Quando o copiloto Gabriel Castanho completou 2.000 horas de voo, o momento ganhou um significado especial. Na cabine estava o pai, o comandante José Castanho. "A gente até fez uma foto", lembra o comandante.
Em outra família, a cena ainda está por acontecer. O comandante Marcelo Cartolano sonha que seu último voo antes de se aposentar seja ao lado do filho, o copiloto Bruno Cartolano. "A ideia é fazer o voo de despedida com ele", diz.
Em comum, as duas histórias mostram que a paixão pela aviação atravessou uma geração, mas nunca foi imposta de pai para filho. Veja a seguir a história de duas famílias, de dois pais e dois filhos que seguem a carreira como pilotos da Gol e falam de suas trajetórias e da expectativa em voarem juntos.
A paixão pela aviação
Embora tenham crescido vendo os pais vestirem o uniforme de piloto, Gabriel e Bruno afirmam que a decisão de seguir a mesma profissão foi deles mesmos. Os pais reforçam que fizeram questão de não interferir.
José Castanho conta que sempre quis que o filho escolhesse o próprio caminho. "Eu sempre tive a preocupação de que ele decidisse sobre o que iria fazer o mais breve possível quando se tornasse adulto. Mas não quis influenciar ele para determinar que ele seguisse a aviação", afirma. Quando Gabriel decidiu ingressar na profissão, o comandante admite que a preocupação passou a ser outra. "Fiquei preocupado se os requisitos para a profissão sobrecarregariam ele naquele momento", afirma.
Gabriel confirma essa percepção. Ele diz que sempre admirou a carreira do pai, mas que nunca sofreu qualquer pressão para seguir o mesmo caminho. A decisão amadureceu no fim do ensino médio, ganhou força após o primeiro voo, aos 16 anos, e foi consolidada durante a faculdade de Ciências Aeronáuticas. "Não me via fazendo outra coisa e, quanto mais me aprofundava na faculdade, mais foi confirmando essa certeza", diz o piloto.
Na família Cartolano, a história foi semelhante. Marcelo afirma que nunca interferiu para que nenhum dos seus três filhos seguissem a sua profissão. "Não influenciei nenhum a ser o que são hoje. Todos escolheram por livre e espontânea vontade", diz.
A surpresa veio quando Bruno, ainda no último ano do ensino médio, voltou de uma viagem e disse que queria ser piloto. "Expliquei todo o caminho para ele e falei que teria de terminar o ensino médio e começar uma faculdade. Nunca falei que ele teria de ser piloto", afirma.
Bruno lembra que a vontade surgiu ainda criança, em visitas ao aeroclube com o pai, mas ganhou forma em 2017. Depois de conversar com Marcelo, iniciou a formação e seguiu todos os passos necessários até ingressar na Gol em 2025.
"O pai nunca me influenciou a ser comandante. Quando eu nasci, meu pai já era comandante. Ele nunca me provovou a seguir essa mesma carreira", conta. "O momento definitivo mesmo foi em 2017, que eu lembro ter falado para o meu pai que eu estava pensando sobre isso. A partir daí ele começou a me apoiar", afirma o piloto.
Aprender pelo exemplo
Mais do que despertar o interesse pela aviação, os pais acreditam ter transmitido valores que os filhos levaram para a profissão.
José Castanho diz que sempre procurou ensinar pelo exemplo. "Não adianta cobrar de alguém algo que você não seja capaz [de fazer]", afirma.
Mesmo já trabalhando como piloto, buscou se qualificar. "Eu sou formado num curso de gestão de empresa aérea e sou pós-graduado em segurança de voo", conta. E revela: "Eu entrei na Gol, não tinha inglês, mas corri atrás", lembra.
Para Gabriel, a principal herança recebida não está relacionada à pilotagem. "O principal valor do meu pai é a integridade. Ele sempre prezou e passou para mim que a palavra não pode ser quebrada. E não só falava isso, ele mostrava isso. Muitas vezes ele dava sua palavra para amigos e ele sempre cumpria, mesmo que fosse prejudica-lo", destaca.
Na casa dos Cartolano, Marcelo diz que procurou ensinar aos filhos a serem "pessoas corretas, honestas, estudiosas e dedicadas". "Seja qual for a profissão, que fizessem com bastante amor, carinho e dedicação. O estudo é constante e a aviação vai mudando, então, tem de estudar sempre", diz.
Bruno destaca outro aprendizado passado pelo pai, a resiliência. Durante a pandemia, quando o mercado parou e o ingresso na aviação comercial demorou, foi o pai quem o convenceu a seguir em frente. "A resiliência é o fato de meu pai nunca ter me deixado desistir e, se isso tivesse acontecido, ele estaria lá para me levantar", afirma.
