e, posteriormente, para a Coreia do Sul. Na avaliação do engenheiro, a China seria a próxima etapa desse movimento.
A CXMT não foi sua primeira empresa. Em 2005, Zhu criou a GigaDevice no Vale do Silício com um investimento inicial de US$ 100 mil e trabalhou no desenvolvimento dos primeiros protótipos em uma garagem alugada. A GigaDevice transferiu suas operações para Pequim ainda em 2005 e se especializou no desenvolvimento de chips de memória flash. A empresa cresceu e abriu seu capital na Bolsa de Xangai em agosto de 2016.
A CXMT representou uma aposta mais complexa e cara. Diferentemente da GigaDevice, a proposta da CXMT incluía construir e operar fábricas, dominar processos industriais e enfrentar concorrentes protegidos por décadas de experiência e milhares de patentes.
Zhu se associou ao governo de Hefei para desenvolver o projeto em 2016 e assumiu o comando da CXMT in 2018. Segundo publicações chinesas, ele prometeu não receber salário da empresa enquanto o negócio não desse lucro. A companhia encerrou seu primeiro ano com resultado positivo em 2025.
O financiamento do governo permitiu a Zhu expandir o negócio rapidamente. A CXMT comprou um grande número de patentes da alemã Qimonda, que faliu durante a crise financeira global de 2008, e também recrutou engenheiros de todo o mundo.
A CXMT já alcançou as líderes mundiais?
O valor alcançado pela CXMT na bolsa não significa que ela tenha superado tecnologicamente suas concorrentes. Na verdade, analistas alertam para uma "lacuna tecnológica geracional" entre a CXMT e as líderes globais nos chips HBMs, que são mais avançados.
Os chips HBM estão entre os componentes mais importantes dos aceleradores de inteligência artificial. Samsung e SK Hynix dominam esse mercado, enquanto a tecnologia da CXMT ainda está em estágio menos avançado.
O valor de mercado da fabricante chinesa também continua abaixo do registrado por algumas de suas concorrentes globais. Apesar da estreia de US$ 487,7 bilhões da CXMT, a SK Hynix está avaliada em cerca de US$ 881 bilhões e a Micron em aproximadamente US$ 1 trilhão.
A rivalidade geopolítica que favorece a expansão da CXMT também limita seu avanço. Os controles de exportação dos Estados Unidos dificultam o acesso da empresa a equipamentos avançados de fabricantes como a holandesa ASML. Em junho, o Departamento de Defesa americano também classificou a CXMT como uma "empresa militar chinesa", designação contestada por Pequim.
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