Ao responder uma pergunta sobre uma eventual redução do preço do gás natural para a indústria brasileira, uma prioridade do governo, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, deu um corte seco: "Não somos uma ONG, nós somos uma empresa, a empresa tem que dar lucro."
A frase foi dita nesta sexta-feira durante a teleconferência de resultados da companhia. Na noite anterior, a Petrobras havia informado lucro de US$ 10,4 bilhões no segundo trimestre, ou US$ 11,1 bilhões excluídos os itens não recorrentes, o maior lucro recorrente de sua série histórica em dólares. Chambriard disse que mudanças nas regras obrigam a empresa a rever as premissas de projetos de óleo, gás, refino e petroquímica e que a rentabilidade é condição para investir.
A pergunta de uma analista tratava da proposta de obrigar a Petrobras a vender parte do gás que comercializa a outros fornecedores, mecanismo conhecido como "gas release". A companhia é contra. "A simples transferência da titularidade de moléculas de gás não vai garantir aumento da oferta e, portanto, redução do preço, que é o que o mercado brasileiro precisa", disse Angélica Laureano, diretora executiva de logística, comercialização e mercados.
Laureano afirmou que 31 empresas concorrem com a Petrobras, há mais de 100 consumidores livres e cinco terminais privados de regaseificação cuja capacidade, somada, supera a do terminal da estatal. Segundo a companhia, sua participação no mercado é hoje de 56%.
A Petrobras também argumenta que a oferta de gás ao mercado brasileiro aumentou de cerca de 29 milhões a 30 milhões de metros cúbicos por dia para quase 50 milhões nos últimos dois anos.
O tamanho do lucro da empresa tende a fazer a discussão sobre preços do gás para a indústria ganhar peso.
O que explica o lucro recorde da Petrobras
Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo no segundo trimestre: o petróleo ficou mais caro e a Petrobras tinha mais petróleo para vender.
O Brent, referência do mercado internacional, disparou com a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a interrupção do tráfego pelo Estreito de Hormuz. Ao mesmo tempo, a produção de petróleo da Petrobras bateu recorde de 2,689 milhões de barris por dia, 15% acima de um ano antes.
O preço médio realizado ficou entre US$ 100 e US$ 104 por barril, segundo o diretor financeiro, Fernando Melgarejo. O lucro chegou a US$ 10,4 bilhões, ou US$ 11,1 bilhões sem os itens não recorrentes. As exportações também cresceram: a companhia embarcou 996 mil barris de petróleo por dia, 12,2% mais que no trimestre anterior.
A maior produção não veio principalmente de ganhos de eficiência. Dos 355 mil barris diários adicionados em 12 meses, a Petrobras atribui cerca de 70 mil a esse fator. O restante veio sobretudo de novas unidades, como a P-79, que entrou em operação em Búzios três meses antes do previsto, e da chegada gradual de plataformas já instaladas à capacidade projetada.
Chambriard insistiu durante a teleconferência que o preço do petróleo, sozinho, não explica o resultado. "Nós tivemos mais de 10 trimestres com preços de petróleo superiores a esses no passado", disse, sem que o lucro recorrente tivesse atingido o mesmo nível. O refino também ajudou: as refinarias operaram perto da capacidade de referência e a companhia reduziu em 40% a importação de derivados, evitando comprar no exterior parte do diesel que ficou mais caro com a guerra.
A tensão entre rentabilidade e política de preços aparece também no mercado doméstico. A companhia disse ter oferecido às distribuidoras contratos mais longos de gás para reduzir o impacto da volatilidade do Brent sobre os preços.
No trimestre, a Petrobras pagou R$ 88,6 bilhões em tributos e participações governamentais, R$ 22 bilhões a mais que um ano antes.
A dívida bruta subiu para US$ 70,8 bilhões, principalmente pelo reconhecimento antecipado de contratos de afretamento renegociados.
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