Cumprindo determinação legal, o PT apresentou um plano de governo à Justiça Eleitoral ao registrar a candidatura de Lula. Tem 13 capítulos, esparramados em 84 páginas. Como diretriz para o quarto mandato, o documento é um tesouro de promessas. Como peça de campanha, é um desafio à lógica.
Prestes a completar 18 anos de poder, o PT apresenta Lula e sua caravana como protagonistas de um empreendimento antissistema: "Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que mantém o Brasil no atraso, na desigualdade e na dependência".
Antecipando-se a uma pergunta incontornável — por que Lula já não fez o que promete fazer? —, o documento usa a "herança maldita" como vacina. Diz que Bolsonaro deixou um "legado de passivos". E desvirtuou a aplicação das verbas federais com as emendas do "orçamento secreto".
Falar mal do capitão preso pode ser uma desculpa. Serve também para realçar que o adversário real é Bolsonaro, e não o filho dele. Mas não apaga a luz vermelha que piscou na nova pesquisa da Quaest. Embora Lula esteja quatro pontos à frente de Flávio Bolsonaro, 55% dos eleitores disseram que ele não merece um novo mandato.
Há uma semana, Lula estreou na convenção do PT seu figurino "Lulinha porreta". Prometeu declarar guerra às emendas a partir de 2027. No plano de governo, o porrete foi, por assim dizer, terceirizado aos eleitores: "É preciso que o tema das emendas parlamentares seja debatido com a sociedade".
No capítulo sobre segurança, prioridade número um do eleitor, o programa inclui no rol de soluções um paliativo que Lula 3 descartou em 2023: a criação do Ministério da Segurança Pública.
Com a imoralidade em viés de alta, o documento informa que Lula 4 planeja enfrentar o surto suprapartidário de falta de ética com mais do mesmo: "Vamos dar sequência às medidas de controle e integridade da administração pública e ao combate à corrupção".
Com a dívida pública a pino — 81,9% do PIB — o programa petista acena com um "salto de desenvolvimento". E diz que o Lula do quarto mandato continuará "comprometido com a responsabilidade fiscal".
O texto promete "oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros." Num contraponto à devoção do clã Bolsonaro ao ídolo americano, refuta "a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional". É como se Lula, em sua versão antissistêmica, enxergasse a Casa Branca como um puxadinho do "velho sistema" doméstico.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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