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UOL Economia há 60 d • Seg, 31 Ago 2026 05:30:00 -0300

El Niño expõe a nova conta da proteção no agronegócio

El Niño expõe a nova conta da proteção no agronegócio

A perspectiva de um El Niño forte recoloca o clima no centro das decisões do agronegócio brasileiro —e começa a mudar, ainda que gradualmente, a forma como o produtor enxerga a necessidade de proteção contra perdas.

Não se trata simplesmente de uma corrida ao seguro, nem de uma relação automática entre a chegada do fenômeno e o aumento dos sinistros. O que está em curso é uma mudança mais complexa, diante de um clima cada vez mais volátil. O risco deixa de ser tratado como um evento pontual e passa a entrar na conta do planejamento financeiro, da contratação de crédito, da manutenção do fluxo de caixa e da própria continuidade dos negócios.

O assunto será debatido na segunda edição do Sustainable Finance Summit, evento sobre economia "verde" e estratégias de financiamento dessa nova economia que tem o UOL como parceiro. O summit acontece em Goiânia no dia 3 de setembro.

Essa transformação no agro ganha força em um país onde apenas 14% da área cultivada está protegida por algum tipo de cobertura securitária, segundo Sheila Garcia, diretora para o Brasil de soluções para riscos comerciais da Aon. Ao mesmo tempo, a redução dos recursos destinados à subvenção ao seguro rural limita a expansão dos modelos tradicionais justamente em um momento de maior incerteza climática. "O debate deixa de se restringir ao seguro rural tradicional e evolui para o conceito mais amplo de proteção climática", afirma Sheila.

Na avaliação da executiva, já existem instrumentos capazes de proteger não apenas contra perdas de produtividade, mas também contra riscos relacionados à receita, ao fluxo de caixa, ao acesso a crédito e ao cumprimento de contratos ao longo da cadeia do agronegócio. Entre eles estão os seguros paramétricos, nos quais a indenização é acionada quando determinados indicadores, como volume de chuva, temperatura ou velocidade do vento, atingem previamente níveis estabelecidos.

A lógica, nesse caso, é diferente da simples reparação de um prejuízo depois que ele ocorre. "O objetivo não é apenas compensar perdas, mas preservar liquidez, continuidade do negócio e capacidade de investimento após eventos severos", diz a executiva da Aon.

Um fenômeno, riscos diferentes

O El Niño está longe de produzir um efeito homogêneo sobre o campo brasileiro. Historicamente, o fenômeno tende a aumentar os volumes de chuva e os riscos de enchentes na região Sul, enquanto outras áreas do país podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas elevadas. O impacto final depende da cultura, da localização, da época de plantio e, sobretudo, do momento em que as anomalias climáticas ocorrem.

Essa é uma das principais cautelas apontadas por Fabio Damasceno, diretor de seguro rural da Mapfre. "A previsão do El Niño, isoladamente, não determina o risco de uma lavoura." Segundo Damasceno, é necessário cruzar a informação climática com a cultura segurada, a localização da propriedade, a época de plantio, o estágio de desenvolvimento da lavoura e o comportamento esperado da chuva e da temperatura em cada região.

No Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste, a preocupação está mais associada a períodos de estiagem e temperaturas elevadas, capazes de comprometer o desenvolvimento das lavouras e reduzir a produtividade. No Sul, o excesso de chuva pode afetar desde o plantio até a qualidade final dos grãos.

É justamente essa diferenciação que ajuda a explicar uma mudança no próprio mercado de proteção rural. Com uma maior percepção de risco, o produtor tende a buscar mais instrumentos para reduzir sua exposição, mas a oferta também passa a exigir uma análise mais detalhada. A tendência, segundo avaliação da Mapfre, é de uma mudança cada vez mais granular tanto na subscrição quanto na composição das carteiras.

A seguradora está acompanhando mais de perto as anomalias de chuva e temperatura e cruzando essas informações com o histórico de cada região. O objetivo é identificar onde o risco está aumentando e ajustar a avaliação de novas operações. "Em um cenário de maior instabilidade climática, a contratação precisa estar alinhada ao tipo de exposição que o produtor realmente enfrenta", afirma Damasceno.

A lição das enchentes no Sul

As chuvas extremas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 ajudaram a ampliar essa discussão. Segundo dados compilados pela Aon, as perdas na agricultura e na pecuária dos municípios gaúchos que decretaram situação de emergência ultrapassaram R$ 5,3 bilhões.

Mas os prejuízos não ficaram restritos às propriedades rurais. As enchentes afetaram armazenagem, logística, transporte, infraestrutura e processamento industrial, com consequências para cooperativas, tradings, fornecedores, agroindústrias, transportadores e instituições financeiras.

"O evento reforçou uma realidade cada vez mais evidente. O clima atua como um multiplicador de riscos, ampliando vulnerabilidades operacionais e financeiras e gerando impactos sistêmicos em toda a cadeia do agronegócio", afirma Sheila Garcia.

A partir desse diagnóstico, entram diferentes estratégias de mitigação, retenção, transferência e recuperação de riscos. "O caminho mais eficiente não é buscar uma única cobertura, mas construir uma estratégia de resiliência climática", acrescenta Garcia.

A mudança também alcança o próprio setor segurador. Segundo dados citados pela Aon, os desastres naturais provocaram US$ 368 bilhões em perdas econômicas globais em 2024. Cerca de 60% desse valor não possuía cobertura securitária. A chamada lacuna de proteção se tornou um dos principais desafios do mercado.

