Criado em 2024 para atrair investimentos privados direcionados à transição para uma economia sustentável, o Eco Invest Brasil já mobilizou cerca de R$ 140 bilhões em quatro leilões. O volume do programa federal, porém, ainda contrasta com a velocidade com que os recursos chegam à ponta, aos médios e pequenos produtores rurais. O assunto foi debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit. O evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento dessa nova economia aconteceu nesta quinta-feira, em Goiânia. O evento tem o UOL como parceiro.
O que você precisa saber
Programa do Ministério da Fazenda e do Tesouro Nacional utiliza recursos públicos para reduzir riscos e atrair capital privado, inclusive estrangeiro. O Eco Invest atua com financiamento combinado, proteção contra variações cambiais, crédito para hedge e apoio à estruturação de projetos.
O primeiro leilão, de outubro de 2024, mobilizou R$ 45 bilhões para transição energética, bioeconomia, economia circular e infraestrutura verde. Segundo Mário Gouvêa, integrante do Comitê Executivo do Eco Invest, cerca de R$ 6,8 bilhões vieram de recursos públicos.
Conseguimos levantar R$ 45 bilhões em investimentos com cerca de R$ 6,8 bilhões de dinheiro público.Mário Gouvêa, integrante do Comitê Executivo do Eco Invest
Cerca de R$ 40 bilhões do primeiro leilão já teriam se convertido em investimentos. Segundo Gouvêa, isso inclui biorrefinarias de etanol de milho e projetos de saneamento.
Na linha de financiamento para recuperar terras degradadas, os bancos trabalham na primeira parcela dos recursos, o que corresponde a 25% do total. Os 75% restantes ainda precisam chegar às instituições financeiras para, depois, serem transformados em operações para produtores e empresas.
O governo ofereceu uma linha do Fundo Clima com juros de 1% ao ano, mas exigiu participação privada. Para cada parte de dinheiro público, as instituições deveriam acrescentar pelo menos cinco partes de recursos captados no mercado.
Essa combinação é chamada de 'blended finance'. A lógica é misturar uma fonte mais barata, porém limitada, com capital de mercado mais abundante. A taxa final não fica em 1%, mas tende a ser inferior àquela que o projeto encontraria sem a participação pública.
Com o quinto leilão, anunciado em maio, o programa deve chegar a R$ 200 bilhões. Na época, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o volume de mobilização chegaria próximo de 1,5% a 2% do PIB (Produto Interno Bruto).
Pequeno produtor enfrenta custo desproporcional
Todo esse recurso não está chegando a pequenos produtores, segundo painelistas do evento. O desafio está em construir projetos financiáveis, reunir produtores em operações de escala e comprovar, com dados auditáveis, os benefícios ambientais.
Os custos para um pequeno produtor comprovar os benefícios são grandes. Uma grande empresa consegue contratar consultores, organizar documentos, oferecer garantias e diluir o custo do monitoramento em uma operação de valor elevado. Para um pequeno produtor, as mesmas exigências podem consumir parte relevante do crédito.
Outra barreira é a diferença de linguagem entre o produtor e o investidor. Quem trabalha na propriedade conhece o solo, a produção e os riscos do negócio, dizem os especialistas. O investidor, muitas vezes estrangeiro, enxerga risco de crédito, governança, retorno e indicadores ambientais.
O tempo é outra variável fundamental. É preciso apresentar documentos como histórico financeiro e ambiental, oferecer garantias aceitas pelos bancos e esperar o prazo de maturação dos projetos. A recuperação de uma área degradada pode levar anos, por exemplo.
E o prazo de retorno tem a mesma lógica. Para João Paulo Dutra, da Trius Capital, o dinheiro destinado à agricultura regenerativa precisa ser paciente. Ele dá o exemplo de uma oferta de aproximadamente US$ 50 milhões feita por um investidor europeu interessado em projetos sustentáveis no Brasil. Ele exigiu governança clara, responsabilidades definidas e métricas robustas. Era preciso saber quem responde pelo projeto, quem acompanha os indicadores e como será demonstrado o impacto.
Mais do que falar de métrica, temos que qualificar o impacto. Ele precisa ser real, verificável, monitorável e prestar contas do dinheiro recebido.João Paulo Dutra, Trius Capital
Uma boa proposta ambiental ainda está distante de ser uma operação financeira. Luiz Lapo, diretor da Tudo Certo Agronegócios, afirma que, entre a tese e a operação, há um caminho longo que precisa ser percorrido. "Eu diria que a palavra é tradução", afirma.
Como abrir o caminho
Uma das alternativas para alcançar produtores menores é reunir diversas propriedades em uma única estrutura financeira. Em vez de analisar e monitorar uma operação pequena de cada vez, fundos e securitizadoras formam uma carteira com dezenas ou centenas de produtores.
Fundos de investimento podem funcionar como pontes. Renato Barros, sócio e responsável pela área de agronegócio da Opea, avalia que estruturas como Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagros), Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) podem funcionar como recursos para driblar essas dificuldades.
Hoje vemos muitas operações saindo, mas muito focadas nos grandes produtores. Estruturas de securitização por meio de Fiagros, FIDCs e operações de CRA são uma forma de fazer o recurso chegar ao médio e ao pequeno produtor.Renato Barros, sócio e responsável pela área de agronegócio da Opea
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