Lula acertou ao colocar a soberania como eixo do programa de governo em meio à crise diplomática com os Estados Unidos, avaliou o professor Beto Vasques, da FESPSP, no UOL News, do Canal UOL.
Para ele, o tema entrou no debate público porque o governo Donald Trump passou a agir de forma unilateral e a pressionar países, inclusive o Brasil, em frentes comerciais, políticas e diplomáticas.
Essa agenda da soberania entra no debate público a partir, obviamente, não de uma invenção na cabeça de ninguém, mas de uma ação sistemática do governo Donald Trump ao longo dos últimos anos. Um governo norte-americano que acabou com o conserto das nações do pós-guerra, desrespeito às instituições multilaterais. A OMC foi ignorada, os Estados Unidos colocando tarifaços de forma unilateral. E a gente viu como essa utilização dessas políticas de força pelo império acabam acontecendo a partir dos seus interesses políticos.Beto Vasques
Vasques disse que, na visão de integrantes do governo Trump, a América Latina passou a ser tratada como "protetorado", e citou movimentos recentes que, segundo ele, ampliam a tensão com o Brasil às vésperas da eleição.
A gente viu a renomeação do PCC e do Comando Vermelho como narcoterroristas para permitir que as agências de inteligência e segurança nacionais dos Estados Unidos possam fazer operações no Brasil sem autorização do governo brasileiro. A gente viu como recentemente o governo norte-americano tirou o status de embaixadora plena da embaixadora brasileira nos Estados Unidos como uma retaliação.Beto Vasques
O professor também apontou que a soberania, no programa, não se limita a fronteiras e Forças Armadas. Ele destacou o risco de dependência tecnológica e de infraestrutura de dados, com empresas estrangeiras controlando satélites, nuvem e redes.
Soberania digital e de dados: como é que o Brasil tem satélites de baixa altura, cabeamento de fibra ótica submarina? Os satélites de baixa altura são de empresas, por exemplo, do Elon Musk, que é um aliado do Trump. A gente vai ficar na mão dessas pessoas? O governo norte-americano pode apertar um botão e deixar o Brasil num apagão de dados de uma hora para outra.Beto Vasques
Na avaliação de Vasques, a discussão chega junto com dilemas internos: como aumentar a proteção de recursos estratégicos e, ao mesmo tempo, lidar com desigualdade e violência urbana sem transformar a defesa em um gasto desconectado de produção local.
O Brasil hoje gasta 1% do PIB em defesa. A União Europeia está subindo agora para um valor médio de 5%. A gente vai quintuplicar? E o que a gente vai fazer com esse dinheiro? A gente vai aumentar cinco vezes nosso orçamento para comprar equipamentos e tecnologia de outros países em defesa enquanto a desigualdade continua e a violência urbana continua no país?Beto Vasques
Para o professor, o fato de o tema aparecer no plano de Lula e Geraldo Alckmin é "razoável e coerente" diante do cenário internacional, ainda que, segundo ele, seja uma agenda que ganhou força "de uma forma negativa".
O UOL News vai ao ar de segunda a sexta-feira em duas edições: às 10h, com apresentação de Fabíola Cidral, e às 17h, com Diego Sarza. Aos sábados, o programa é exibido às 11h e 17h, e aos domingos, às 17h.
Deixe seu comentário
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.