Ele também faz questão de desfazer um mito recorrente quando pais e filhos estão na mesma empresa: "As pessoas pensam que, por eu ser filho de comandante, as coisas foram mais fáceis para mim, mas não foram". Bruno lembra que precisou enfrentar os mesmos simuladores, provas e avaliações de qualquer outro candidato. "Posso ser filho do meu pai, mas a empresa não me daria a confiança de um avião de US$ 100 milhões na mão se ela não visse que eu estaria apto", diz.
Orgulho em dose dupla
Entre milhares de horas de voo, os momentos mais marcantes para os dois comandantes têm algo em comum: envolvem seus filhos.
Para José Castanho, o maior orgulho foi acompanhar Gabriel no simulador de admissão da Gol. "Não é porque é meu filho que foi aliviada ou facilitada a avaliação", diz.
Ao ouvir do instrutor que o filho "iria longe", teve a certeza de que ele estava preparado para seguir a profissão. Desde então, pai e filho já dividiram a cabine em três oportunidades, sendo uma delas quando Gabriel completou 2.000 horas de voo.
Marcelo guarda outra lembrança especial. Antes de ser pai, emocionou-se ao ver a reação do próprio pai quando soube que havia passado na Varig, em 1985. "Quando eu fui com essa notícia que tinha passado na Varig, foi uma glória para ele. De todos os filhos, viu que eu estava indo para a frente fazendo uma coisa diferente dele", diz.
Décadas depois, reviveu sentimento semelhante quando o filho entrou na mesma empresa que ele atua. "Quando o Bruno entrou na Gol, foi um orgulho de pai de ver ele indo para a frente. Comecei a rever tudo o que dei de educação para ele", afirma.
Legado além da profissão
Se a escolha pela aviação foi dos filhos, ambos reconhecem que o exemplo dentro de casa teve um peso decisivo.
Gabriel diz que cresceu tentando entender por que o pai voltava para casa feliz, mesmo depois de vários dias de trabalho.
"Eu sempre via ele feliz e realizado voltando de uma programação de voo. Às vezes ficava seis dias sem eu ver ele e eu via ele feliz, realizado mesmo assim. Eu me perguntava o que era um trabalho que te faça trabalhar seis dias fora de casa, às vezes com uma jornada de trabalho exaustiva, dormindo fora da tua casa, trabalhando às vezes durante a madrugada e, mesmo assim, ele chegava feliz. Alguma coisa tem aí que que eu quero descobrir", diz.
Desde pequeno, o filho também o acompanhava o pai em voos de táxi-aéreo. "Foi crescendo dentro de um avião praticamente", confirma José.
Bruno, por sua vez, conta que desde o início da formação sonhava em voar na mesma empresa do pai e participar de seu voo de despedida ao se aposentar. "Desde que eu entrei na aviação, eu sempre falei para ele que eu gostaria de voar na mesma empresa que ele, inclusive no voo de despedida", diz. Ele afirma que trabalhar ao lado de Marcelo é motivo de alegria. "Hoje em dia, estar na mesma empresa que o meu pai e ser conhecido pelo meu sobrenome, pelo meu pai, é um motivo de muita alegria", afirma.
Marcelo resume essa passagem entre gerações com uma metáfora que traduz a própria história das duas famílias. "É como se fosse uma corrida, que vou passar o bastão para ele continuar e eu diminuir o ritmo", diz.
José tem um desejo parecido. "Sempre foquei em transformar o Gabriel em um adulto e profissional melhor do que eu", afirma. Para ambos, esse talvez seja o maior legado que um pai pode deixar.
De pai para filha
Outra história que atravessa gerações na Gol une dois comandantes: Paul e Nathalia Cohen.
Nathalia decidiu ser piloto aos 19 anos, e disse que não houve conversa longa, nem planejamento. Foi durante uma viagem, daquelas feitas com o benefício do pai por trabalhar na companhia aérea.
"Perguntei a ele como eu poderia começar o curso. Do nada mesmo", conta. "E hoje sei que foi a melhor coisa que fiz na vida", diz.
O pai, comandante Paul Cohen, recebeu a notícia com surpresa. "Empolgado, orgulho tremendo", resume. O interesse, diz ele, veio só na adolescência.
Nathalia, no entanto, carregava a aviação dentro de si desde muito antes, mesmo sem saber. "A paixão foi de sempre viajar com minha família e poder ir na cabine com meu pai", recorda. "Desde sempre a aviação me acompanhou", lembra.
Para ela, o maior aprendizado não está nos manuais. "Um bom piloto tem que ter mais que uma boa pilotagem na bagagem. Precisa ter um bom gerenciamento entre outras coisas que envolvem nossa profissão. Com muita calma e elegância", afirma.
Paul diz que o valor que sempre tentou transmitir à filha foi a curiosidade. "Vai, erra, aprende e brilha", sintetiza. E reconhece o apoio que recebeu do próprio pai, avô de Nathalia: "Tive muito apoio do meu pai em todos os sentidos", diz.
Hoje, dividir a cabine com a filha é, nas palavras dela, "incrível". E completa: "Somos muito mais próximos que nunca. A gente conversa muito sobre tudo", conclui.
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