Uma disputa industrial acirrada por um mercado consumidor que movimenta US$ 7,2 bilhões ao ano no Brasil. Um setor que sente os efeitos do aumento das vendas de produtos informais e uma inflação que segue pressionando o cotidiano das pessoas. E no centro dessa história, duas gigantes do setor de bens de consumo.
Em agosto, a Química Amparo, dona das marcas Ypê e Tixan, abriu as portas do seu complexo industrial em Amparo, no interior de São Paulo, como parte de uma ampla campanha de recuperação de imagem, que incluiu a veiculação nacional de um vídeo publicitário para agradecer aos consumidores.
O que aconteceu
O agradecimento veio depois do recall de detergentes, sabão líquido para roupas e desinfetantes que a marca Ypê teve de fazer. Só para lembrar, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou no dia 07 de maio deste ano a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e o recall desses produtos por risco sanitário na unidade fabril da Ypê em Amparo.
A Ypê teve que montar um esquema de resposta urgente aos consumidores, aos fornecedores, aos supermercadistas e aos parceiros logísticos por causa do recall. Foram 22 dias de gerenciamento de crise aguda até a Anvisa liberar os produtos que não atendiam as exigências de qualidade até então. Toda a operação teve um custo para a empresa de 130 milhões de reais.
A história poderia terminar aqui, com essas iniciativas que estão dentro de qualquer manual de gerenciamento de crise de confiança de uma marca com o consumidor. Afinal, a Anvisa identificou problemas reais nos sistemas de controle de qualidade de algumas linhas de produção da Ypê.
Denúncia na Anvisa
Só que esse caso vai além. A Unilever apresentou denúncia na Anvisa dos produtos da Ypê, o que contribuiu para a ação da agência reguladora. A multinacional, que é dona das marcas Omo, Cif e Comfort, contratou laboratórios técnicos para avaliar amostras dos produtos da Ypê. O que está em jogo aqui não é necessariamente o bem-estar dos consumidores. Mas a disputa acirrada pelo mercado de consumo brasileiro de saneantes e produtos de limpeza que movimenta US$ 7,2 bilhões ao ano no país.
Mercado clandestino
E o contexto mais amplo é o seguinte: A pressão no varejo vem em parte da inflação elevada e aumento das vendas de produtos de limpeza doméstica e corporativo informais. Para se ter uma ideia, 14% do consumo de produtos de limpeza de uso doméstico no Brasil são clandestinos. Isso equivale a 5 bilhões de reais em saneantes clandestinos.
Já no mercado de uso profissional, que engloba hospitais, restaurantes, hotéis, a informalidade chega a 20%. É o que mostra a Abipla (Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional) e a Abralimp (Associação Brasileira do Mercado de Limpeza Profissional) - 3ª edição da Pesquisa Nacional sobre a Informalidade em Produtos de Limpeza.
A disputa pelo consumidor mais seletivo faz diferença na linha final do balanço anual de vendas. E se um produto sai das prateleiras, mesmo que por pouco tempo, esse espaço será ocupado por outra marca. A Ypê admite que teve redução nas vendas por causa do impedimento de comercialização colocado pela Anvisa, mas nega que tenha perdido participação de mercado.
O que deve doer muito porque vc não consegue ganhar do ponto de vista comercial, não consegue ganhar usando artifícios como esse e ainda não consegue ganhar market share.Sérgio Pompilio, diretor-executivo de Assuntos Jurídicos e Corporativos da Ypê
A fala de Pompilio aconteceu durante a visita da imprensa à fábrica de Amaro. Quando questionado se tomaria medidas judiciais contra a Unilever, o diretor disse: "Não tomamos, ainda. A companhia segue avaliando os fatos e as providências cabíveis, sem antecipar seus próximos passos." Só que diretor foi enfático ao dizer que a companhia repudia práticas que ultrapassam os limites éticos e legais. Procurada pela reportagem, a Unilever disse que não vai comentar o tema antes da medida judicial existir.
Se não acabar nos tribunais, o enrosco deve ganhar outra proporção e alterar os parâmetros de produção das empresas desse setor. A Ypê quer criar parâmetros microbiológicos e estabelecer uma padronização para o setor como um todo. A Abipla confirmou que o tema está na agenda de acompanhamento num grupo de trabalho específico.
A adequação dos processos da Química Amparo, relacionada à última atuação da Anvisa, está compilado em um plano de ação de 35 páginas e a sua implementação só termina no fim de 2027.
E o mais novo capítulo é que dois meses depois da Ypê, a Unilever recebe da Anvisa a determinação de suspensão da fabricação de todos os produtos saneantes fabricados na Unidade da Unilever, em Vinhedo. No dia 02 de setembro, o órgão de controle disse ter identificado falhas nas boas práticas de fabricação.
Em nota à imprensa, a Unilever informa: "A Unilever informa que recebeu a equipe da Anvisa em sua fábrica em Vinhedo (SP) para uma fiscalização na unidade de produtos de cuidados com a casa. A inspeção resultou em oportunidades de melhorias em processos de documentação e controle, conforme publicado no Diário Oficial do dia 2/9/2026, relacionadas às linhas de sabão líquido para lavar roupas e amaciante líquido para roupas. Todos os produtos de cuidados com a casa fabricados na unidade, de todos os lotes, seguem liberados para comercialização e uso pelos consumidores. Em nota publicada no site, a Anvisa diz que a avaliação "não indicou contaminação microbiológica ou outros problemas sobre os lotes produzidos na fábrica. Por esse motivo, não foi determinada a suspensão da comercialização, da distribuição ou do uso dos produtos já fabricados e disponíveis no mercado, nem seu recolhimento." Por determinação da Anvisa, de forma preventiva, as linhas de fabricação destes produtos foram temporariamente suspensas para implementação das melhorias operacionais requeridas. Todas as ações foram prontamente iniciadas e já estão sendo implementadas. As demais linhas de produção da unidade seguem operando normalmente. A Unilever continua atuando em colaboração com a Anvisa e considera os apontamentos parte importante para a evolução contínua de seus processos produtivos e de todo o setor. A empresa reafirma seu compromisso inegociável com o rigor de seus padrões de qualidade em seus 96 anos de atuação no Brasil e reitera sua prioridade absoluta com a segurança dos consumidores. Anvisa suspende fabricação de produtos de limpeza em unidade da Unilever. Medida preventiva não determina o recolhimento dos produtos já disponíveis no mercado. Fiscalização não identificou contaminação em lotes já produzidos."
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