Os três principais bancos privados do Brasil (Itaú, Bradesco e Santander) destacaram em seus balanços do segundo trimestre a prioridade para as linhas de crédito de menor risco, a exemplo do consignado e dos financiamentos de veículos e imóveis.
O que aconteceu
Grandes bancos ampliam olhares para créditos de menor risco. O Bradesco destaca o crescimento das operações de capital de giro com garantias, consignado privado e veículos. O Itaú, por sua vez, associa o crescimento da carteira de pessoas físicas aos produtos menos arriscados, principalmente o crédito imobiliário (+3,9%) e o crédito consignado (+3,5%).
Nossa carteira de crédito avançou com segurança e continua evoluindo na participação das linhas com garantias.Balanço do Bradesco
Modelos idealizados envolvem garantias diretas dos clientes. Enquanto o crédito consignado é descontado diretamente na folha de pagamento do trabalhador, os financiamentos de carros e imóveis têm os bens como garantia. "O discurso alinhado dos bancos diz para o mercado: 'eu até empresto, mas o prêmio vai ser mais alto pelo risco, e eu vou selecionar com pinça e lupa para quem emprestar'", diz Felipe Sant'Anna, especialista do grupo Axia Investing.
Qualidade das carteiras de crédito ganha maior relevância. O ambiente desafiador para a base de ativos fez os bancos elevarem suas despesas em PDD (Provisão para Devedores Duvidosos), reserva para cobrir eventuais calotes e inadimplências. No período, o seguro subiu 22,6% no Bradesco, para R$ 9,98 bilhões, 11,5% no Santander Brasil, para R$ 7,65 bilhões, e 7,4% no Itaú, para R$ 10,1 bilhões.
Virada das atenções surge com o aumento da inadimplência. Em um ano, os atrasos por mais de 90 dias no Santander subiram 0,7 ponto percentual, de 2,6% para 3,3%, enquanto os casos reportados pelo Bradesco cresceram de 4,1% para 4,3%. No Itaú, o índice permaneceu estável em 1,9%. "Depois dos eventos recentes, o mercado passou a valorizar mais a previsibilidade da geração de caixa e a qualidade das garantias", diz Rafael Nakamoto, CEO da Vitório.
A expansão do crédito junto com o endividamento das famílias faz os bancos enfrentarem muitos problemas, apertando muito o seu sapato e finalmente tomando algum tipo de posição.Felipe Sant'Anna, especialista do grupo Axia Investing
Novos focos dos grandes bancos têm inadimplência mais baixa. Dados do BC (Banco Central) referentes ao mês de junho mostram que a falta de pagamentos no consignado (3,2%) e na aquisição de veículos (6,6%) está entre as menores, assim como o crédito com garantias (2,3%). Por outro lado, o rotativo do cartão de crédito (63,3%) e o cheque especial (16,1%) lideram o indicador. Devido ao risco maior, as modalidades têm as taxas de juros médias de, respectivamente, 442,4% e 139,8% ao ano, as mais altas do sistema financeiro.
Cautela é acompanhada pelo maior controle dos custos. Os bancos também ressaltam a disciplina na administração das despesas operacionais. O cenário envolve manter a variação do volume de gastos abaixo da inflação. "As despesas operacionais seguem controladas, mesmo considerando os investimentos na transformação. Despesas de pessoal e administrativas crescem abaixo da inflação quando excluímos a PLR [Participação nos Lucros e Resultados]", diz o Bradesco.
Seguimos avançando em produtividade e eficiência operacional, totalizando R$ 13,2 bilhões [em despesas] no semestre, aumento de 1,7% na comparação com o mesmo período de 2025, em ritmo inferior à inflação do período, demonstrando disciplina na gestão de custos.Balanço do Santander Brasil
Juros também contribuem para a definição de custo do crédito. Os bancos reconhecem que a manutenção da taxa Selic em dois dígitos desde o início de 2022 representa um freio para a economia. "A taxa de juros que se manteve em patamar elevado pela política monetária tem segurado a inflação, mas se refletido num conjunto de empresas de diferentes portes", destaca o Bradesco.
Faz sentido que instituições financeiras priorizem carteiras mais resilientes, preservando capital e reduzindo a exposição a operações com maior volatilidade. Não é um recuo na concessão de crédito, mas uma mudança nos critérios de alocação de risco.Rafael Nakamoto, CEO da Vitório
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