Juros elevados e concorrência com marketplaces internacionais são as duas principais causas da atual crise do varejo brasileiro, que teve no pedido de recuperação judicial da Casas Bahia o capítulo mais recente, disse o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, em entrevista ao UOL News.
O que aconteceu
Economista classifica a atual taxa básica de juros como maior desafio para o varejo brasileiro. O economista disse que os juros elevados representam um dos principais motivos que levaram a Casas Bahia ao pedido de recuperação judicial. Para ele, os juros reais (descontada a inflação) acima de 10% desde o ano passado prejudicam toda operação do setor. "O varejo e a economia como um todo estão pagando o preço de um período longo de juros elevados, como a gente está vivendo agora", afirmou.
Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. O processo é feito em conjunto com algumas de suas principais subsidiárias, como Cnova Comércio Eletrônico, Bartira, Casas Bahia Tecnologia e empresas de logística do grupo. Medida judicial impacta pagamentos de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. Segundo a Casas Bahia, o processo inclui dívidas com bancos, fundos de investimentos, seguradoras, fornecedores, além de aluguéis e dívidas trabalhistas.
Taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano, ao redor do maior patamar em duas décadas. O Banco Central iniciou um ciclo de redução da taxa, emendando quatro cortes seguidos. Ainda assim, os juros reais — acima da inflação — seguem em patamar de máximas históricas.
Economista diz que juros altos são provocados, em parte, pela política fiscal "super expansionista". Na avaliação de Vale, as despesas públicas injetam recursos na economia. Isso permite reajustes de preços na economia e, por tabela, o controle da inflação. Por isso, a situação exige a manutenção dos juros em um nível elevado, especialmente neste ano eleitoral. "Vemos um impulso fiscal muito forte em relação ao que vivemos em 2025", disse ele.
Ambiente internacional também é obstáculo para a redução da taxa Selic. Vale afirma que a guerra entre Irã e Estados Unidos, que elevou o preço do petróleo, o El Niño, que vai elevar o preço dos alimentos no segundo semestre, são fatores decisivos que impedem o corte mais efetivo dos juros,
O Banco Central olha tudo isso: pressão fiscal, guerra no Oriente Médio e El Niño e vê um ciclo de pressão inflacionária muito grande. Os juros acabam tendo que ficar elevados por mais tempo do que a gente gostaria, e o varejo já está sentindo excepcionalmente com mais intensidade neste ano. Sérgio Vale
Crise impulsiona pedidos de recuperação judicial entre as grandes varejistas. Os dois casos mais recentes envolvem os grupos Casas Bahia e Marabraz, que solicitaram a intervenção ontem. Eles unem às outras 986 empresas do setor que seguiram pelo mesmo caminho no primeiro semestre, alta de 20,4% em relação ao total de pedidos efetivados no mesmo período do ano passado. "Acho que essa vai ser a tônica do segundo semestre e até 2027", prevê Vale.
Para economista-chefe da MB Associados, demissões e desaceleração econômica não devem estimular corte dos juros. O economista reconhece que desaceleração econômica e redução de empregos podem tornar mais difícil o trabalho do Banco Central para justificar juros elevados. Entretanto, Vale a missão maior do BC é utilizar a política monetária para segurar os preços. "Inflação cheia é muito sensível a combustível, é muito sensível aos preços de energia e alimentos. A gente tá falando de uma inflação que não sai ali do teto, em 4,5%", diz ele.
Demissões podem atingir perto de 10% dos funcionários da companhia. Empresa planeja demitir 3 mil empregados e fechar 298 lojas. Isso representa cerca de 29% das 1.034 lojas que o grupo apresentava no mês fim de junho, segundo dados do balanço. Segundo a direção, o plano é "priorizar canais e categorias de maior rentabilidade, reduzindo o capital empregado e o custo de financiamento, para fortalecer o caixa e assegurar uma operação sustentável e autofinanciável".
Concorrência
Disputa entre os marketplaces agrava a situação das varejistas digitais. Sérgio Vale entende que o crescimento das plataformas de vendas internacionais tem prejudicado as redes de varejo com baixa presença no ambiente virtual e maior dependência das lojas físicas. "Você pega Magazine Luiza, Mercado Livre, que têm obviamente uma presença digital muito mais intensa, acabam se saindo relativamente melhor", avalia.
Empresas como as Casas Bahia sofrem o impacto dos juros e ainda estão atrasadas no mundo digital em que nos transformamos nos últimos anos. É um duplo efeito negativo que acabou levando a esse cenário que a gente está vendo agora.Sérgio Vale
Economista-chefe da MB Associadosavalia que "taxa das blusinhas" contribui para a expansão da política fiscal. Vale afirma que a isenção do imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 tem "uma conotação totalmente política" e prejudica a arrecadação para gerar receita para o governo em um momento de dificuldade para fechar as contas públicas. "Temos uma crise fiscal que está ficando incontornável com uma solução mais concreta e mais duradoura e mais forte. Eventualmente, mais taxação, mais imposto vai acabar acontecendo", previu.
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