Um ex-inspetor da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) denunciou, desde 2019, irregularidades cometidas pela Voepass, mas foi acusado de insubordinação e exonerado da agência. A denúncia foi revelada em reportagem do Fantástico exibida hoje pela TV Globo.
O que aconteceu
Inspetor aconselhou, em 2019, suspender a autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, que se fundiu a Passaredo para formar a Voepass. Segundo a reportagem, havia evidências de que peças estavam sendo usadas sem avaliação de aeronavegabilidade. A Anac, no entanto, não acatou a recomendação, de acordo com ele.
Inspetor fez outra denúncia em 2022. Nesta, ele alertou que a companhia estava reaproveitando de forma ilegal as peças de um avião acidentado em 2016 em Rondonópolis, no Mato Grosso.
Ele recorreu a órgãos internacionais após não ter retorno das autoridades brasileiras. Inspetor alega ter enviado e-mails para a FAA (agência dos EUA) e a EASA (da União Europeia), mas a Anac o desautorizou.
Servidor foi processado por insubordinação em 2023 e exonerado em 2025, após 16 anos na agência. Ele relatou ter sofrido perseguição por digirentes da Anac, e um processo cível por injúria e difamação segue em andamento.
Ministério Público Federal (MPF) arquivou denúncias contra a Anac. Alertas de prevaricação contra membros da agência foram arquivados pelo órgão por falta de provas.
Autorização da Voepass só foi caçada em junho de 2025. A medida ocorreu dez meses após o acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo.
16 indiciados em investigação da PF
Acidente da Voepass completa dois anos hoje. Em agosto de 2024, o avião caiu em condomínio de Vinhedo, no interior de São Paulo, matando todas as pessoas que estavam a bordo, sendo 4 tripulantes e 58 passageiros.
Polícia Federal terminou o inquérito na última quinta-feira (6) e indiciou 16 pessoas. Entre os indiciados estão pilotos, funcionários de terra, gerentes, diretores e o presidente da Voepass, que podem responder por atentado contra a segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica, com penas que podem variar de 4 a 12 anos.
Investigação aponta que empresa tinha "cultura de omissões". O delegado André Ribeiro afirmou ao Fantástico que a gestão era "pautada com pressões para não reportar, priorizando o operacional em detrimento da segurança".
Sistema de degelo do avião falhou ao menos 15 vezes antes do acidente. Defeitos não foram registrados no diário técnico da aeronave, que não poderia ter decolado.
Aeronave não era homologada para voar em condições de gelo severo. As condições, no entanto, eram previstas na rota do voo 2283, que saiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP).
PF também mira a Anac nas investigações. Relatório indica que a agência identificou "diversas não conformidades técnicas e procedimentais" na manutenção das aeronaves da Voepass antes do acidente em Vinhedo.
Mecânico de pista da Voepass relatou à PF suspeita de propina a funcionários da agência. Ele relatou que sua carteira de autorização de trabalho foi suspensa mesmo após ser aprovado em curso de reciclagem. Para o mecânico, a motivação era retirá-lo da pista por "criar muito caso" ao se recusar a liberar aviões com problemas.
Investigação será encaminhada para a Procuradoria da República no DF. Diligências miram uma eventual prática de improbidade administrativa por membros da Anac.
O que dizem os envolvidos
Anac afirmou ao Fantástico que peças do avião de Rondonópolis foram vistoriadas conforme as normas regulatórias. Ainda assim, agência abriu um processo interno para verificar responsabilidades de servidores.
Voepass garantiu ao programa que a segurança sempre foi prioridade. A companhia disse que seus treinamentos cumprem protocolos e que colabora com as autoridades.
O UOL procurou a Anac, o MPF e a Voepass sobre o tema. O espaço segue aberto para manifestação.
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