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UOL há 86 d • Qui, 06 Ago 2026 23:15:00 -0300

Wagner Moura diz que Oscar abriu portas e que a onda latina nos filmes é imparável

Não demorou para que Wagner Moura voltasse a aparecer para o público americano após tomar os holofotes do Oscar em março, quando concorreu à estatueta de melhor ator por "O Agente Secreto". O baiano protagoniza agora "A Última Casa", thriller da Netflix que estreia nesta sexta-feira (7).

Ele encarna Jason, que, junto da mulher, vivida por Greta Lee, e os dois filhos, fica preso em casa de um dia para o outro. Uma chuva incomum e incessante forma uma espécie de película alienígena lá fora, impedindo a entrada ou saída da residência —não é possível nem quebrar portas ou janelas, que se refazem graças ao líquido misterioso.

Para completar o suspense de Louis Leterrier, diretor de "Truque de Mestre" e do décimo "Velozes e Furiosos", criaturas monstruosas vagam pelo bairro deserto enquanto todos estão trancados, numa caçada por humanos.

É o tipo de filme americano que seria transmitido na Sessão da Tarde, diz Moura sobre a faixa da Globo que exibe, em grande parte, sucessos comerciais pensados para diferentes públicos. "O streaming é uma realidade, e chega na casa de todo mundo. É um barato de fazer, mas é importante fazer também filmes para o cinema. A minha paixão por filmes tem a ver com ir ao cinema", continua o ator, que já estrelou outras produções da Netflix, como "Sergio" e "Agente Oculto".

É uma ressalva que combina com o perfil do ator, que aproveitou a própria projeção com "O Agente Secreto" para fazer campanha pela regulamentação do streaming no Brasil por meio das redes sociais e que vem, em paralelo a trabalhos em filmes e séries de streaming, se dedicando com afinco semelhante a obras pensadas para as salas de cinema.

Após dirigir "Marighella", ele popularizou sua voz nos Estados Unidos ao dublar o Lobo em "O Gato de Botas 2", animação elogiada pela crítica e sucesso de bilheteria. Dois anos depois, protagonizou "Guerra Civil", primeiro blockbuster do descolado estúdio A24.

No ano passado, ele levou "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, ao Festival de Cannes, no primeiro passo de uma longa campanha do filme até o Oscar, no qual recebeu quatro indicações, incluindo a de melhor filme.

"Hoje, depois de 'O Agente Secreto', tenho acesso a projetos e a conversas com diretores que seriam mais difíceis antes desse filme. O que não mudou foi o meu critério para escolher projetos e para fazer as coisas que eu quero fazer", diz Moura.

Apesar do suspense com pitadas de horror, "A Última Casa" traz reflexões sobre a masculinidade e os rumos da sociedade diante da crise climática. Jason, o protagonista, fica obcecado em proteger a própria família, tomando para si a responsabilidade de provedor que não cabe mais num cotidiano limitado pelo isolamento —realidade, aliás, que faz referência à pandemia de Covid-19.

"Ele [Jason] entra na loucura de resolver tudo, mas deixa de ver o que os outros estão fazendo. E, para tomar conta do outro, é preciso se deixar tomar conta também", diz Moura. A tensão se agrava entre os membros da família conforme a comida acaba e é preciso encontrar formas alternativas de se alimentar.

Muitas ideias surgiram para Leterrier, o diretor, ao observar o mar. Em entrevista, ele conta que mora num pequeno trailer próximo à costa com a mulher, que é surfista, e ano após ano percebe o aumento do nível das águas.

"Estamos nos cegando", diz ele. "Estamos caminhando para algo que é insano. Basta olhar para os incêndios na Europa ou em Washington, agora. O mundo está esquentando, e a culpa é nossa."

No filme, ele faz questão de ressaltar, a maioria das coisas em cena é real —os animais, a vegetação e a água, o que lhe permitiu extrair atuações mais orgânicas por parte dos atores. "Wagner tem uma abordagem muito autêntica em relação a tudo. Ele precisa sentir, precisa vivenciar. E isso porque ele é uma pessoa que quer evoluir como ser humano, assim como seu personagem."

Diferentemente de "Narcos", série de dez anos atrás em que Moura encarnou o traficante Pablo Escobar, talvez o grande personagem do baiano fora do Brasil, em "A Última Casa" ele volta viver um mocinho, papel historicamente menos repassado a atores latino-americanos em Hollywood.

Algo que está mudando, segundo Moura, que também esteve do lado bom das histórias em outras produções mais novas, como "Ladrões de Drogas", do Apple TV, e no próprio "Guerra Civil".

"A tendência é que esse estereótipo [do latino que é mau] se rompa. Por mais que os Estados Unidos vivam hoje um momento terrível com relação à imigração e ao racismo, é evidente que os latinos ocupam espaços na cultura e na sociedade que não são restritos àquilo que o governo Trump diz, de que seriam estupradores e bandidos", afirma.

"Esse é um movimento imparável", segue o baiano, ao falar da presença crescente de latinos em papéis mais diversos no cinema e na televisão. É uma tendência que, de certa forma, espelha outra, em curso no Brasil. "Hoje, nas novelas, há muitos atores nordestinos e pretos. Quando eu era jovem e comecei a fazer TV, isso não era muito comum."

Moura se tornou uma espécie de embaixador do Brasil em Hollywood, um pouco como Pedro Pascal é para o Chile. E com grandes poderes, vêm também grandes responsabilidades. "Me sinto responsável pelas escolhas que faço, porque sempre vai ter o caminho fácil."

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