A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, renunciou ao cargo e deixará a instituição em 7 de fevereiro de 2027, informou o BCE nesta quinta-feira (29).
O mandato de Lagarde estava previsto para terminar no fim de outubro de 2027, mas as especulações sobre uma saída antecipada vinham se intensificando havia meses.
A decisão dá aos atuais líderes da União Europeia tempo para escolher seu sucessor antes da eleição presidencial francesa, marcada para o próximo ano.A candidata de extrema direita Marine Le Pen aparece como favorita nas pesquisas.
Lagarde já afirmou que não pretende disputar a Presidência da França, mas disse que deseja defender valores pró-europeus em seu país “na função que considerar mais eficiente”.
Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, Lagarde renunciou porque deseja ter mais liberdade para se manifestar sobre questões políticas na França e no cenário internacional. Como presidente do BCE, ela precisava manter a neutralidade para preservar a independência da instituição.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Lagarde afirmou que deixa a instituição com a sensação de "trabalho bem realizado" e um BCE "preparado para o futuro".
A saída antecipada provocou avaliações divergentes na Europa. Markus Ferber, eurodeputado alemão do Partido Popular Europeu e integrante da comissão parlamentar que participará da confirmação do próximo presidente do BCE, afirmou que a renúncia transmite “o sinal errado” em um momento de inflação elevada, mercados de títulos sob pressão e eleições próximas.
Segundo Ferber, a percepção de que a saída teria sido programada em função do calendário eleitoral francês poderia prejudicar a confiança em uma instituição que deve permanecer acima dos interesses políticos nacionais.
Marcel Fratzscher, presidente do instituto econômico alemão DIW, avaliou, por outro lado, que Lagarde demonstrou “forte senso de responsabilidade em relação à Europa”. Para ele, a saída antecipada permite que governos e instituições europeias escolham um sucessor comprometido com os valores europeus e com a independência do BCE.
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que a sucessão no comando do BCE deverá ser preparada de forma “organizada e equilibrada”, em conjunto com os demais países europeus. Macron também agradeceu a Lagarde por sua atuação à frente da instituição.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, informou que o processo para escolher o sucessor de Lagarde começará imediatamente. Os ex-presidentes dos bancos centrais da Holanda e da Espanha, Klaas Knot e Pablo Hernández de Cos, são apontados como os principais candidatos.
A sucessão de Lagarde poderá integrar uma negociação mais ampla envolvendo cargos importantes do BCE. Isabel Schnabel deverá deixar sua cadeira na diretoria executiva no início de janeiro, enquanto o economista-chefe da instituição, Philip Lane, tem saída prevista para maio.
Analistas consideram Knot e Hernández de Cos banqueiros centrais experientes e reconhecidos, o que reduz os riscos de turbulência durante a transição. Os mercados financeiros reagiram pouco ao anúncio da renúncia, refletindo a avaliação de que o BCE construiu uma reputação institucional capaz de sobreviver à troca de seus dirigentes.
Simon Dangoor, chefe de investimentos macro em renda fixa do Goldman Sachs, afirmou que o mercado já conhece bem a forma de atuação do BCE e que o comportamento institucional tende a permanecer semelhante, independentemente de quem assumir a presidência.
O Fórum Econômico Mundial vinha sendo apontado como um possível destino de Lagarde após sua saída do BCE. Procurada pela Reuters, a entidade não comentou o assunto.
Juros e turbulência
A renúncia ocorre em um período de forte incerteza econômica na Europa. O BCE está no meio de um ciclo de alta dos juros destinado a impedir que o choque nos preços do petróleo, associado à guerra no Irã, se espalhe para outros produtos e serviços, contamine os salários e mantenha a inflação elevada.
Ao mesmo tempo, a instituição precisa lidar com a disparada dos rendimentos dos títulos públicos, especialmente na França. O movimento elevou os custos de financiamento para famílias, empresas e governos e pode reduzir tanto o crescimento econômico quanto a inflação.
Diante da combinação de custos de energia persistentemente elevados e deterioração das condições de financiamento, o BCE deverá manter sua taxa de depósito em 2,5% nesta quinta-feira, mas poderá sinalizar um novo aumento, possivelmente já em dezembro.
Oliver Rakau, economista da Oxford Economics, avaliou que haverá pouca resistência a uma nova alta em dezembro, especialmente se o encarecimento da energia levar o BCE a revisar novamente para cima suas projeções de inflação.
A decisão do BCE sobre os juros será anunciada às 10h15 desta quinta-feira, no horário de Brasília. A entrevista coletiva de Lagarde está marcada para as 10h45.