As seguradoras e resseguradoras, afirma Garcia, vêm ampliando investimentos em modelagem climática, análises preditivas e ferramentas de quantificação de risco. "O clima deixou de ser uma preocupação de longo prazo e passou a influenciar diretamente decisões técnicas e alocação de capital", diz.

Como uma chuva que ocorria antes em um determinado local não necessariamente atingiria outras áreas próximas, como está acontecendo mais agora, as seguradoras também estão mais seletivas, porque os cálculos de exposição ao risco mudaram, afirma Paula Lopes, presidente da Marsh Brasil.

"Não diria necessariamente que a mudança climática já está aumentando o preço do seguro de forma generalizada. O que acontece é que, onde existe muita exposição, as seguradoras estão sendo mais restritivas. Elas estão mais criteriosas na subscrição, fazendo mais perguntas e mais cálculos sobre o acúmulo de risco", diz a executiva.

De uma forma geral, explica Lopes, o mercado de proteção vem mudando e evoluindo, apesar de a conscientização da maioria ainda precisar mudar. "Não sei se você já leu o livro "O Rinoceronte Cinza". Ele mostra que, de um lado, existe o cisne negro, que pode ser uma crise como a do subprime ou a da covid, eventos que não eram previstos e que se tornam catastróficos. Já o rinoceronte cinza é aquele risco que você enxerga chegando", diz Lopes.

É como descer do carro em um safári e ver o rinoceronte lá longe, mas sabendo que ele vai chegar. "É preciso tomar uma ação, porque, se deixar para agir quando ele estiver muito próximo, a sua capacidade de manobra será pequena. Um rinoceronte pode atingir 40 km/h. Ele vai te derrubar", compara a presidente da Marsh Brasil.

Apesar disso, acrescenta a executiva, as tragédias do Rio Grande do Sul em 2024 não deixaram de legado uma preocupação maior com a questão da proteção.

"Hoje, por exemplo, a penetração da cobertura contra alagamentos está abaixo de 10%. Isso ajuda a explicar o que vimos no Rio Grande do Sul. De cerca de R$ 120 bilhões em perdas, o mercado segurador pagou algo entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões. A penetração do seguro ainda é bastante pequena", ratifica Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter no Brasil.

Por uma questão de distribuição e das próprias políticas de compra dos segurados, afirma o executivo da área de resseguros, o mercado tem uma penetração de seguros agrícolas muito menor no Centro-Oeste, no Norte e no Nordeste do que no Sul. "Isso é um problema porque, do ponto de vista da resiliência, seria importante que mais pessoas estivessem cobertas. Mas existem vários fatores envolvidos, como a forma de como o crédito chega ao produtor, o papel das cooperativas, os canais de distribuição e até o fato de o próprio comprador, muitas vezes, não querer adquirir o seguro ou não considerar que o produto vale a pena."

Farme calcula que cerca de 80% das seguradoras que operam riscos massificados oferecem coberturas contra alagamento, mas a penetração está abaixo de 10%. "O mercado simplesmente não compra", diz. E isso, segundo o executivo, não acontece apenas no Brasil. "Se você olhar para a Europa, verá situações parecidas, inclusive em países de renda muito elevada."

Por isso, alguns países adotaram esquemas público-privados, mecanismos de obrigatoriedade de cobertura ou sistemas em que o risco é compartilhado por todo o mercado. A ideia é garantir que a proteção seja oferecida de forma mais ampla e que exista, inclusive, algum nível de subsídio cruzado entre áreas mais e menos expostas. "São algumas das iniciativas que temos estudado e discutido com associações de classe e com a indústria para tentar trazer essas ideias e aumentar a resiliência do Brasil", explica o CEO da Guy Carpenter no Brasil.

Alerta ligado para a safra de verão

No mercado de grãos, o El Niño também acende um sinal de alerta, embora ainda seja cedo para antecipar perdas. Luiz Roque, coordenador de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets, ressalta que o fenômeno tende a estabelecer padrões climáticos mais definidos, mas não determina, por si só, o resultado da safra.

Para as próximas semanas, a atenção está voltada principalmente para o comportamento das chuvas no centro-norte do país e para o início do plantio da soja. Os mapas, segundo Roque, ainda indicam condições relativamente normais para setembro e outubro, mas o cenário pode mudar a partir de novembro, com possibilidade de redução das chuvas no centro-norte e aumento das precipitações no centro-sul.

"Não é porque tem El Niño que certamente vamos ter perdas", afirma. O ponto central, segundo ele, é o momento da chegada ou da ausência das chuvas. Um período seco pode ter consequências muito diferentes dependendo do estágio de desenvolvimento da cultura.

Nos grãos, a volatilidade climática também tende a se refletir nos mercados. A possibilidade de problemas de produção aumenta a atenção de produtores, compradores, intermediários e demais agentes da cadeia para instrumentos de proteção de preços e margens.

Mas a principal transformação talvez esteja antes mesmo da negociação de uma apólice ou de uma operação de proteção financeira. O avanço da instabilidade climática está obrigando o agronegócio a incorporar uma variável que, durante décadas, muitas vezes foi tratada como parte do risco normal da atividade.

O El Niño é apenas mais um lembrete de que esse cálculo mudou. E, em um país continental, a resposta dificilmente será única. Entre seguros tradicionais, coberturas paramétricas, gestão de risco, adaptação e proteção financeira, a tendência é que o produtor tenha de olhar menos para uma solução isolada e mais para o conjunto de vulnerabilidades que o clima pode expor.

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