Às vezes parece que a gente tem de ser contra. Ou pior, do contra!
Se o mundo fosse assim em 1863, o futebol não existiria.
Nasceu sem juiz, eram um jogo de gentlemen, de cavalheiros. A regra era: pediu, parou!
Só não estava impedido quem recebesse o passe atrás da linha da bola. Aí, alguém entendeu que isso era rugby e que futebol era muito mais legal. Então, definiu-se em 1866 que só não estaria impedido quem estivesse atrás de três adversários, na hora do passe.
Dava confusão, inventou-se o árbitro, que não é juiz. Árbitro é alguém escolhido pelas duas partes que confiam nele para mediar um conflito. O futebol confiou tanto no árbitro que nunca o xingou, mas à sua mãe.
Isto é puro machismo, sabemos todos. Mas o futebol sobreviveu e deu certo, apesar daquele filho da mãe.
Por 155 anos, confiamos e desconfiamos de árbitros e bandeirinhas. Então, entendeu-se que o olho humano era incapaz de saber se a bola saiu do pé do passador enquanto o receptor do passe estava atrás da linha de impedimento ou não.
Houve mudanças na regra. Em 1925, deixaram de ser três e passaram a ser dois defensores necessários na hora do passe, para que não houvesse impedimento. Isso provocou uma das maiores revoluções táticas da história do jogo.
Lamentavelmente, as pessoas não gostam de história, muitas nem sabem por que razão existe o impedimento. Experimente pedir para alguém explicar o motivo...
A regra mudou de novo em 1990, mesma linha deixou de ser impedimento, passou a ser condição legal. Você sabia?
A gente põe a culpa no regulamento, mas muitas vezes está em quem não tem noção das razões da regra.
O impedimento semi automático colocado em prática no Brasil, no último final de semana, aprimora o que havia. É melhor do que confiar apenas no bandeirinha, mas ele segue lá e é importante para a decisão final.
É melhor do que confiar naquelas mal traçadas linhas.
O equipamento criticado no final de semana é o mesmo elogiado na última temporada do Campeonato Inglês. Por que lá é bom e aqui ruim? Complexo de viralata total.
É melhor do que o que tínhamos e tem de continuar sendo aperfeiçoado.
A tecnologia só avança. O que regride é o ser humano.
A gente tem de confiar em alguma coisa e, olha, anda tão difícil confiar em gente...
No tipo de gente que dá opinião, porque quer lacrar, porque quer engajar, porque quer chamar a atenção...
Em vez de clarear, observar, esclarecer
O futebol nasceu, cresceu e sobrevive com suas imperfeições.
Se houvesse o tipo de desconfiança com a qual a gente lida hoje em dia, o futebol não teria resistido ao primeiro árbitro.
A Inteligência Artificial tem ferramentas que atribuem a definição de Imperfeito: ser humano, aceitar que você tem limites.
Vamos precisar que ela corrija nossa burrice natural, de não compreender que uma das maiores paixões da vida moderna sobrevive à imperfeita lei do impedimento, talvez justamente por nos expor nossa vida inexata.
Mas, no basquete, a distância entre LeBron James andar, caminhar ou fazer uma bandeja também é tão subjetiva, mas milhões de vezes menos visível aos olhos de quem ama o esporte mais amado do planeta, o futebol.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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